As mulheres, a Comuna de Paris e o Sousa Tavares

‎”Não nos pronunciaremos sobre estas fêmeas, por respeito pelas mulheres a quem elas se parecem quando estão mortas”

Comuna de Paris: Barricada da Praça Blanche, defendida por mulheres

Alexandre Dumas Filho, escritor francês feminista a propósito das mulheres revolucionárias proletárias da Comuna de Paris. Escreveu em 1872 “La question de la femme” para a Associação pela Emancipação Progressiva da Mulher. Intelectual burguês, Dumas Filho defendia as mulheres na medida em que estas pertencessem à sua classe social.

Numa escala bastante diferente, faz lembrar o Miguel Sousa Tavares a referir-se aos deolindos. A Comuna de Paris chocou brutalmente os espíritos requintados. O seu esmagamento num mar de sangue aliviou-os.

As tropas de Versalhes avançaram bairro por bairro, enquanto a Comuna erigia centenas de barricadas com pedras de calçamento e sacos de areia. Na sua retirada, os integrantes da Comuna ateavam fogo em tudo: na noite de 24 de maio foi incendiado o castelo das Tulherias, ruas inteiras foram consumidas pelas labaredas. Nos últimos dias de luta, inúmeros reféns foram mortos, entre eles também o arcebispo de Paris.
Com a queda da última barricada, no dia 28 de maio de 1871, terminou a “semana sangrenta”, mas não o derramamento de sangue. Milhares ainda foram mortos, nos dias seguintes, nos parques, quintais e nas casernas. Os historiadores calculam que a Comuna tenha assassinado cerca de 500 adversários políticos, enquanto as tropas governamentais mataram entre 20 e 25 mil pessoas durante a reconquista de Paris e nos dias imediatamente posteriores. “ in Dw-world

Que isto não tenha sido em vão! E que os espíritos requintados vão assobiar para outra freguesia.

Ainda nos vêm falar de terrorismo. Filhos da puta!

As senhoras burguesas e as elegantes vinham ao cais cuspir naqueles não foram fuzilados contra os muros mas que foram arrebanhados e metidos em barcos para colónias penais.

Mais uma vez me faz lembrar o Sousa Tavares. Temos dum lado o mundo da elegância e da civilização e do outro a populaça apenas tolerada para trabalhar mas esmagada ferozmente e sem contemplações mal levantou a garimpa. Na televisão, as sumidades que parecem julgar que sustentam o mundo com as suas opiniões, também não parecem viver no mesmo mundo daqueles a quem criticam, os famosos populares. Um popular é uma espécie de selvagem que vive fora da televisão mas que quando lá aparece perturba a sua ecologia requintada. Um popular é um histérico, um irracional, um não elegante. Supostamente é um figurante da história. Quando ameaça ser actor é hostilizado.

António Oliveira

7 comentários em “As mulheres, a Comuna de Paris e o Sousa Tavares”

  1. Comparar os “deolindos” com os pobres, ou os populares da comuna de Paris, é um insulto aos pobres e aos revolucionários prontos a dar a vida por uma causa.
    Os “deolindos”, por muitas razões de queixa que tenham, não vivem fora das televisões, e frequentam sítios elegantes. E eu que detesto o homem (MST) até parece que o defendo.

  2. E eu, que sei que o Nietzsche não gostava da Comuna, tenho que admitir que acertava quando falava em ressentimento.
    A causa dos comuneiros era a da sua emancipação. Onde estariam esses homens e mulheres anos antes de se encontrarem nas barricadas? Talvez se fossem entrevistados nessa altura não se mostrassem com tanta vontade assim de ceder a vida. Talvez até, alguns deles, estivessem mais prontos a cedê-la pela Pátria que mais tarde os veio a massacrar. Os que se encontraram em 1917 nos sovietes não tinham antes aceitado mansamente ser conduzidos ao massacre das trincheiras?
    Você não entendeu a minha referência aos “populares” e à televisão e à comparação com a comuna. Populares é um termo que os senhores da televisão usam para se referirem às pessoas comuns. Porque não pertencem ao mesmo mundo. Da mesma maneira, massacrar os proletários de Paris não foi um crime hediondo para a sociedade dos literatos e para o seu público elegante, as mulheres deles eram “fêmeas”.
    Os deolindos, que para você não merecem solidariedade porque “frequentam sítios elegantes”, são na verdade uma parte importante do proletariado actual. Você acha que um proletário não tem nem educação superior nem cultura. Supostamente apenas se interessa por futebol. Mas um proletário não o é por ser pobre ou por ser inculto mas sim por estar desesperado e não ter nada a ganhar com esta sociedade, por necessitar de a mudar para afirmar por fim a sua humanidade. Não digo que já tenham chegado a esta conclusão mas é essa a sua situação.
    Mas você quer opor os jovens aos velhos, mas sobretudo, ao que parece, os que estudaram aos que não estudaram. Tal como há quem diga que os daquela secção já ganham mais que eu. Na verdade, para se chegar ao ponto de proclamar uma Comuna é preciso ultrapassar essas distinções e atacar o único inimigo, a ordem existente com todas as suas separações.
    A luta de classes não se baseia na inveja, nem na inveja dos que têm o poder e muito menos na inveja dos que ao nosso lado têm mais estudos ou ganham mais.

    Sobre o uso do termo “populares” ver este artigo http://silenciodospoetas.wordpress.com/2009/02/12/o-que-e-a-comunicacao-social/

  3. J.O.
    Você assume muitas coisas sobre mim não tendo qualquer razão para o fazer.
    Onde leu que eu acho que o proletariado não tem educação superior ou cultura? Onde leu que eu entendia não merecerem os deolindos a minha solidariedade? Julgo que há grandes razões para que a juventude dita à rasca se manifeste. Daí a comparações com a comuna vai um passo de gigante. E mesmo eu, que nada sou ao pé de Nietzche, também não morro de amores pela comuna, porque simplesmente não acredito nos bons resultados de tais situações, mas compreendo a revolta e a frustração de quem é oprimido.
    Sinceramente não vejo onde esteja a luta de classes nesta coisa do dia 12!
    E tenho a certeza que a maioria dos licenciados deste país não tem qualquer educação superior ou cultura. Mas a culpa não é deles. É dos que andaram a fazer a tal luta de classes.

  4. Realmente, assumi uma coisa que fez com que gastasse tempo a responder-lhe. Que a tal luta de classes, mesmo que de uma maneira deformada, não era vista por si dessa maneira. Sendo assim não tenho nada a dizer-lhe. Se este blogue fosse meu nem sequer teria aceitado o seu comentário.
    Como dizia mesmo o poeta? Era assim: “O diálogo? Que diálogo pode haver entre o condenado à morte e o carrasco que o conduz ao patíbulo? O diálogo é entre amantes, entre amigos, entre camaradas. Fora disso não há diálogo. Tens a palavra, explorado.”

  5. E não aceitava o comentário porquê? Este blogue não é um emissor, é, quando muito, um emissor-receptor. Mas isto é uma opinião pessoal, a minha.

  6. Como eu disse o blogue não é meu. Mas receptor de quê? De ecos? Resta saber donde surgiu a emissão original. Onde há estado não há grande comunicação. O diálogo só é possível quando se quebra a separação. Quem culpa a luta de classes pela suposta falta de cultura dos licenciados chama diálogo ao monólogo ventríloquo do espectáculo. Os soldados alemães na primeira carnificina mundial levavam volumes de Goethe nas mochilas e matavam com a mesma eficácia que um camponês russo. O Portugalito de outrora tinha doutores que brilhavam apenas na analfabetice embasbacada que os reconhecia. O único programa realista é abolir o trabalho. O resto é demagogia e pré-marxismo, ou seja, posições datadas.

    1. Mais uma vez assumiu coisas que eu não disse. Onde leu que culpei a luta de classes pela falta de cultura dos licenciados?
      Mas como não quer falar comigo, retiro-me silenciosamente, eu que não o considero inimigo, quando muito um adversário de ideias.

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