12 de março, a rua é nossa

Quando tinha 14 anos houve um golpe militar e depois uma revolução. Bem, uma pequena revolução. Mudou-me a vida.  Não mudou a nossa vida como gostaria que tivesse mudado; as mesmas 20 famílias voltaram para tomar conta do país que é sua propriedade desde o séc. XIX; a política que por uns tempos se alimentou de sonhos passou a ser a carreira com que alguns sonhavam, e não estando tudo agora como estava, tem estado cada vez pior.

Quando houve essa pequena revolução passei mais tempo nas ruas que em casa. A rua era nossa. Depois voltei para casa. Nestes 30 anos poucas vezes fui à rua. A rua agora às vezes tem manifes formatadas. Uns tipos de megafone na mão gritam palavras de ordem como se fossem ordens, o pessoal repete como se estivesse num filme militar americano. Não faz o meu género.

Hoje volto à rua. Porque não houve formatação nem nasceu de organizações formais, e gosto da informalidade. Porque se o tema é uma geração o problema é de todas as gerações. Porque já não via tanta força e espontaneidade desde os idos de setentas. Porque estarei a caminho da senilidade mas ainda sei distinguir uma revolta de um ritual. Porque estamos fartos.

Porque, 123, acredito que hoje a rua volta a ser nossa.

Comments

  1. António says:

    Penso que esses jovens tiveram um erro, ao lançarem-se assim em catadupas de relações internacionais, arquitectos paisagistas, engenheiros de design industrial, design informático, advogados. No Norte existe uma empresa premiada que fai fechar por falta de serralheiros especialistas. O que nós precisamos enquanto pais é de jovens oprerários especializados e cultos alfabetizados, e esses não podem sair da população com fraco aproveitamento escolar, que em certos centros abandona os cursos antes de acabarem para poderem voltar a inscrever-se nos proximos cursos. E isto com emprsarios que pedem aos centros estagiários. Alguns destes jovens estão a tempo de reciclar a sua actividade profissiona. Um bom soldador se desejar pode viajar pelo mundo. O que precisamos no nosso pais é que esses jovens voltem ás origens, os operarios sempre foram a base de qualquer pais, para se poderem instalar industrias é preciso especialistas

  2. António says:

    Quanto à espontaneidade, ela é rapidamente aproveitada, o vazio não existe na politica, em breve energumenos se vão aproveitar da situação. O que cada um desses jovens tem de fazer é uma reflexão pessoal acerca da sua propria vida, alguns deles tem menos de 22 anos, se escolherem uma profissão, agora, aos 30 podem ser altamente especializados, caso contrario vai-lhes acontecer o mesmo aos operarios não especializados das fabricas que fecharam, com ´50 já é tarde para aprender algo às vezes para muitos que infelizmente são tecnicamente analfabetos já é tarde para fazer algo. O ano passado colaborei numa formação de jovens que reinventavam a sua vida profissionalmente, pelo que sei hoje estão todos a trabalhar, eram cultos, de familias com posses, mas agora são operários.
    Como o nosso pais precisa de especialistas operários, e a Europa, de Engenheiros por exemplo na Alemanha. Já agora também precisam de engenheiros na Auto-Europa.

  3. Manuel Miranda says:

    FLEXISSEGURANÇA
    Flexibilidade!… Segurança?…

    A revista “Visão”, 30 de Novembro, reagia, indignada, porque foi o primeiro órgão de informação a trazer nas suas páginas e com chamada à capa a confusa palavra “flexigurança” (assim mesmo escrita). A revista reagia com melindre não ter sido referida, citada, comentada por outros jornais que só dias depois estamparam a palavra nas suas páginas e logo tiveram eco, e assim a confusa palavra mereceu debate e sem que a revista tivesse sido referida, elogiada pelo palavrão que primeiro nos trouxe.
    No coro que se seguiu também não faltou quem achasse que a desconhecida palavra seria um bom achado para assunto de debate promovido pelos nossos políticos, nos meses que serão de presidência de Portugal na Comunidade Europeia.
    A palavra rara e desconhecida houve quem achasse que poderia ser usada por políticos com pouca doutrina, tentando embalar o povo português, desconfiado e maltratado por anos de carestia e de desprezo por direitos adquiridos, conduzindo-o de modo disfarçado para mais apertos.
    Nesse embalar nada melhor que empacotar conceitos em palavra rara, deixando a ideia de que as medidas empacotadas nesse palavrão vêm dos países do norte da Europa, onde se vive bem, onde há respeito por quem trabalha, onde o trabalho é respeitado e bem pago, onde os empresários têm cultura e não exibem grandezas de novo-riquismo.
    Mas o caso é que a palavra não foi introduzida com correcção gramatical, com respeito pelas normas da língua portuguesa. Logo aí o rabo escondido deixou o gato às claras. É que a palavra “flexigurança” (assim escrita) confunde e não respeita os conceitos que pretende transmitir. A palavra correcta é “flexissegurança” (assim escrita), segundo respeitáveis sabedores dos assuntos da língua portuguesa. O palavrão “flexigurança” (assim escrito) é uma enormidade gramatical para traduzir uma enormidade social. Confunde conceitos claros que despertam indignação. Pela palavra “flexissegurança”, assim de modo mais transparente, chegamos depressa ao centro da questão. Isto significa só e simplesmente “flexibilidade” e “segurança”, ou melhor, “flexibilidade” no trabalho. Quanto à segurança, tudo depende do mercado!… Eis a descoberta e tanta confusão para assunto que todos nós já conhecemos.
    E então pergunta-se se ainda é necessária mais flexibilidade nas leis do trabalho, se já com as leis que temos patrões deixam de pagar salários, despedem com facilidade, arrastam empresas para falências manhosas, deslocalizam empresas para outras paragens à cata de outros subsídios, exploram trabalho infantil, recorrem a trabalho precário de carácter permanente, trabalho à peça, e tudo possível com impunidade, tudo com muita flexibilidade.
    Há meses atrás, numa viagem com população para dois autocarros, um era conduzido por um motorista já com anos na empresa e com responsabilidades na formação de novos colegas, motorista com viagens ao estrangeiro, com salário estabelecido, um ordenado de pouco mais de 500 euros mês, transportando a responsabilidade de 60 vidas. O outro autocarro era conduzido por um motorista com contrato ao jeito da flexibilidade, a ganhar enquanto em tarefa conduzia agarrado ao volante. Chegados ao destino, arrumadas as viaturas no parque de estacionamento, este deixou de estar ao serviço, deixou de estar a ganhar. Voltou a ser pago quando voltou a agarrar o volante para a viagem de regresso. Um dia de ocupação para trabalho pago de poucas horas, o tempo de uma viagem de Coimbra ao Porto e volta. Mais flexibilidade laboral do que esta já só escravatura.
    Para encher a palavra rara, seguiram-se outras iniciativas. Lá foram uns jornalistas em reportagem à terra da “flexigurança”. E ouvimos que lá na Dinamarca não há horário de trabalho estabelecido por lei, tudo muito flexível. Mas de lá ouvimos dizer por jornalistas da reportagem da TV que ninguém trabalha tantas horas por semana como cá em Portugal. Contas com flexibilidade feitas, trabalha-se lá menos 3 horas por semana. Lá na Dinamarca não há salário mínimo estabelecido por lei, tudo muito flexível. Mas ouvimos que num trabalho em terras agrícolas ninguém ganha menos de 2000 euros por mês. Lá não há medo de ser despedido, tudo muito flexível, porque há facilidade de encontrar trabalho.
    Tragam-nos então a flexibilidade da Dinamarca e com a flexibilidade tragam-nos a segurança social que se goza na Dinamarca. E a nosso contentamento esquecerá a desconfiança.
    E na palavra nova e esquisita não se meta a peçonha e a maldade que lá onde a palavra dizem que nasceu, na Dinamarca, não meteram.

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