Um Nobre não pode ser um simples deputado

A ser verdade esta notícia, Fernando Nobre não consegue parar a queda que iniciou ao aceitar o convite de Pedro Passos Coelho. Segundo parece, o antigo candidato presidencial renunciará ao lugar de deputado, caso não obtenha maioria absoluta na eleição para Presidente da Assembleia da República. Isto é que é ter vontade de servir o país desinteressadamente!

A história da democracia portuguesa já contém a perversão da actividade dos deputados, que, em vez de representarem os respectivos círculos eleitorais, foram transformados em autómatos que se limitam a votar como mandam as direcções partidárias. Fernando Nobre, o independente que viria contribuir para a elevação ética de uma política tão rebaixada, pelos vistos, quer ser mais do que isso, para pior: ser deputado não é suficientemente nobre.

Comments

  1. José Luis Moreira dos Santos says:

    Carta aberta ao Ex.mo Sr. Dr. Fernando Nobre.

    Ex. mo. Sr. Dr. Fernando Nobre,
    Primeiro que tudo, deixe que lhe peça desculpas pelo atrevimento, mas resolvi escrever-lhe esta carta aberta, quer dizer, do conhecimento geral, não para lhe pedir explicações, tentar cobrar algo ou manifestar algum tipo de descontentamento ou satisfação pelas suas atitudes e escolhas mais recentes. Porém, não sendo seu amigo, sou alguém que tem pela sua pessoa uma extraordinária simpatia. Assim, depois de muito cogitar, pareceu-me acertado, por esta via, convidá-lo a que preste um pouco da sua atenção sobre umas questões que lhe quero transmitir.
    A dimensão humana do Sr. Dr. Fernando Nobre.
    Sou um dos milhões de portugueses que se habituou a ver em si um exemplo de Ser Humano, alguém capaz de nos mostrar a todos que há quem se sinta bem a ser de si nos outros, uma pessoa inteiramente disponível para aqueles que na valeta da sorte são da Humanidade a parte de fora da sua essência. Em suma, como milhões de outros, via em si o melhor de nós todos, a perfeição em pessoa. Não, não foi o Sr. Dr. que disse de si mesmo tal coisa, fomos nós que o idealizamos assim, talvez pelo facto de nos vermos como o contrário absoluto dessa imagem. Contudo, é bom de ver, que depois de as igrejas cristãs nos transmitirem de Jesus de Nazaré, então como Cristo, que afinal era Deus, ficámos todos de sobreaviso de que a um humano está vedada a possibilidade de ser perfeito. Ainda assim, como Ser Humano com quem os desprezados da vida podem contar, o Dr. é milhões de vezes melhor que todos aqueles que, em razão de uma outra sua dimensão, produzem juízos sobre si sem cuidar de separar registos. E, é por isso que lhe quero dizer o seguinte: sobre o ponto de vista humano, o Sr. continua a ser para mim uma autoridade moral, alguém por quem nutro real estima e admiração.

    A dimensão política do Sr. Dr. Fernando Nobre.

    Para tentar ser rigoroso, permita-me que faça aqui uma divisão, ou seja, que veja dois momentos na sua aventura pela política: a candidatura de V.Exa à Presidência da Republica; e a sua recente opção pela candidatura à Assembleia da Republica.
    É que no primeiro caso, V.Exa apresentou-se como equidistante dos partidos e como um genuíno caso de cidadania. Por essa razão, estive muito atento à sua mensagem política, como é dever de todo e cada cidadão, mas depressa cheguei à conclusão que não tinha nenhum motivo para me desviar do caminho que sigo há 37 anos, pois achei que V.Exa se apresentou em função do que humanamente é, quer dizer, falou-nos da sua extraordinária autoridade moral, da sua entrega às nobres causas, etc., mas não trouxe nada de novo no que diz respeito à arte da política, sobre as contradições que a caracteriza, sobre o que está em causa em cada escolha que politicamente se faz, etc. A certo momento campanha fiquei até com a convicção de que a sua mensagem continha uma parcela de cobrança de uma dívida antiga do País para consigo. Mas mesmo assim, posso segredar-lhe que nada fiz para evitar que, sob o ponto de vista do voto, o Sr. Dr. não bebesse do pote que tinha por perto, pelo que fiquei à espera de ver o seu desempenho eleitoral, mesmo em razão do interesse que tem para uma Democracia madura uma candidatura independente. Até pelo facto de V.Exa ter enfatizado até à exaustão que não era nem queria ser político profissional. Veja bem, para alguém como eu, que gosto muito de alinhar as minhas expectativas políticas em razão da perspectiva que me orienta, e eu já tenho idade para escolher bem o horizonte, que não tendo partido é alinhado, o resultado da sua candidatura não me podia ser indiferente, algo sem importância. Mais ainda, repito, pela estima e consideração que a sua pessoa me merecia e merece.
    Todavia, na intervenção televisiva que o Sr. fez após serem conhecidos os resultados eleitorais, fiquei com a ideia de que V.Exa reagiu como quem tinha acabado de sair do fundo de um poço, que estava aliviado de um susto. Reforcei essa ideia passados uns dias, quando afirmou que não era sua intenção dar qualquer passo no sentido de transformar o apoio obtido em algo mais que um grupo que se havia de juntar sempre e quando assim entendesse, e disse para mim: o Dr. Fernando Nobre, em termos políticos, repito, em termos políticos, nesta eleição, já disse ao que vinha, deve ter ficado vacinado. Para que saiba, de quase tudo o que aqui expresso, tenho registos.
    No segundo caso, na sua recente opção política, quero fazer-lhe ver algo que V.Exa já se terá dado conta, entretanto. Que não estamos na presença de um simples passeio pela política, como aquando da candidatura à P.R., estamos perante uma aterragem nas profundezas da política, no contexto político/partidário. E como tudo é diferente, Dr! E quero ainda dizer-lhe, a este propósito, mais o seguinte:
    a) Que o Sr. aceitou o convite vindo de Pedro Passos Coelho, e esse facto deixa-me no centro destas duas dúvidas: se foi o poder de sedução deste, e em política o poder de sedução é realmente um verdadeiro poder, ou se foi a ferida da sua frustração que ainda estava aberta, quente, talvez a ferver. Mas, agora que já se comprometeu, esteja atento Dr., pois V.Exa foi convidado pelo líder de um partido que conhecemos por PSD, mas que tem lá dentro quatro partidos, entre os quais um tal PPD. O Dr. há-de vir a saber o que isso é, mas, como mera comparação, eu digo-lhe que o PPD está para o PSD e para a política portuguesa como os adeptos do Vitória de Guimarães estão para o futebol português e para a própria equipa. O que quero eu dizer? Pense um pouco, mas posso afirmar que do ponto de vista da política, entendida esta como um lugar de chefes, por lá estes caiem como tordos, quando menos esperam. Não, não se preocupe porque o Sr. não está com aquela gente que faz missas a que chamam congressos, onde um debita discurso e os restantes dizem amém! Não, nada disso, no PPD, goste-se ou não, a lengalenga não é o mesmo que conversa mole. Aliás, o Sr. vai ter oportunidade de verificar como funciona uma organização que foi idealizada para suster os avanços da Revolução em nome da democracia, e que quando achou por bem apontar a porta de saída ao seu criador, não hesitou! Ali há muito mais que simples palpitações democráticas, há o gosto por uma certa forma de a viver, embora às vezes não pareça.
    b) Que esta sua escolha o coloca, do ponto de vista político, na mira da minha má vontade, quero dizer, do lado oposto ao da barricada onde ideologicamente me encontro. Contudo, do ponto de vista humano, o Dr. vai estar braço – a – braço com pessoas pelas quais daria o meu sangue, e o Sr. será mais um nessas condições.
    c) Que essa escolha o coloca diante de uma profunda contradição perante muitos daqueles que gostam de si, que votaram em si, que esperavam algo de novo na política de si, etc., etc., pois, em resultado dela, da escolha, o Sr. Dr. em lugar de subir um degrau no plano da afirmação da sua equidistância política e como um valor de reserva republicana, acabou por dar um trambolhão na escuridão da indiferença, sem remédio possível na compreensão geral. E é em face disto que gostaria de lhe pedir o seguinte:
    1- Não admita, mesmo assim e seja a quem for, que subestimem, por razões políticas, a sua dimensão humana.
    2- Assuma sem rodeios que a sua opção não está nos limites do exercício de um direito, porque a Liberdade e a Igualdade são condição não um direito, e o Sr. Dr., quaisquer que sejam as minhas discordâncias políticas a partir de agora assumidas, é um cidadão livre e igual a todos os demais. Todavia, em política espera-se de todos os que nela são actores, que estribem a sua acção em critérios de decência ética, e desse ponto de vista a sua escolha, para tantos e tantos portugueses, deixe muito a desejar. E nem lhe digo nada quando a sua opção é analisada sob o ponto de vista moral. Tape os ouvidos e feche os olhos! Então, cabe-lhe o dever de explicar, sobretudo àqueles que ainda estejam dispostos a escutá-lo, as suas razões para a opção partidária que fez, a fim de pelo menos tentar mitigar os danos pessoais que vai sentir, dado que há um circo político montado à sua volta. Pela minha parte, de dedo em riste lhe digo, tem o dever de não alimentar esse circo.
    3- Imploro -lhe, com toda a convicção e exigência, que não deixe que a AMI, a sua imagem, a sua dignidade e independência seja beliscada nesta luta que agora começou e que lhe é, à AMI, inteiramente estranha; pois que se ela, a AMI, tem muito esforço, sangue e suor seu, ela tem igualmente sacrifícios a rodos de muita gente, e NÃO PODE ser arrastada para a lama da indecência, NÃO PODE fazer parte do balanço do DEVE e HAVER que, fatalmente, brevemente será feito, talvez quando o Sr.Dr. menos esperar. Os portugueses não lhe perdoariam se você não fizesse tudo o que deve, não só para evitar como impedir que a AMI saia ilesa, limpa, incólume desta sua aventura, já que se trata de uma escolha exclusivamente sua, mesmo que, a meus olhos, legítima. Se verdadeira, diga-se!
    4- Que responda à pergunta que muitos portugueses fazem para si próprios neste momento: afinal, qual será o verdadeiro Dr. Fernando Nobre, aquele que se dizia diferente dos políticos profissionais ou aquele que o quer ser, ao que parece, pelo preço de uma alma? Só que esta interrogação coloca-me – a mim, que sem qualquer tipo de dificuldade lhe reconheço o pleno direito a ser quem é na inteireza das suas dimensões – perante um estranho dilema: o de vê-lo a ser avaliado como um todo, no seu carácter, quando o que muitos de nós quer fazer é uma avaliação à sua coerência política, aos princípios que o orientam nesta vertente da vida em sociedade.
    Sei que o Sr. Dr. sabe melhor do que eu que o mundo é uma coisa complicada e que a vida é o pleno das contradições nele, mas estou convicto de que ainda não sabe o que é o mundo da política, que é um milhão de coisas, mas que, nos nossos dias, é para muitos dos seus actores principais a arte dos paradoxos.
    Desejo-lhe toda sorte do mundo para a sua vida, bem como o pior resultado possível na sua eleição, o mesmo é dizer, para força política que o seduziu e que, também por aí, nos quer enganar. E, tirando isso, goze de toda a Felicidade que, tenho a certeza, o Sr. já sentiu dentro do peito e viu de olhos nos olhos.
    Os meus respeitosos cumprimentos.
    Pardilhó – Estarreja, 12 de Abril de 2011
    José Luís Moreira dos Santos


  2. … Como já referi em anteriores comentários, Há que esperar pela explicação de Fernando Nobre. Talvez ele até nem a tenha; talvez ele seja aquilo que sempre me pareceu: um “água morna”. Eu próprio, tendo esta ideia, espero para poder alterá-la ou torná-la definitiva.

    Inclusive, o convite de Pedro Passos Coelho terá sido feito de forma pensada, convidando-o para a Presidência da Assembleia da República, que eu continuo a entender como mera figura decorativa, figura que qualquer matrona, aliás, poderia desempenhar. O lugar de primeiro-ministro… naturalmente, pretende-o Passos Coelho. A medo, mas prertende-o. Sem saber o que fazer com ele, mas pretende-o.

    De resto, quando o BE o convidou para as Europeias, já Fernado Nobre seria avesso (?) às estruturas partidárias. No entanto, ninguém, nessa latura, lhe apontou a incoerência; ninguém o acusou de “traidor”; porque, parecia, o Homem juntara-se aos “humanistas”; aos que se “esquecem” do indivíduo para “pensarem” no colectivo; sendo que, mesmo que fõsse verdade, a “gestão” estaria a ser feita ao contrário, por ser a saúde e o equilíbrio do todo que depende da saúde e do equilíbrio das partes.

    E eu pergunto o que têm, de diferente, o BE ou o PSD dos outros partidos, se todos eles estão inundados de gente que quer, simplesmente, salvar a vida?… Não é por isso mesmo que o País se encontra no estado em que está; porque não faltarem, à “direita”, cúmplices de “esquerda” que lhe têm feito e / ou completado os serviço?…

    Não percebi, ainda, qual a diferença entre “esquerda” e “direita”. Dir-se-á que, à direita, se pensa mais em dinheiro e em poder e que, por norma, são mais parolos —falo do caso português, por ser o que melhor conheço—. Eu posso apresentar magotes de de gente de “esquerda” que só pensa em dinheiro e em poder… e que não são menos parolos —em Miguel Bombarda, no dia das inaugurações, era um fartote.

    Agora, abrandou, porque deixou de ser organizado o “passeio dos tolos”; já não, tantas, pelo menos, as poses assimétricas: humanistas e tolerantes, desprendidos, desfilando como se na 5ª Avenida, em New York; parolos até dizer chega… e, coisa estranha, segregacionistas. Vícios dos corredores da Cultura, de abertura e de lobby, sexual ou partidário…

    Quando muito, Fernando Nobre poderá ser apenas mais um incoerente. A culpa é de quem o confundiu com a Madre Teresa. A mim sempre me pareceu um homem que tem passado ao lado da Vida, porque uma coisa é sofrer, outra, prestar assistência…

    Não foi o Otelo que, depois de pensar “enjaular” os capitalistas, acabou, impensadamente, a participar num daqueles programas sobre sexo, da SIC?… Senti-me chocado?… Não! Eu convivi, na tropa, com muitos oficiais frustrados; com gente que tinha que passar o tempo a parecer o que não era… Quando me perceberam e perceberam que eu os percebia… optaram por me mandar embora…

    Não foi Saramago, quem, depois de anos a ferrar os calcanhares do capital, acabou comprando uma labita, para receber o Nobel; e achando, depois, que a “esquerda” era tonta, e que se deveria votar em branco?…

    Não é a Joana Amaral que, afecta ao BE, tem a pose patética de menina mimada, como se, existindo “esquerda”, a filosofia praticada, a “esquerda pudesse ser aquilo?…

    Continuo, como deixei dito no princípio, à espera que Fernado Nobre se explique. Pressinto —assumo— que não terá grande coisa para dizer, mas, apesar detudo, devo dar-lhe o benefício da dúdiva. Benefício, aliás, que já não posso dar a um magote de “bem-intencionados” que, nos corredores do poder, estão fartos de dizer e fazer disparates; fartos de serem incoerentes. Fernando Nobre, no máximo, poderá ser apenas mais um.


  3. Fernando Nobre morreu politicamente

    Nobre é exemplar como cidadão com o seu trabalho na AMI, mas politicamente um desastre. Nas eleições presidenciais, além de demonstrar que parecia, por vezes, um bocadinho histérico a caminho de ter um ataque epiléptico (ver o tom e os gestos quando disse que só se afastaria da candidatura se lhe dessem um tiro na cabeça – isto em tom de ameaça para quem andava alegadamente a fazer chamadas a anónimas de ameaça), ele beneficiou por ter sido o “Alegre do Alegre”. Aliás, o tal a que chamam “Pai da Democracia portuguesa”, sim Mário Soares (que devia estar há muito atrás das grades), deve ter ficado bastante satisfeito com os votos conseguidos por Nobre.
    No entanto, quem votou no homem da AMI votou contra o sistema, mais do que propriamente no candidato. Durante a campanha, Nobre demonstrou não ter carisma algum para as lides políticas.
    Teve a votação que teve, sublinho, somente por ter sido um voto contra. Acabou por ser um Coelho (o da Madeira e verdadeira surpresa das presidenciais), digamos, mais consensual e moderado.
    Agora, apoia o PSD. Há dois meses, criticava fortemente todos que inquinaram a vida política-democrática nacional e levaram o país à banca rota. Pois, até parece que os laranjinhas também não sugaram o dinheiro dos portugueses com “jobs for the boys and girls” ao longo das últimas três décadas.
    Ao aceitar este convite, Nobre morreu politicamente.

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