as minha memórias-14-o nos nossos ancestrais, amavam?

família Mapuche Rauco, a festejar aos seu parentes Picunche

O leitor pode lembrar que faz tempo, tenciono entender o contexto da produção de crianças já adultas no dia de pesquisa, 1999. Bem como essa produção, não é o resultado de apenas a transferência de saber entre adultos e filhos de uma casa. Para entender esta pergunta, estudei as vidas de três raparigas de diversos continentes, nos anos 90 do Século XX: Victoria, do clã Picunche do povo Mapuche do Chile, Pilar, de Lodeirón, Paroquia de Vilatuxe, Pontevedra, Galiza, e Anabela, da aldeia de Vila Ruiva, Concelho de Nelas, Portugal. Analisei os seus pensamentos e os da sua família. De Pilar tenho já falado. De Victoria, apenas mencionado em outro ensaio, como é o caso de Anabela. Hoje vou introduzir Victoria, do clã Picunche do concelho ou municipalidade de Pencahue, que limita com a cidade de Talca, capital da Província denominada Maule.

Os Picunche eram denominados Promaucaes pelos conquistadores, no século XVI. Na altura que os Castelhanos foram ao país frio, o chile dos Quechua, esse habitantes da hoje República do Peru, esse inimigos imbatíveis, impossíveis de conquistar nas guerras índias (Villalobos,Sergio e tal. 1974; Lizana, 1909; Ovalle, 1646.

Pedro de Valdivia, 1545-1542). Os purum auca, os inimigos imbatíveis para os habitantes do norte do sul do hoje continente americano. Os que dançam, para os Castelhanos, os que se divertem, para quem fez uma enganada tradução mapudungun das palavras. Puru, feliz para os Mapuche e para os que Mapuche têm querido entender. Para os Mapuche, Picunche, as pessoas do Norte, donde che é pessoa, e Picun, Norte. Habitantes do Norte. Aliás, do Norte do rio Choapa, que separa os lugares nos quais viviam (ver mapa das etnias). Até Valdivia entregar as terras dos nativos, aos invasores, como relata ao Imperador Carlos V, nas suas cartas citadas. Eram sessenta as famílias invasoras. Terras assaltadas, beliscadas de volta, com raiva, com lanças, com flecha e arco, perdidas e tornadas a recuperar no dia em que o contrato de compra e venda entrou nas transacções, séculos mais tarde. Picunche que teciam, teciam a lã dos guanacos locais da Cordilheira de Los Andes, das lamas e vicunhas importadas pelos prévios invasores Inca. Tinham uma horta em cada grupo consanguíneo de lares contíguos, ou rucas, feitas de madeira e barro. Madeira não elaborada, fibra de madeira, ramas de uma árvore, plantas de junco ou coligue entretecido e enchido com lama ou barro, a quincha, como o material é ainda denominado e usado por grande parte da população do país. Antigamente, pelos Pehuenche, os Huilliche, os Picunche, os Mapuche, as várias famílias dos Rauco. Os habitantes não parentes, as vezes inimigos outras aliados, conforme for a continência dos tempos. Por engano, eram denominados Araucanos pelos Castelhanos (Silva Pereira,1998; Bengoa, 1985; Villalobos, 1974). Cultivavam o que ainda hoje usam para a sua alimentação e condimento: milho, feijão verde, cabaços ou pencas, origem do nome Pencahue que analisava, ají, a quente guinda ou piri-piri; a batata que salvou a Europa e a fez crescer demograficamente e em proteínas, e mani ou amendoim. Havia outras plantas não conhecidas entre nos, nos verdes vales regados pelos canais de aguas tiradas aos rios circundantes, o branco Claro, e o navegável Maule. Espantados os Castelhanos de ver um homem com tanta mulher, até seis ou sete, e tanto filho. Varias Crónicas sobre o Chile, relatam a fertilidade das terras, a fertilidade das pessoas, a fertilidade do imaginário que adjudica um deus ou espírito a cada fenómeno natural, a cada animal, a cada pessoa. Até hoje, com nomes mortos na memória, mas vivos na dos Mapuche (ver Silva Pereira, 1998). Mapuche e Picunche compartiam os mesmos deuses, a mesma cosmogonia. Que os Castelhanos apagaram rapidamente nas Doutrinas ou Reduções para as quais transferiram esses habitantes. Habitantes que, em breve, se misturaram com os Castelhanos e outros da Espanha, que aí chegaram. Desde 1666 em frente, é possível ver nos arquivos da Paróquia de Pencahue, esse imenso manuscrito que tive a sorte de encontrar, os nascimentos de Yndios, espanhóis, escravos, mulatos e mestizos, muito mestiço, uma percentagem crescente de mestiços ao longo do tempo, filhos de mãe índia e sem pai conhecido, ou casado com a mãe. È no século XVIII, a Encomenda ( Eyzaguirre, 1963) ou entrega de índios à custodia espanhola, de esses ignorantes que nem sabem nem podem cultivar  por serem preguiçosos, comentavam os espanhóis. A Encomenda acabada e os nativos, denominados mais em frente na cronologia da História, inquilinos, começam a aparecer no arquivo de matrimónios descoberto por mim na cave da paróquia, combinações reprodutivas de espanhol com mestiço, índio com mestiço e eventual espanhol. É só em 1829 como refiro mais em frente, que aparece o primeiro chileno, até serem todos chilenos, desde esse decreto da já República do Chile. Excepto, os não nascidos no Chile. Ou os que mantêm o jus sanguinis ou direito a nacionalidade pelo lugar original de nascimento da ascendência. Em uma terra, onde prima o jus solis ou direito à nacionalidade por ter nascido dentro das fronteiras do novo Estado ou nova República, que começara a existir, material e simbolicamente desde 1810, apesar de passar a ser um país livre, por direito de guerra, desde 1818. Legalmente, desde 1833, data da Constituição denominada primeira.

É desta combinação de sangues, que os ancestrais de Victoria, aparecem, como a sua genealogia, escrita nos livros do meu achado, descreve. Em uma época que os matrimónios eram rituais celebrados conforme o estatuto social das pessoas. Tempo em que os pais só o eram, se for da mesma raça ou etnia. Entre Picunche, a união é patriarcal, o longo ou chefe da família, mora com as suas mulheres de idades diversas, na mesma ruca ou rucas perto umas das outras, onde vão morando os filhos mais crescidos, que tomam mulher e têm filhos. Todos em conjunto, vão trabalhando as terras férteis, em família no sistema de mingaco, ou reciprocidade consanguínea sistemática, para trabalhos pesados que precisavam muitas pessoas. Trabalho e festas eram combinados, com comida e chicha ou álcool de milho ou maíz fermentado. As rucas, todas juntas dentro da mesma área ou lov em mapudungum, facilitava o trabalho da família extensa que eles constituíam, patriarcal e de filiação patrilineal: as mulheres saíam dos seus lares e famílias para passarem ao sítio de rucas ou casario do cacique ou chefe do grupo doméstico alargado. É assim que começa a família de Victoria, até onde foi possível traçar a sua origem nos ditos arquivos paroquiais. Eram originários do sítio onde os Castelhanos catequizavam nativos, ou Doutrina de Rauquen, elevada a Paróquia, em 1699. Em consequência, Doutrina Encomendada, para custódia de índios e terras, a uma família espanhola, os Parot. Rauquen, casario Picunche onde morou a última Cacique da denominada monarquia Picunche, essa Doña Ana, que em 1665 organiza um malon ou ataque por surpresa, á Vila de San Agustin de Talca ou Tralca, trovão em português. A derradeira Cacique ou chefe política Picunche. A derradeira, porque o casario Picunche, de propriedade nativa, passa a categoria de Doutrina, a Paroquia depois e a Encomenda e Hacienda dos espanhóis. É pelos anos de 1700 que o espanhol encomendado de Rauquen, casado com Pascuala Allende, faz o primeiro filho, o primeiro mestiço, na pessoa de Tránsito Cerpa, inquilina de Rauquen, filho fora do matrimónio, criado por ela, que casa com Fortunato Arredondo Cerpa, com Juana Maria González Zapata, filha, neta e bisneta de nativos do dito Rauquen, inquilinos todos já da  hacienda de espanhóis, e das novas Haciendas de Rauquen, Libún e outras como Quepo, Las 200, Toconay, Corinto, Carrizal, sítios desconhecidos pelo leitor e que é possível ver em mapa anexo (Mapa 1). Nas quais as mulheres, de oficio cortadoras de folha, tecedoras e cultivadoras de terra dos proprietários. Vivem ou com o seu grupo, ou com o homem com o qual fazem filhos e deles esses homens, preocupam-se. Vivem, ou casam, ora com outros nativos, ora com os depois inquilinos, ou com espanhóis que fazem crianças com elas e cujos nomes dão aos pequenos, enquanto as pequenas só guardam o nome de baptismo. A ancestralidade de Victoria, pelo lado materno, é de origem Picunche, como é possível apreciar em tipos corpóreos, em costumes e crenças. A avó, mãe da mãe de Victoria, é neta de nativa e espanhol não casados, como é possível apreciar da sua genealogia. No século XVIII, os nativos são seres humanos, mas não pessoas. Entidades desconhecidas ainda a acreditarem no deus Pillán, que traz malefício aos que fazem mal a eles próprios. Um roga pragas Pillán, usado até o dia de hoje, para as pessoas se defenderem de pragas rogadas a eles. Que, no caso dos Picunche, eram os invasores que tinham tirado terras e hierarquias. A hierarquia Picunche é muito simples: o cacique ou pater famílias de um grupo consanguíneo extenso; os shamanes ou gestores das divindades heterogéneas que governavam pessoas, as suas condições, e as sua pertenças. Mais do que chefias ou estratos, são estatutos sociais adquiridos pela capacidade ou poder de lidar na coordenação de actividades e habilidades. O cacique, coordena actividades reprodutivas; o shaman, habilidades existentes ou restauradas, caso houver incapacidade temporal, e orientadores de espíritos. Até o dia de hoje, ano da minha pesquisa desde 1997-2000. Uma cosmogonia que permeia os ditados das crenças católicas, pregadas em homilias e catequeses pouco entendidas a causa da língua, da experiência histórica, e dos símbolos, como tão directa e simplesmente, é dito por Gomes da Silva (1989). Eu acrescentava, pela luta de memórias acumuladas cronologicamente, sincretisadas na aceitação do Outro no Eu. Como a Historia Colonial demonstra.

Villalobos, Sérgio, 1974 Eyzaguirre, Jaime, 1963: História de Chile, Zig-Zag, Santiago de Chile

Lizana, Elias, 1909: Apuntes para la historia de Guacarcahue, Imprenta y Encuadernación, Santiago, Chile.

Ovalle, Alonso de, (1646) 1969: Hiftórica relación del Reyno de Chile, Instituto de Literatura Chilena, Santiago, Chile

Silva Pereira, Luís Cirilo da, 2000: Médico, Xamã ou Ervanária, ISPA, Lisboa.

Valdivia, Pedro de, (1542-1545), 1991: Cartas de Don Pedro de Valdivia, que tratan del descubrimiento y conquista de la Nueva Extremadura, Editorial Andrés Bello, Santiago, Chile.

Villalobos, Sérgio; Silva, Osvaldo; Silva, Fernando; Estelle, Patrício, 1974: História de Chile, Editorial Universitária, Santiago, Chile

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