E os banqueiros, pá?

Continuam as  negociações com o FMI & filiais. Até gente decente se tem prestado ao papel ridículo de participar numa coisa que não existe – o FMI não negoceia: empresta, manda e lucra. Hoje foi a vez do patrão dos patrões aproveitar para se queixar de uma tolerância de ponto, como o ridículo não mata, o homem continua de boa saúde.  Supomos que deve ter aproveitado para pedir por todos os santinhos que não obriguem os seus filiados a pagar impostos (convém lembrar que pelo número de empresas que declaram não terem lucros Portugal não está em crise, é a própria crise).
Não há é notícias de os senhores que mandaram chamar o FMI terem sido recebidos pelos negociadores. Convém lembrar que o FMI foi chamado porque os bancos portugueses se recusaram a emprestar mais dinheiro ao estado que os alimenta, recordar que instrumentos como os certificados de aforro foram destruídos por este governo para não concorrerem com a banca e  já agora que o problema não é a dívida pública mas sim a privada, que estes cavalheiros  foram estimulando ao longo de anos. Eles sim, têm muito que negociar, e aposto que serão ouvidos. O resto tem tanto de farsa como de mentira.

Comments


  1. Grande sentido de Oportunidade para passarem, pelos média, a idéia que não é possivel o Rendimento Mínimo atingir os 500 euros. Nota-se união na defesa dos seus interesses.

    Grave só é quando os trabalhadores, uns contra outros, dizem amén às idéias destes patrões!


  2. Um quadro tão bem arranjado e que explica tão bem as coisas – de um lado os abutres do FMI e do outro as pobres donzelas dos países gastadores (perdão, virtuosamente endividados); de um lado os patrões opulentos e gatunos fiscais e do outro os trabalhadores emaciados, sem forças já para trabalharem o tempo previsto. Uma dúvida porém me assalta: se o BCE fechou a torneira aos bancos portugueses, estes iriam buscar os recursos onde?


    • Eu repito mais devagar: a dí-vi-da é pri-va-da, a pública está muito abaixo da italiana, por exemplo.
      O BCE encheu os bancos portugueses de dinheiro a juros muito baixos. E que eu saiba os bancos têm accionistas: recapitalizem, ao invés de distribuírem os lucros que nalguns casos até aumentaram o ano passado. Mas isso era uma chatice, não era? Onde é que já se viu um banqueiro a tratar dos seus negócios sem a ajuda do estado?


      • A dívida externa é, grosso modo, metade pública e metade privada – suponho que não valha a pena ir pescar os dados, dá uma trabalheira. E com o desequilíbrio permanente que temos entre o que entra e o que sai (à volta de 10% ao ano), a dívida externa não pode senão crescer. Neste contexto, mesmo que os tais accionistas dos bancos tivessem o dinheiro disponível na quantidade necessária (e não têm, a ideia de que as pessoas ricas em Portugal têm 50% do produto em disponibilidades é simultâneamente lisonjeira para elas e fantasiosa) só se fossem tresloucados é que o emprestariam sem que alguma coisa mudasse para o desequilíbrio desaparecer. Agora, que a receita até aqui seguida não só não garante crescimento como também não o garante (pelo contrário) a “ajuda” do FMI – até aí vou de par consigo. Quanto aos caminhos para mudar este estado de coisas, bem, tenho os meus, que passam pela saída do Euro, acompanhada do reescalonamento da dívida (que de qualquer maneira vai ter lugar, a prazo), pelo abandono do estado de espírito do “bom aluno da UE”, pelo emagrecimento violento do Estado e pela diminuição de custos de contexto. Nada que os meus concidadãos desejem, e nada que não implique sacrifícios difíceis de calcular que, talvez por neles não participar, encaro com alguma displicência. As suas soluções de esquerda não vão ver a luz do dia; e as minhas, de negregada direita, só em parte, e tarde, e mal. Mas, vá lá, enquanto puder vir aqui, e a outros sítios, descarregar alguma bílis, sempre poderia ser pior. Se essa liberdade for preservada – às vezes até disso duvido.


        • O próprio director do FMI já declarou que em Portugal “o problema não é tanto de dívida pública como de financiamento dos bancos e dívida privada”.
          Quanto às soluções não temos ideias tão diferentes como isso, o que demonstra que por vezes o bom senso não é de direita ou de esquerda, é só bom senso.

  3. jorge fliscorno says:

    Devo estar equivocado. Afinal quem é que está em risco de incumprimento, o Estado ou algum privado?


    • O estado que paga o BPN, mas não tocou na SLN, o estado a quem os banqueiros portugueses recusaram emprestar mais, o estado que decidiu recapitalizar os bancos, é provável que esteja em risco de incumprimento. Mas quem deve são os privados. Não ver isto é mesmo tentar tapar o sol com uma peneira (ou acreditar nas contas dos fiéis cavaquistas, que aldrabam tanto os números como o governo).

      • jorge fliscorno says:

        Certo. Sem esquecer o Estado que fez as SCUT sem se preocupar com quem ia pagar (nós, uns 5 anos mais tarde). E que fez as PPP sem se preocupar se esse era o modelo mais barato (novamente, optando por fazer obra sem dinheiro). E que não controlou a despesa da RTP, da REFER, da REN, da CP e dos metros. E que comprou dois submarinos. Quem deve tudo isto é o Estado, não são os privados. E quando o Estado optou por estas decisões, os eleitores votaram nos governos que se propuseram fazer isto. É bom de ver que aqui não há “eles”. Não ver isto é também tapar o sol com a peneira.

        Além disso, nem o Estado tinha obrigação de dar dinheiro à banca nem a banca tem obrigação de emprestar dinheiro ao Estado.


        • Sim, o estado que é presidido pelo inventor das PPP (essa magnífica forma de capitalizar os bancos e dar muitíssimo a ganhar às construtoras). O estado que destruiu a CP para a privatizar (dará lucro sim, porque os transportes públicos serão subsidiados pelo estado).Não te esqueças do BPN, que por si faz o verdadeiro buraco nas contas públicas.
          Quanto a obrigações estamos de acordo, mas o estado deu muito dinheiro a ganhar à banca, caso da destruição dos certificados de aforro, p. ex, que eram um instrumento de poupança a favor do estado. E a CGD chegava perfeitamente para emprestar ao estado, sim a CGD que ainda é um banco público mas não parece.
          Depois há uma questão de moral e bons costumes: a responsabilidade da crise económica é do sistema financeiro, quem emprestou ao desbarato provocando o endividamento privado dos portugueses foram os bancos. Eles que paguem a crise. Eu não pedi um cêntimo emprestado a ninguém, e estou a pagar a crise dos outros. E lembro-me do Calimero cada vez que me vão aos bolsos.

          • jorge fliscorno says:

            Não, não esqueci o BPN. Até comecei por concordar com o que escreveste. Apesar que o BPN foi uma das componentes do buraco e não a única. É preciso não esquecer os encargos financeiros das SCUT e das PPP, que só depois de 2005 começaram a nos cair em cima.

            Não concordo que a responsabilidade seja só do sistema financeiro. Muitos ganharam com a política de obras públicas feitas sem dinheiro. E muitos votaram nesses que as criaram.

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