Declaração de Voto: a contribuição de um leitor

Paulo Marques

Penso que votar PSD é um erro. O partido quer privatizar tudo o que dá dinheiro e tudo o que garante um mínimo de nível de vida às pessoas. Concordo com varrer as empresas e institutos públicos de caciques, mas tenho muitas dúvidas se PSD será um partido capaz de não arranjar lugar para os seus.
Mas os serviços públicos não servem para dar lucro, pese embora os desperdícios de pagar 15000€ por jornalistas que servem para fazer favores ao regime, e milhões de euros a administradores. Não faltam casos de sistemas privados que funcionam mal, porque estão em posição dominante ou de conluio. Podemos ver o sistema de saúde americano e as privatizações das redes de comboio o que pode facilmente acontecer, sem falar nas dificuldades de regular adequadamente o setor antes de as empresas de habituarem, com a força do monopólio, a laxismos legislativos. Temo o que será da banca sem a concorrência de um banco do estado a impor limites.
Muito menos se deve vender o que dá lucro a preço de saldo. Já a austera Ferreira Leite ofereceu a rede de cobre por trocos, por isso não me parece que corresse melhor esta altura. E depois, por exemplo, a CP fica com o que só dá prejuízo até ser obrigada a fechar, e os bilhetes nas outras linhas duplicam, porque o objetivo passa a ser o lucro e não obter uma rede de transportes que controle externelidades
Passos Coelho prometeu inicialmente que mudaria o sistema eleitoral para um tipo de voto preferencial, mas já chegou à conclusão que prejudicaria o poder do bloco central e mudou o discurso para a simples redução de deputados, o que minaria irremediavelmente a representatividade e fomentaria ainda mais a bi-partidarização corrosiva da nossa democracia. Aliás, a sua convicção democrática é sempre posta em causa por quem conhece o regime da Madeira, cheio de intocáveis e não criticáveis. Ainda esta semana surgem mais dúvidas sobre o quanto está disposto a fazer para roubar um voto, aceitando voltar a referendar o que pode fazer o país voltar a uma situação que ele repudiava, o aborto clandestino.

O Partido Sócrates promete ser socialista, mas há quem não esteja de olhos fechados à realidade dos últimos anos: redução de pensões, congelamento de pensões e ordenados, aumento do IVA por oposição subsídios a empresas, contratos públicos desastrosos e sem controlo (e nem todos são PPP), facilidades ao sistema financeiro.
Nunca houve em Portugal um governo e um partido que mentisse e ocultasse tanto. À segunda diz o Ministro das Finanças que vai privatizar, à terça o Primeiro Ministro desmente, e fim da semana já está escrito o contrato para vender a empresa aos pedaços. Na semana seguinte critica a oposição por uma medida que já planeia e implementa no mês seguinte. Mas ainda há quem acredite que a ideologia se mantém, o problema são as circunstâncias… Esquecem é para onde vai o dinheiro.
Este partido está já preparado para privatizar todas as partes das empresas públicas que dão lucro, seja por acordos com a troika, seja por convicções que vêm à mais de uma década, como a companhia das águas. Mas, como dito acima, faz de conta que o que disse o ano passado não existe, com a comunicação social a ajudar ao esquecimento estilo 1984.
Sócrates bem fala da emboscada dos mercados, mas ninguém o vê a falar mal do sistema financeiro nem a procurar unir a Europa em torno de um capitalismo sustentável, regulado e saudável. Pelo contrário, não tem qualquer tipo de problemas em causar diminuição do poder de compra às classes mais baixas, usando exclusivamente subterfúgios para apenas admitir as suas medidas à última hora.
A sistemática destruição da credibilização dos professores, facilitismo absurdo em todos os níveis de ensino e falta de um plano para a educação que não incida apenas em corte têm minado por completo o futuro educacional das próximas duas gerações de alunos. Não que lhes faça diferença. Como bem disse Garcia Pereira, trocamos a agricultura e indústria para sermos uma nação de call centers e, acrescento eu, precários trocados mais facilmente do que camisas a ganhar a maior miséria da Europa.
O PS não tem ideologia, tenta apenas agarrar-se ao poder o maior tempo possível para poder distribuir jobs, adjudicações e PPP ruinosas para o estado, tendo causado com que o ataque dos mercados fosse muito mais letal pois o dinheiro tinha fugido todo para os caciques e grandes empresas.
Sem falar a nível da vida pessoal de José Sócrates, que até levante dúvidas sobre a sua educação: alguém impoluto, inteligente e com sentido de estado não se encontraria envolvido em tantas suspeitas.
Há também Armandos Varas e Ruis Pedro Soares, gente de quem se fugia se os víssemos na rua; o discurso de vítimização constante de quem se chama responsável mas nunca assume responsabilidade por nenhuma das tragédias que inflige no país, sem nunca assumir as decisões erradas mas culpando sempre a imprevisibilidade das coisas que até uma simples pesquisa na Internet descobre (às pessoas interessadas e realmente preocupadas).

O CDS promete muitas diferenças, mas eu não me esqueço dos sobreiros, não me esqueço de Celeste Cardona, não me esqueço dos submarinos, não me esqueço de que achavam Santana Lopes credível para liderar o país; honra lhes seja feita, entre Sócrates e Lopes, este ainda era capaz de ser menos mau e fazer menos coisas tão pouco recomendáveis (mas há sempre o caso Marcelo)…
A imagem de condescendência sempre que se associa a posições da igreja são insultuosas, recusando-se a admitir que nem todos são como eles.  Porque é que uma família de um casal homossexual há de ser pior uma família tradicional em que os pais nem se falam, ou dos casos extremamente comuns de violência doméstica? Porque é que é preferível uma mãe adolescente (e a ser recriminada pelos subsídios) do que poder escolher quando pode dar uma boa vida ao filho? Não me surpreendia que amanhã PP falasse mal contra o uso de preservativos e sexo fora do casamento.
O CDS insiste em falar do RSI, do subsídio de desemprego e do aborto como se andasse meio Portugal a abusar do sistema, o que considero insultuoso para esse meio de Portugal (e estou a ser muito otimista) que vive cheio de medo de mês para mês, a tentar alimentar a família e a pagar a casa, que mal tem tempo para perceber o que assina quando vai a uma instituição bancária; aquelas que são o exemplo de seriedade e em quem devemos confiar cegamente, tanto que se esconderem as reais condições de um empréstimo/depósito, a culpa é nossa de não tirarmos um mini-curso de economia; mas para controlar os destinos de países, esta gente já tem só o país em mente (ou então é a mão invisível do ser invisível que faz milagres).
O CDS fala em pensões, mas quer pagar em vales, como se a vergonha de estar desempregado ou ser precário não fosse já enorme. O CDS não parece ver valores além de pátria, família, trabalho e religião e bate mal com a realidade de que nem toda a gente quer nem DEVE ser assim, pois só com pessoas diferentes é que se progride, mesmo dentro de uma empresa, e com certeza dentro de um país.
Não dependendo como os outros de amizades com grandes fortunas, o CDS luta, e bem, pela agricultura e pela pesca nacional, mas não é capaz de perceber a inevitabilidade da renogociação da dívida e não vê qualquer problema no sistema financeiro.

Restam o BE e a CDU; os pequenos que me desculpem, mas neste sistema não vão a lado nenhum. Sempre me senti aproximado ao Bloco pelas questões de igualdade. O Bloco está acordado para a igualdade (de género, de classe, de sexo, de religião), para os problemas do sistema financeiro, para os problemas que causam os monopólios (incluindo as variadas formas de propriedade intelectual). O Bloco luta ativamente contra acordos internacionais contra a vontade dos povos e contra os direitos humanos; ACTA, EUCD, patentes de software, rapto de cidadãos europeus e extra-comunitários para serem torturados são tudo questões que o Bloco (e a CDU) luta ferozmente.
O Bloco não tem necessidade de enfiar a cabeça na areia e fazer por não ver as evidências do rumo do capitalismo desregulado e predatório, nem as evidências da auto-destruição europeia que, tal como avisou, a constituição europeia só veio piorar. O BE luta sim por um federalismo europeu onde todos têm uma voz e não apenas 3 lideres de 3 países. O BE tem a coragem de criticar constantemente a corrupção, seja no continente, seja na Madeira, seja nos Açores.
Por outro lado, o partido precisa urgentemente de mudar a mensagem. De nada adianta insistir na argumentação demagógica e ter medo de usar argumentos reais para convencer as pessoas, tentado roubar os votos da CDU que nunca sairão do partido. Penso que se fosse exclusivamente pelo que é comunicado pelo BE provavelmente não os apoiaria e acharia-os demagógicos e extremamente radicais. Há que não ficar pelos chavões gastos e apresentar factos e números, principalmente para um economista. Um eleitor do Bloco é uma pessoa que procura a verdade além da que nos chegada filtrada e alterada todos os dias. É extremamente desmotivador da luta ouvir comentadores constantemente a criticar posições que o Bloco não explana e posições que não tem mas deixa a possibilidade para roubar votos aos comunistas.

Acho complicado separar o BE da CDU, principalmente por tenho descoberto cada vez mais que aquilo que pensava sobre o partido não passa de um conjunto enorme de mentiras e calúnias por todos aqueles que beneficiam do estado do país. Mas a CDU não é capaz de comunicar, ainda menos que o BE, e espera sentado por uma revolução popular que lhes dê razão. Se acham que sair do Euro até tem hipóteses de não ser pior, porque não pegam numa máquina de calcular e apresentam tudo o que nos vai custar a troika, e o que nos custaria sair do Euro? Porque é que preferem ser ridicularizados por todos os comentadores políticos? Porque não apresentam claramente porque é que Portugal podia não ter aceite o empréstimo em Maio? Não, meus caros, a revolução não aparece porque era bom que fossemos todos camaradas e cuidássemos todos uns dos outros, ela aparece porque nos provam que é melhor e que é possível. Toda a gente(?) simpatiza com o mundo que os comunistas querem, mas é preciso agressividade e factos. Parecem que se contentam em ser o contra-balanço ao liberalismo económico, mas perdem força de cada vez que não dizem que basta e onde se deve ir buscar o dinheiro.

Qualquer análise padece inevitavelmente de simplificações. Há com certeza mérito em propostas de todos os partidos: cortes em organismos públicos, avaliação de professores, fiscalização dos subsídios, renegociação da dívida urgentemente, aumento do controlo sobre a banca. É muitas vezes complicado destrinçar o que é propaganda e o que corresponde à ideologia que será aplicada. Aquilo que se pode medir é o que se disse e o que foi aplicado, e eu não acredito em quem me promete crescimento económico quando está rodeado das sanguessugas que drenaram e drenam o país em toda a economia. Acredito que o futuro nos leva inexoravelmente a confrontos violentos entre os que têm e os que não têm, e só posso votar em quem já reparou e avisou que o ocidente caminha para a auto-destruição e nunca naqueles que procuram ficar com cada vez mais migalhas porque é tudo o que sabem.

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