O negacionismo

Há dois anos o último governo de José Sócrates caiu, onde há muito em Portugal não caiam os governos: na rua.

Claro que para os negacionistas do PS fica bem soltar uma gargalhada, e garantir que não foi nada disso, a culpa terá sido de quem posteriormente não votou favoravelmente um PEC  criado e gerido para ser chumbado na AR, no que terão o apoio veemente dos que pensam a História uma cousa de gabinetes, reuniões, políticos, acordos, desacordos, troikas e outras ilusões. Negacionismo que alacançou todo o seu explendor nesta imagem canciana, tão bem titulada de “coisas verdadeiramente inexplicáveis“:

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Ficando a dois passos do ridículo e roçando sempre o caricato, o negacionismo entre nós teve outros esplendores:  o 25 de Abril enquanto golpe de estado não teria sido tão simples se a negação da realidade não estivesse estacionada na Pide/Dgs, que nem a avisos de congéneres estrangeiras ligou importância e viu o Março das Caldas como um ponto final na contestação de meia-dúzia de tropas acometidos de cobardia colonial. [Read more…]

Reviver o passado em Março (6)

Tivesse eu vinte e tal anos e circularia hoje à tarde em alguma das manifestações que se presumem inspiradas por uma musiquita com uma letra sofrível que o amargurado contexto em que subsistimos fez catapultar para uma relevância totalmente imprevista, sobretudo para quem a obrou, o grupo ‘Deolinda’. Mas, quarentão como sou, entendo essas e outras melodias com outros tons e não vou pôr lá os pés.

Carlos Abreu Amorim, Blasfémias, 13-03-2011

Reviver o passado em Março (5)

Pessoas da geração do 25 de Abril andam muito zangadas com o povo porque o povo se manifesta contra os partidos. Dizem que não pode haver democracia sem partidos. Não sei se pode. Se calhar não. Mas quando o povo se manifesta contra os partidos, não é o povo que tem que mudar.

João Miranda, Blasfémias, 14-03-2011

Reviver o passado em Março (4)

Havia de tudo. Também no tocante as gerações. E a muito mais. A tudo quanto possa distinguir a denúncia do protesto. Com maior ou menor conhecimento da origem dos nossos males. Certamente unidos no mesmo desprezo pelas palavras do Ministro Santos Silva, já tornadas públicas, insinuando a demagogia dos manifestantes.

João Afonso Machado, Corta-Fitas, 12-3-2011

Reviver o passado em Março (3)

 JPP, que também faz parte da “classe política”, também entendeu seleccionar umas fotografias em que alguns manifestantes empunham cartazes contra os políticos, talvez para provar a sua tese sobre o carácter anti-democrático da manifestação. É uma selecção tão ridiculamente lateral que só pode ser contraproducente e ter como efeito que os que poderiam ouvir JPP passem a mudar de canal quando ele aparecer a falar. Para além de que não é honesto – acho mesmo intelectualmente desonesto fazê-lo depois daquilo a que assistimos ontem – querer fazer querer que o imenso “basta” de ontem se dirige contra a democracia. Para vacuidades e preconceitos já basta o Miguel Sousa Tavares e o Mário Soares.»

João Gonçalves, Portugal dos Pequeninos,  13-3-2011

Reviver o passado em Março (2)

Outras grândolas.

Reviver o passado em Março (1)

Desceu à rua um Portugal farto de tudo isto. Farto por boas e más razões, mas sobretudo farto. Desceu à rua um Portugal que quis fazer qualquer coisa, mesmo que não saiba muito bem como as coisas podem ser diferentes. Desceu à rua um país inorgânico mas, no essencial, ordeiro e respeitador da democracia. Desceu à rua um Portugal algo desesperado mas não revolucionário. Desceu à rua um Portugal que gostou de verificar que não está totalmente alheado da coisa pública.

José Manuel Fernandes, Blasfémias, 13 Março, 2011

Há um ano, voltou a fazer-se História na Praça da Batalha


Completa-se hoje um ano sobre o histórico 12 de Março da Geração à Rasca.
No Porto, se bem se lembram, o 12 de Março foi celebrado na Praça da Batalha, palco histórico de outras lutas e outros protagonistas. Ali, há 121 anos, no dia 31 de Janeiro de 1891, os revoltosos republicanos tentaram ocupar os Correios e o Telégrafo, que ali se encontravam, para informar o país da vitória da República. Barrados na actual rua 31 de Janeiro pelas tropas fiéis ao rei, foram dizimados. 120 anos depois, voltou a fazer-se história na Praça da Batalha.
Um ano depois, o que ficou dessa luta? Infelizmente, prefiro não responder.

Vamos à próxima?

Escolhi este vídeo, entre tantos bem profissionais e de grande qualidade, para assinalar o 12 de março de 2011.

Porque é uma simples captação de imagem, se calhar com um telemóvel,  feita no meio da multidão. O 12 de março foi assim, sem profissionalismos, com instrumentos de comunicação muito primitivos (mesmo dentro das redes sociais a coisa foi um bocado naive), onde uma multidão de gente que foi dando uma ajudinha espontânea.

Porque apanha os Homens da Luta, cuja vitória no festival das cançonetas foi um ponto fundamental na mobilização, brilhantes e inexcedíveis no aproveitar do tempo de antena para espalhar a notícia. Houve quem desse por isso, já sem tempo de correr atrás do prejuízo. E o 12 de março foi alegria, seja a luta assim enquanto puder ser.

Isto foi o 12 de março. Muito à portuguesa, juntaram-se vários acasos e o povo saiu à rua. Voltará a acontecer? Há agora muito mais motivos para isso. Só faltam os acasos.

PS: fantástica a ideia do Público:  ir buscar como “especialistas” para comentar o 12 de março dois apoiantes do governo de então, no fundo tal como os 1% dos únicos que não foram para a rua. Nesta senda aguardo que Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa sejam entrevistados para uma análise séria e objectiva das equipas adversárias.

Eu, lisboeta, indignado em Março, Outubro e sempre

indignados S.Bento

Em diálogo com Trasímaco, o autor do conceito de que “a justiça consiste no interesse do mais forte”, Sócrates, o autêntico, afirmou-lhe:

Sim, meu caro, não é porque o homem injusto exista e possa fazer mal, às ocultas ou às claras, que eu me convenço de que a injustiça é mais vantajosa do que a justiça. E não sou talvez o único, aqui, a pensar deste modo…

A meu ver, a citação tem sentido à luz das motivações dos indignados que, ontem, se manifestaram em quase 1.000 cidades de 82 países.

Percorri mais de 300 km, de ida e volta ao Alto Alentejo, para comparecer na marcha dos indignados em Lisboa. Hoje, soube em primeira-mão pelo ‘Público’, está reunida nova Assembleia Popular, frente à AR.

Estive na manifestação de Março, voltei em Outubro e estarei sempre presente para, em conjunto com muitos milhares por esse mundo fora, lutar contra a injustiça de um vil e arrastado crime servir de álibi aos governos para massacrar e destruir a vida de milhões de famílias; defendem, contraditoriamente, aqueles que o perpetraram, ao abrigo de um sistema financeiro em roda livre e sem supervisão.

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Os brioches de Fernanda Câncio

Ao 12 de março Fernanda Câncio reagiu assim:

ao acampamento do Rossio assim:

Quando a multidão do 12 de março se juntar à ideia de que a rua é nossa, ocupada a tempo inteiro até à mudança, quando a elite do regime tremer porque os desempregados, e muitos dos precários descobriram na Tunísia uma fórmula de mudar o regime, quando os que durante estes anos alimentaram a corrupção, as negociatas, os especuladores, as famílias donas de Portugal, a democracia bipartidária + 1 (alimentada pela comunicação social com as diárias mentiras repetidas de tal forma que um empréstimo com juros elevados se chama ajuda), quando as coisas ficarem mesmo pretas, quando lhe cair uma verdadeira democracia em cima, Fernanda Câncio, a empregada do amigo Oliveira, publicará uma foto com o título

“Não têm pão comam brioches”

ou talvez não. De qualquer forma Maria Antonieta, no seu tempo, ao que parece, também não a disse.

Leitura recomendada:  O dia em que a Madame Mubarak desce à Praça Tahir de Lisboa

Evolução linguística pós 12 de março

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Já não se diz: “vão trabalhar malandros! a minha política é o trabalho!

Agora berra-se: “vão mas é criar uma empresa, seus calaceiros, moinantes; querias subsídio de desemprego! Toma!”

O dia seguinte

“a mudança só vai acontecer se participarmos nas nossas comunidades locais”

O dia seguinte é sempre o mais dificil, porque é sempre mais fácil demonstrar descontentamento do que perceber qual o novo rumo a tomar, mas isso não invalida que a manifestação de ontem fosse importante e tenha sido um sucesso.

Importante porque faz sentido mostrar o desconforto e descontentamento com o mundo? o país? a cidade? as empresas? as pessoas?
Sucesso porque acho que ninguém esperaria 50.000 pessoas (numeros da PSP) numa manifestação no Porto sem ter que recorrer à angariação organizada de pessoas que normalmente os partidos e sindicatos fazem.

E agora o que fazer? Manter a ressaca? Vai continuar tudo na mesma?
Certamente que se continuarmos a fazer tudo igual, não podemos esperar resultados diferentes.
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Em Coimbra, a maior manifestação em décadas, agora, é deixá-los mesmo à rasca

P3120245 No início, na Pr. da República, contei umas 400 pessoas. Eu e alguns jornalistas. Não sei contar manifestantes numa praça, estando no meio deles. Mas como a manifestação, ao contrário do previsto, se meteu avenida abaixo, fazendo-me o favor de passar debaixo da minha varanda, onde conto manifestantes desde a década de 70, posso dizer que foi a maior manifestação generalista desde essa mesma década. Generalista, porque entretanto houve algumas de estudantes com mais gente, já para não falar de situações como Timor.

Pormenor: saíram autocarros para Lisboa, com 250 estudantes.

Número: digo 1000 manifestantes.

É a vez dos que mandam ficarem à rasca. Até porque hoje apenas se venceu a lei da inércia, agora é não deixar parar o movimento.

Abertura. Também achei que éramos poucos, mesmo que bons.

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fotos: Margarida Az e Tz

12 de março, a rua é nossa

Quando tinha 14 anos houve um golpe militar e depois uma revolução. Bem, uma pequena revolução. Mudou-me a vida.  Não mudou a nossa vida como gostaria que tivesse mudado; as mesmas 20 famílias voltaram para tomar conta do país que é sua propriedade desde o séc. XIX; a política que por uns tempos se alimentou de sonhos passou a ser a carreira com que alguns sonhavam, e não estando tudo agora como estava, tem estado cada vez pior.

Quando houve essa pequena revolução passei mais tempo nas ruas que em casa. A rua era nossa. Depois voltei para casa. Nestes 30 anos poucas vezes fui à rua. A rua agora às vezes tem manifes formatadas. Uns tipos de megafone na mão gritam palavras de ordem como se fossem ordens, o pessoal repete como se estivesse num filme militar americano. Não faz o meu género.

Hoje volto à rua. Porque não houve formatação nem nasceu de organizações formais, e gosto da informalidade. Porque se o tema é uma geração o problema é de todas as gerações. Porque já não via tanta força e espontaneidade desde os idos de setentas. Porque estarei a caminho da senilidade mas ainda sei distinguir uma revolta de um ritual. Porque estamos fartos.

Porque, 123, acredito que hoje a rua volta a ser nossa.

Tudo o que quer saber sobre as manifestações de 12 de março e não tem vergonha de perguntar

1. A manifestação é pela demissão de toda a classe política?

Não. Existe um manifesto, onde em parte alguma se fala de tal coisa. Leia-o.

2. Mas então quantas manifestações estão convocadas?

Várias, nas principais cidades portuguesas e mesmo junto a algumas das nossas embaixadas. Houve uma confusão com o grupo “1 milhão na Avenida da Liberdade pela demissão de toda a classe política”, o qual já emitiu um comunicado, esclarecendo não estar “de forma alguma ligado à organização do protesto “geração à rasca. Enquanto movimento livre e espontâneo de cidadãos, este grupo desde a 1ª hora se solidarizou com o protesto, divulgando e incentivando os seus membros participarem da manifestação do dia 12 de Março”

3. E o mail que por aí circula com uma série de reivindicações?

Circula por iniciativa de quem o escreveu. Não foi subscrito pelos organizadores das manifestações.

4. Os partidos políticos foram convidados e vão participar?

Os promotores dirigiram uma Carta aberta a todos os Cidadãos, Associações, Movimentos Cívicos, Partidos, Organizações Não-Governamentais, Sindicatos, Grupos Artísticos, Recreativos e outras Colectividades, e irá quem quiser participar. No meio da confusão gerada, era o mínimo que poderiam fazer até para se demarcarem da ligação com a tal demissão de toda a classe política.

5. É verdade que a extrema-direita está envolvida na manifestação?

No facebook aparecerem convocatórias para várias manifestações, e concentrações, algumas claramente conotadas com a extrema-direita. Têm um apoio irrelevante.

6. A manifestação é para que idades? [Read more…]