NUCLEAR: há que debater, sim, mas de forma séria

Nos últimos dias escrevi dois postes denunciando o argumento de que o nuclear é absolutamente seguro e não poluidor, utilizado por muitos defensores -e promotores- dessa energia. É mentira, disse. Tal bastou para que fosse acusado de espalhar medos.

É verdade que a questão energética é das mais prementes do mundo actual e do futuro mais próximo. É igualmente verdade que faz parte de uma questão mais lata que poucos (os políticos, por exemplo, sabem que só conquistam o voto popular prometendo a ilusão do crescimento económico contínuo) estão interessados em discutir: a sustentabilidade do crescimento e a redistribuição dos recursos a nível planetário, como exige o redesenho de bem-estar anunciado pelas economias ditas emergentes.

A noção de sustentabibidade pesa, quer queiramos, quer não, como uma espada de Dâmocles sobre o futuro do planeta, os  recursos passíveis de utilização e consumo e a possibilidade de deles se usufruir ao longo de um prazo de tempo que ultrapasse as gerações mais imediatas. Sem essa discussão é impossível debater, de forma séria, as questões energéticas de modo a que não nos limitemos apenas a empurrar os problemas com a barriga segundo a máxima “quem vier a seguir que feche a porta”.

Atendendo à natureza da(s) actual(is) civilização(ões), parece ser pedir demais. Se este debate mais amplo não se faz, faça-se então o mais curto e imediato. Ponha-se todas as energias conhecidas na balança e discuta-se. Mas comecemos por negar algumas mentiras: a produção de energia nuclear não excede 15% da produção mundial; os resíduos nucleares continuam a ser radioactivos durante, pelo menos, centenas de anos e não existe forma absolutamente segura de os armazenar; a energia nuclear também polui e, em caso de acidente grave, obriga à interdição a actividades humanas de vastas zonas de território durante dezenas de anos; não é absolutamente segura e está sujeita a contingências como cataclismos naturais (que, fatalmente, ocorrerão); o preço de recuperação de um acidente excede largamente os benefícios.

Posto isto, discuta-se. Tudo.

Comments


  1. Para começar, sem a energia nuclear, não existiria sequer indústria espacial e a medicina estaria muito menos evoluída. A questão voltou a estar na ordem do dia por um infeliz acidente no Japão, país que ninguém duvida, utiliza a energia nuclear para fins exclusivamente pacíficos, ou não tivesse sido até hoje o único a ser vítima em larga escala da energia atómica. Faça-se a discussão sim, até agora tenho defendido o recurso à energia nuclear, o terramoto no Japão vem sem dúvida alguma levantar questões pertinentes quanto à segurança e localização das centrais.

  2. Artur says:

    Os ecologistas têm contribuido muitas vezes ao “espalharem medos” e ao criarem papões, para o aumento do descrédito da opinião publica perante muitas das causas que defendem: o buraco do ozono, o efeito de estufa, as espécies invasoras, os transgénicos, o nuclear, etc.
    Não digo que não sejam problemas sérios e reais; contudo o modo apocaliptico e fundamentalista com que são apresentados, deixam-me ficar com um pé atrás. As causas eventualmente serão boas e como tal justificarão os fins usados para convencer as pessoas nomeadamente “meter medo”.
    Contudo, tal tudo o que é demais acaba por aborrecer, i.e. depois de muitos papões não terem afinal aparecido, as pessoas ficam cépticas para os novos papões. É a tal história do Pedro e do Lobo.
    Por exemplo, no nuclear, fala-se nas tais centenas ou milhares de anos para a radioactividade desaparecer. Não obstante duas cidades Japonesas bombardeadas atomicamente estão hoje cheias de vida.Isto traz-nos duvidas. O buraco do ozono que nos ia assar a todos, onde está?
    Não digo que o Nuclear seja uma coisa segura, porque não o é. Tal como o não são muitas outras coisas menos mediatizadas. O que digo é a Humanidade (pelo menos ao nível da Técnica) vai progredindo por tentativa-erro. Os riscos devem ser equacionados se possível. No entanto, em tudo o que diz respeito ao barco da Humanidade, é um cego que o conduz.

    • A. Pedro says:

      Artur,
      é uma bela imagem essa, do barco da humanidade ser conduzido por um cego.
      O papel dos ecologistas tem sido importante de vários modos, seja no despertar de consciências, seja na denúncia de situações, seja na solução de alguns problemas, seja na alteração de alguns paradigmas e opções.
      Dou um exemplo que refere: o buraco do ozono pôde ser controlado (ou minimizado) com medidas como a substituição e confinamento dos gases fluorados -nomeadamente os CFC- e a sua não libertação na atmosfera. Caso contrário podíamos estar no “assador” ou perto disso. É uma batalha na qual os ecologistas têm grande mérito.

  3. Nightwish says:

    Eu reconheço que não devia ter dito da maneira que disse, faltavam-me dados à altura que foi procurando (e acho que quase ninguém tinha).
    Só tenho a acrescentar:
    os resíduos nucleares continuam a ser radioactivos durante, pelo menos, centenas de anos
    Daí a necessidade de investimento em novas tecnologias que, baseadas em simulações de física, prometem resolver grande parte desse problema, bem como em matéria de custos.
    está sujeita a contingências como cataclismos naturais
    Digamos que não é provável que aconteça um terramoto e um tsunami no interior do país, ou sequer a norte…
    o preço de recuperação de um acidente excede largamente os benefícios.
    Como diria o engenheiro, é fazer as contas. Mas em questão de preço, não se esqueça de incluir o preço e as mortes para assegurar petróleo e carvão, materiais que ultrapassarão o seu pico de produção e serão cada vez mais caros e com maior poluição para extrair (ver, por exemplo, a Arrábida).
    E, dependendo da crença de cada um, incluir mais umas mortes pelo aquecimento global.
    Outra alternativa com outros custos será a aposta a 100% nas renováveis e ter de vez em quando uns dias de férias quando não há vento, há pouco sol e também não chove (ou uma quantidade insuficiente das 3).

    Tal como disse, que se discuta tudo.

    • A. Pedro says:

      Nightwish,
      cada um tem direito à sua opinião e até, se calhar, o dever de lutar por ela.
      Não fujo à troca civilizada de argumentos. Quando se recorre ao insulto páro, e este não foi um destes casos.

  4. Rodrigo Costa says:

    Caro Artur,

    Terminou o seu comentário, de forma excelente; com uma bonita figura literária. Não só por ser bonita, mas por reflectir a verdade a que assistimos.

    Diz-se que, sem a Ciência, muitas doenças não seriam sustidas e / ou eliminadas… Pois! Porém, grande parte dos achaques que nos afectam são devidos à vontade de evolução que acabam por alterar, com as agressões, as fórmulas de uma vida saudável —antigamente, quando as pessoas, no geral criavam galinhas, havia uma maleita a que se chmava “gogo”, algo semelhante à coccidiose dos pombos, muco nasal e na garganta. Por coincidência, tal não acontecia nos animais que viviam e debicavam pelos campos; mas nos que, às grosas, coexistiam nos capoeiros. Quer dizer, a cubicagem de ar respirável, por indivíduo, não se renovava, daí o problema.

    No fundo, o que eu quero dizer é que, se eu lhe causar um dano e o reparar —se eu tiver a sorte de o poder reparar—, não estou a fazer nada que não lhe deva. Aliás, por causa da Ciência, há, ainda, danos irreparáveis, em consequência da utilização da bomba atómica; pessoas que nunca mais foram as mesmas; com danos, físicos, irrecuperáveis, e com traumas psicológicos que desaparecerão apenas com a morte das vítimas. Este é mais um, de muitos casos, em que a Ciência consegur estragar, mas não consegue reparar. E Chernobil também deixou rastos, apesar de os tentarem apagar.

    Tal como com os gastos —a questão económica—, é necessário saber-se até onde ir; se vale a pena ir. Tenho, para mim, que posso viver sem iPhones, frigoríficos aerodinâmicos e plasmas; mas não posso viver com falta de ar; com falta de alimentos saudáveis; com falta de água pura; com falta, definitivamente, de tudo quanto constitui a base da Vida.

    Ora, não me vão obrigar a ir à Universidade, para tentar encontrar as fórmulas para uma vida melhor do que aquela que a Vida disponibiliza… Basta-me a ideia, simples, de que foi a Vida quem gerou o Homem, e não o contrário.

    Por que não se debruça, a Ciência, no estudo de fazer com o Sol o mesmo que se diz ter feito com a Lua; por que não tenta “assolar”? A vantagem da Ciência é que, entre ela e nós, só ela é inimputável; não tem que responder pelas consequências sofridas por quem não tem nada a ver com as experiências mal sucedidas. Se tivesse que pagar, se tivesse que indemnizar as vítimas… Os cientistas pensariam melhor, antes de avnçar. Mas não, a Ciência não se responsabiliza pelo danos, mas pelos louros e pelos lucros. As consequências más são sempre os imponderáveis impossíveis de evitar.

    Mas, então, como é que a Civilização há-de continuar a evoluir?… Não me perguntem, porque eu só sei que quem tem razão é a Vida. Por isso é que, de quando em vez, fala alto, como agora no Japão. E a Humanidade tem que compreender e aceitar —porque a Vida não é democrata— que as traves estão desenhadas, e que o humano é uma insignificância, de que a Vida se libertará, se dele vierem afrontas que, realmente, a incomodem.

    Entretanto, a Ciência continua com as suas masturbações; e eu tenho a certeza de que, a insistir, a Ciência vai acabar por ter um orgasmo doloroso.

    • A. Pedro says:

      Rodrigo,
      eu não demonizo a ciência, não poderia, ainda que, como tantas coisas humanas, dê para o bem e para o mal. Mas há bom-senso no que diz no que toca à sustentabilidade da vida e à importância de coisas aparentemente pequenas a que, por tão óbvias e comuns, quase não reconhecemos o seu papel essencial.

    • Artur says:

      Embora às apalpadelas a Humanidade vai ter de continuar a desbravar novos caminhos na Técnica.
      Tal como disse o Savater: Porque a incessante busca técnica é, sem lugar para duvidas, a nossa forma de vida, não um auxilio ocasional para alcançar este ou aquele objectivo desejável.Por isso, não deixa de ser surpreendente a reiteração com que ainda nos é imposta a cada passo a aborrecida perlenga sobre os efeitos « desumanizadores» da técnica, que já se propalou quando foram inventados o carril de ferro ou o telefone e agora continua a fazer prosélitos entre os mais patetas da classe face ao escandalo do microondas, da Internet ou da energia nuclear. É claro que há conquistas técnicas pontuais que podem ser perigosas ou indesejavelmente destrutivas, mas em si mesma a técnica é a nossa empresa mais definitoriamente humana. Os voluntariosos «bons selvagens» que renunciam aos avanços da ultima hora e se agarrão ao fogão de lenha e á agricultura sem pesticidas não prescindem da técnica, mas tentam arranjar-se com fases anteriores a ela…que, no seu tempo, provavelmente foram olhadas com tanto receio como a tecnologia de ponta de hoje.”

  5. Nuno says:

    Acho que nunca li um texto onde a distorção da ciência é tão evidente.
    Ciência é, apenas e só, um método para adquirir conhecimento.
    O que se faz com esse conhecimento é outro conversa. Não se pode culpar a ciência pelos problemas do mundo.
    A ciência permite-nos construir bombas atómicas, bombas de hidrogénio, bombas convencionais, submarinos e outras 1001 maneiras de destruir e matar. A mesma ciência permite-nos também construir máquinas de ressonância magnética para os hospitais, desenvolver os futuros reactores de fusão, explorar o fundo dos oceanos, estarmos aqui a ler este blog, etc, etc.
    A ciência pode ser utilizada para o bem e para o mal. Cabe-nos a nós utiliza-la da melhor maneira.


  6. Com este post concordo!

    Sem dúvida que a utilização de energia nuclear tem de ser uma coisa muito bem ponderada. No entanto tendo em conta o pico do petróleo referido pelo Nightwish e também a escassez geral de commodities, temos sem dúvida que considerar todas as soluções.

    Julgo que a questão nuclear é demasiado diabolizada e utilizada como arma política. Todos sabem, onde os políticos põem a pata, estragam.

    Como qualquer tecnologia tem as suas vantagens e desvantagens.

    Curiosamente, uma das grandes desvantagens do nuclear é o exigir um grande investimento inicial, tal e qual como a energia eólica. Isto implica que as centrais nucleares só sejam possíveis com grande custo para o erário público ou com grandes subsídios à sua produção. Assim o nuclear talvez não seja grande solução para um país anémico como Portugal. Convém lembrar que o preço da energia eléctrica é marginal, ou seja, quem define o preço é quem consegue produzir a unidade de energia eléctrica mais barata.

  7. Rodrigo Costa says:

    … Acho que vou ter que começar pelo meio do meu comentário:

    —O que eu disse foi: “Tal como com os gastos —a questão económica—, é necessário saber-se até onde ir; se vale a pena ir”.
    O que é Ciência ou não é Ciência eu sei. E de modo nenhum, no meu texto, a CIência é diabolizada… Quando falo da masturbação da Ciência, assumo-o, porque há questões básicas por resolver; que, de tão básicas, já poderiam estar resolvidas. Ou não será, o estado, em que nos encontramos algo que advém de lacunas do conhecimento, que, antes de ser traduzido em questões técnicas, tem raízes no Pensamento que, obrigatoriamente, as antecede?… É ou não
    é verdade que o conhecimento, o verdadeiro conhecimento, regride à mesma velocidade do avanço tecnológico?…

    É ou não é verdade que, se se quiser ter uma conversa de jeito, teremos que andar quilómetros, para encontrar alguém que diga duas seguidas; que saiba falar das coisas mais simples e essenciais?…

    Por analogia, Portugal necessitava dos submarinos, para quê?… Tenho alguma coisa contra os submarinos? Tenho contra os gestores de um País que não tem onde cair de morto e que corta onde não deve.

    Com a Ciência é a mesma coisa —nem estou só, na observação, porque há cientistas que reconhecem a chamada coluna das prioridades, as quais, por interesses meramente económicos, são relegadas para segundo plano. O que se faz, para enganar os “tolos”, quando se quer cometer uma imprudência que, seguramente, dá dinheiro, anuncia-se os benefícios daí resultantes para as populações.

    Veja-se a redução do IVA para o Golf: os beneficiados não são os homens da “pasta”, mas os funcionários dos hotéis que vêem, desse modo, os lugares de trabalho menos periclitantes; porque a medida não vai beneficiar uma cambada de perolos que, também, desatou, sabe-se lá por quê, a jogar golfe, mas, antes o incremento do turismo.

    O que eu digo é que estou disposto a prescindir de excessos de comodidade —sou suspeito, porque não me conhecem nem sabem como vivo—, se isso evitar que continuem a plantar barragens como quem planta couves, e desenrraizando pessoas dos lugares onde nasceram e onde sempre viverem, com os comodistas a concluirem que “o progresso é assim, faz vítimas!”…

    No entanto, quando são chamuscados, fazem manifestações contra o desemprego e a carestia da vida; não querem acabar os cursos e ficar sem emprego… Mas isso, meus caros, é, também, uma aconsequência do progresso, da Ciência económica. Por quê, agora, tanta dificuldade em aceitar isso?… Porque lhes toca. Estou disposto a prescindir —já prescindo, porque a acho desnecessária— de muita da considerada insubstituível tecnologia, se isso ajudar à poupança do ambiente.

    Não tenho que trocar de telemóvel, sempre que sai um último modelo. Basta-me um, um só, por que eu possa falar, porque o que eu quero é falar e não dar uma de “avant gardé”, etc, etc, etc… Não necessito de dois, sem que eu queira dizer que não haja pessoas que, por questões de trabalho, necessitem de ambos. Quantos são, no entanto, indivíduos que não fazem nada, nada, e puxam de dois telemóveis como se fossem pistoleiros?…

    Não sei se estarei cá, para ver, mas, se as pessoas pensam que isto é só tecnologia para a frente, verão até onde os cálculos majoritados aguentam.

    Talvez eu seja pateta —por que não?… Talvez eu até seja aparentemente retrógrado. Penso que não; mas, para ser perentório, estaria a julgar em causa própria, seria suspeito, apesar da desorientação global estar em crescendo, sem que as pessoas dêem fé de que o que está a falhar é o Pensamento. O que menos falta é ignorantes equipados com ferramentas de ponta, sem que isso os salve de crises existenciais, de depressões constantes, porque não perceberam, ainda que sofisticadamente equipados, o essencial…

    Que é que isso tem a ver com a tecnologia?!… Eu também acho que parece que nada… Mas tem.

    Se acharem que sou pateta e que, inclusive, disse o que não disse… Ok! Concordo com isso.

    Nota: deixo apenas a advertência de que a Vida desconhece os projectos do Homem. Para a Vida, a Ciência é uma coisa que lhe escapa, de tão ocupada que está a cumprir o seu destino. E para provar que não estou errado, aí está o Japão. Não houve o mínimo respeito pelos projectos científicos das pessoas —ou, se o Nuno preferir, pelo resultado de trabalho científico; o que, em síntese, é ciência, provém da Ciência, da investigação, da procura de conhecimento.

    Quando há um cataclismo e há vitimas e prejuízos materiais, quer dizer que a Vida não pensou nisso, não se deteve nisso; nem sequer reparou, tão minúsculo é o Homem, e tão insignificantes são os seus produtos e a sua Ciência…

    Por fim, o que postei foi uma reflexão e um convite à reflexão. E penso, inclusive, não ter oferndido ninguém.

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