Abandono escolar diminuiu: mais cosmética estatística

O secretário de Estado da Educação considerou esta terça-feira que Portugal fez “progressos notáveis” nos últimos anos, destacando a redução do abandono escolar em 2,5 pontos percentuais, no ano passado, para 28,7%, em parte devido às vias profissionais.

Os “progressos notáveis” no âmbito do combate ao abandono escolar só são possíveis graças a um governo constituído por especialistas em maquilhagem estatística, assim nas Finanças como na Educação, perdoai-lhes as ofensas (ou não).

As escolas, na realidade, não podem comunicar os casos de abandono escolar: há, portanto, alunos que estão matriculados, mas que não frequentam as aulas ou têm uma assiduidade baixíssima, mantendo-se no sistema, pelo menos, até ao final do ano, onde entrarão, no máximo, nas estatísticas das reprovações. Pelo meio, os professores ainda são obrigados a simular – é a palavra certa – planos de recuperação para alunos que, de facto, abandonaram a escola.

Aliás, o conceito de abandono escolar até poderia chegar ao ponto de incluir os alunos que vão às aulas e não trabalham ou não querem aprender. São tantos, ainda, os problemas por resolver na Educação em Portugal que a divulgação de estatísticas enganadoras só pode contribuir para agravar as deficiências, porque cria a ilusão de que se está no caminho certo.

A quantidade de vezes que os dois últimos governos já anunciaram números de sucesso na Educação poderia ser sintoma de que ultrapassámos a Finlândia. A comunicação social, como de costume, limita-se a desempenhar o papel de gravador colocado à frente dos responsáveis políticos: não é jornalismo, é publicidade eventualmente gratuita.

Comments

  1. Irene Pereira says:

    Claro! Sou professora, aqui há dois ou três anos uma aluna abandonou a escola a meio do ano lectivo, na acta da reunião de avaliação coloquei isso mesmo. Vieram ordens de Lisboa que não podia ficar isso registado na acta, tinha que ficar: “partiu para parte incerta e o assunto foi participado à Comissão de Protecção de Crianças e jovens em Risco”. Voilá, não foi para a estatística.

Trackbacks


  1. […] de Lurdes Rodrigues, apontando-os como pais dessa mesma descida, como se não tivesse sido tudo resultado de muita maquilhagem (já então, o ensino profissional era usado como uma espécie de banha da cobra que resolvia […]