Deus à imagem e semelhança do homem

Com base neste texto, Jorge Oliveira explica, erradamente, que a minha ausência de crença em Deus se baseia no facto de que “Deus (e os seus anjos) deixe morrer tantos e poupe apenas uns poucos.” Deus não me preocupa – os homens, sim – e a minha falta de fé não tem explicação: foi algo que me aconteceu e com que vivo confortavelmente até hoje. Não acredito em Deus porque não e, sobretudo, o sobrenatural não me preocupa.

O que disse no texto anterior é mais do que isso: mesmo admitindo que Deus exista, recusar-me-ia a prestar culto a uma entidade que manifesta preferências aleatórias pelos elementos da sua criação. Um Deus omnipotente e sumamente bom não deve fazer isso, seria um abuso de poder inaceitável. Mesmo não acreditando, só posso aceitar um Deus que não se comporte como um tiranete que compensa quem o adular e castiga quem não o fizer. Se Deus, a existir, não me fizer a vontade, o problema será meu, eventualmente.

Quem acreditar em Deus não merecerá ser desrespeitado por isso. O que não consigo respeitar é quem se serve dessa crença para exprimir irresponsabilidades como as daqueles que se afirmam portadores de um privilégio ou que chegam ao ponto de explicar acasos invocando Nossa Senhora de Fátima, num populismo desavergonhado.

De resto, a História da Igreja está carregada de figuras luminosas e sinistras, exemplares as primeiras e condenáveis as segundas. De um lado, temos, por exemplo, São Francisco de Assis, que até correu o risco de ser considerado herege, e, do outro, Torquemada, que, mais do que um nome próprio, passou a ser uma característica. De uma maneira geral, a Igreja, sempre que pôde, nunca quis esperar por Deus, preferindo, sempre, castigar por antecipação todos aqueles que seguiram outros caminhos. Ou seja: o problema é, mesmo, o Homem. Com Deus, será sempre fácil cada um resolver os seus problemas.

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