Como Se Fora Um Conto – O Dia da Minha Mamã

De mão dada, passinhos curtos como convém, lá passeamos pelo jardim que ladeia a avenida,

a minha mamã e eu.

Não a minha mãe como agora se usa.

Fui habituado a trata-la por mamã. Nessa altura, a da minha juventude e aprendizagem da vida, de entre as minhas relações só dois dos meus amigos tratavam as respectivas mães por mãe.

“Ó mãe … “, diziam, e essa maneira de as tratarem fazia-me impressão. Parecia-me duro, ainda hoje me parece de uma excessiva dureza, ou melhor dito de uma excessiva falta de doçura. Mas aceitava, claro, como hoje aceito, embora hoje tudo seja diferente e esse tratamento se tenha banalizado.

Para mim, no entanto, eles eram diferentes de nós, conquanto amigos até hoje. Até no restante das suas maneiras de falar eu notava diferenças. Tinham uma pronúncia diversa da minha e tudo. Tinham nascido lá mais para o sul do País. Um era ribatejano, do meio dos cavalos e dos touros, e outro beirão, do sopé da serra grande. De qualquer modo o chamar a nossa mãe por mãe estendeu-se a todo o País e hoje, chama-la por mamã, quase não é “bem”. É lamechas, démodé, velho, antigo, diferente.

Não para mim. Para mim a minha mamã será sempre

a minha mamã.

Da mesma forma que o meu papá sempre foi o meu papá, e os meus filhos também me tratam assim, papá.

Seja como for, lá seguíamos de mão dada, a minha mamã e eu, à sombra dos plátanos e das tílias, devagarinho que a minha mamã já não consegue andar depressa, e só anda com ajuda.

Às vezes, muitas vezes, não sei se ela sabe que sou eu, o filho da minha mamã, que ali vai com ela, mão na mão. Se calhar já quase nunca sabe, mas sei que lhe sabe bem a minha mão, a minha voz, a minha presença.

Está pequenina, a minha mamã. Não que alguma vez tivesse sido grande, mas agora, mais curvada, mais encolhida, está mesmo pequenina, e quando a vejo assim, quando olho para os seus cabelos quase totalmente brancos e para os seus olhos semiabertos, não raras vezes me apetece pegar-lhe ao colo, afagá-la, falar-lhe baixinho ao ouvido e levá-la para um sítio bom, suave, acolhedor, onde eu soubesse que a minha mamã se fosse sentir muito bem. Mas não o faço pensando sempre no quanto seria esquisito fazê-lo em plena rua, com toda a gente a olhar e a não entender o que me teria levado a fazer tal.

Está velhinha a minha mamã.

Os anos já lhe pesam e o fim da sua viagem e a estação de destino não estarão já longe. Começou a sua caminhada final logo após a partida do meu papá, já lá vão vinte anos, e nunca mais se recompôs. Se de início se notava pouco, com o decorrer dos anos começou a ser evidente a sua vontade de se lhe reunir com brevidade.

Tenho saudades da minha mamã.

Tenho saudades do seu fino humor que a todo o momento se revelava em toda a sua pujança. Tenho saudades de a ver cuidar dos outros com um desvelo enorme. Tenho saudades de conversar e ouvir os seus conselhos, de a saber a única pessoa no mundo que realmente me conhecia e me compreendia e aceitava e…

Oficialmente, este é o dia das mamãs, da minha mamã. Não é o dia que ela sempre gostou, esse era em Dezembro, mas no fundo, o dia da minha mamã é cada um dos que passam, o de ontem, o de hoje e o de amanhã.

E de mão dada, lá continuamos o nosso passeio, à sombra dos enormes plátanos e das não menos grandes tílias do jardim que ladeia a avenida, passinhos curtos como convém.

Eu, curvado sobre a minha mamã sussurrando-lhe palavras doces ao ouvido, ela, com um sorriso de felicidade nos lábios.

Comments

  1. Rodrigo Costa says:

    … Antes de mais, e acima de tudo, é bom que ainda tenha a sua mamã. Poderão, as pessoas, designá-las como quiserem, mas as mães serão, essencialmente, mães; sem perda de doçura nem do que as torna instituições.

    Entre mamã e mãe, costumava ir uma diferença de condição, implicitamente económica, em famílias com casas onde não havia paparicos, onde os afagos eram curtos, por haver roupa para lavar e passar a ferro, cozinhas para arrumar, dinheiro para inventar… e alguns berros, porque o pão era pouco, a razão esbracejava e nós nem sempre fazíamos o que elas queriam. Um olho no fogão e o outro nos filhos.

    A “maria” também já existia, nessa altura, mas era uma espécie privilégio inatingível. As mães tinham que fazer tudo, as mamãs, nem sempre. De norte a Sul do País. Sempre houve mães e mamãs em todo o tempo; mais mães, antes, mais mamãs, talvez, agora… Mas o peso da mãe continua enorme, porque nos fala —ou me fala— de uma mulher enorme e forte…

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