Ernesto Veiga de Oliveira: a etnografia

1910-1990

Citações para saber de Portugal, são suficientes os nomes de Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Eanes Pereira, surgindo-nos uma panóplia de saberes e conhecimentos, como nunca se produziu em qualquer outro país. É certo que Erick Hobswawm elaborou, com a sua colecção a Era do Capital, A Era da Revolução, a Era dos Extremos, uma admirável síntese do que tem acontecido na Europa no milénio mil, anterior a este de dois mil. Como José Mattoso e a sua ilustração sobre a idade média de Portugal. Escritores sem par, que nos ensinam o passado e as suas transformações. De José Mattoso, já tenho falado muito. Do Ernesto, que não pode ser lembrado sem o seu amigo íntimo Benjamim, escrevi A Etnografia, memória de História (páginas 305-311), publicada em Dezembro de 1989, na obra: Estudos em Homenagem a Ernesto Veiga de Oliveira, coordenada por Fernando Oliveira Batista e outros, edição do Instituto de Investigação Científica.

Em A Etnografia, memória de História saliento a relação que existe entre a realidade material, palpável, positiva. Forma de organizar as lembranças de um passado que, como eu os denominava, os Ernestos tinham terror que desaparecesse e não ficasse lastro nenhum do Portugal Eterno. A vida mudava a uma velocidade inaudita: onde havia arados, começaram a aparecer tractores; a preparação do adubo já não era a mistura apodrecida de bosta de animal e ramos de gesta que se colocavam num fosso tapado, foi substituída pelo adubo artificial, que queimava e secava os olhos. Era a época do Portugal pobre. Aos 32 anos, Ernesto era já Advogado, com estudos especializados, em Ciências Históricas e Filosóficas (1947). Era director do Gabinete da Função Pública, no Porto, quando apareceu no poder o ditador. Honesto e recto, de pensamento socialista como Marx e Durkheim, não aceitou esta tomada do poder, menos ainda por uma ideologia fascista, aliada ao franquismo falangista de Primo de Rivera. Reuniu os seus subalternos e anunciou-lhes que se retirava do cargo que ocupava lendo-lhes a carta que enviaria, mais tarde, ao ditador, onde apresentava a sua demissão. Como ele próprio me contou, disse aos seus colaboradores: vou-me embora, perco o meu ordenado do qual vivo, mas a minha partida não vos obriga a saírem comigo, há liberdade de acção. Foi assim que ficou livre para fazer o que mais estimava: percorrer a pé o país todo, juntando-se, em 1932, ao grupo do António (Jorge Dias), composto por Ernesto Veiga de Oliveira, pelo músico Fernando Galhano, pela mulher do António, Margot e, mais tarde, pelo meu grande amigo Benjamim Pereira, responsável pelo movimento pioneiro em Portugal que deu origem ao Centro de Etnologia e, mais tarde, ao Museu Nacional de Etnologia, rico em colecções obtidas no deambular, deste grupo, pelo mundo rural de aldeias e vilórias e partes urbanas do país.

Tive a grande sorte de o conhecer em 1981, na rua, pela que andávamos com Brian O’Neill, depois de um dia de trabalho no Instituto de Ciências Gulbenkian. Nunca esqueço esse grande abraço que Ernesto e eu cruzámos, com um beijo nas bochechas, à maneira francesa. A partir desse dia, passámos a ser amigos íntimos. Em casa de uns ou de outros, debatíamos antropologia e as diferenças e semelhanças entre etnografia e etnologia. Mas não apenas. Foi Ernesto que me disse um dia: Raúl, os amigos não se tratam por doutor, nem por senhor, doravante somos Ernesto e Raúl e por tu…Perante tão grande encómio, eu fiquei feliz. Ainda me lembro desse dia: o de São João, esse carnaval do Porto. Estávamos na minha cozinha a jantar às sete da tarde, não tinha reparado eu que o sol de Junho batia nos seus olhos. Por simpatia, não se queixou. Eu, na minha apalavrada sobre Antropologia, não tinha pensado no sol, até o Benjamim perguntar, na sua gentileza, se podia baixar o estore. E a conversa continuou até 1989, esse dia em que estavam na minha casa, saíram a seguir ao lanche…e nunca mais o vi. Teve uma morte dolorosa, ao longo de mês e meio.

Ernesto e Benjamim sabiam tanto de ciência etnográfica e etnológica, que aprendi muito de Portugal com eles. Parecia-me injusto que estes sábios não ensinassem na Universidade, por isso propus-lhes com um convénio: o Ernesto dava aulas às minhas turmas, e aos Sábados de manhã, proferia, com o Benjamim Pereira, aulas no Museu de Etnologia, no sítio próprio, mas sem licença para mostrar ao público o seu acervo. Os meus estudantes iam às 9 da manhã, e a aula acabava perto do meio-dia. Eram as melhores aulas, com artefactos para observar e a devida explicação da sua utilidade. Aulas que decorriam aos sábados, duas vezes por mês.

Quando já Ernesto e Benjamim não podiam dar essas aulas, o primeiro tinha falecido e o segundo era tímido, criei no ISCTE a Aula Ernesto Veiga de Oliveira, para serem proferidas por museólogos ou outros especialistas em etnografia. Sempre houve esse debate: se era etnografia, etnologia ou antropologia o nome da nossa ciência. Debate que ainda hoje não encerrou.

Ernesto adorava pregar partidas e contar histórias picantes. Como essa do dia que, após percorrerem o Alentejo, quiseram oferecer-se um luxo e pernoitar na Pousada de Elvas, mas, na dita pousada, estavam pouco prestáveis e não puderam pernoitar nela…

O meu amigo foi-se embora a 19 de Janeiro de 1990, dia prévio ao meu aniversário e a uma conferência que devia proferir em Coimbra. Falei com o Benjamim e disse-me que o Ernesto teria cumprido com o seu dever, pelo que devia ir a Coimbra.

Fiquei partido em dois: o meu dever, era acompanhar o meu amigo e colega, mas também imitar o seu comportamento. Proferi a minha conferência, e, antes de começar, com lágrimas nos olhos, anunciei que Ernesto Veiga de Oliveira tinha partido e que falava em sua representação, como homenagem ao amigo….que nunca mais vi desde o dia, como narrei antes, em que saiu da minha casa a contar histórias verdes…para sua delícia e prazer.

Não sou homem de fé. Mas sim, Ernesto Veiga de Oliveira mora na aula que criei em Março de 1991. A primeira conferencista foi a Professora Nélia Dias, e também o amigo do amigo, Joaquim Pais de Brito

Ernesto Veiga de Oliveira é a etnografia viva em Portugal, cultivada hoje em dia pelo Benjamim e os seus discípulos.

Viva, Ernesto!

Comments

  1. Mariana J. Sardinha Teles Alface says:

    Adorei. pois não sabia como a etnografia estava ligada a Ernesto Veiga de Oliveira.
    Obrigado
    Hoje já aprendi mais…


  2. Bom dia,

    O texto não está assinado. Gostaria de saber quem é o autor.
    Um abraço,
    Rui Júnior

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