A humanidade seria solidária, se…

solidariedade

 após  o terramoto, nasce a calma, como as legislativas de 2011 

A humanidade seria solidária, é dizer, sermos uns para outros, colaboradores em reciprocidade e simpatia, dar a mão sem reticências, devolver o beijo querido, tomar conta da parceira, não criticar o que não entendemos e outras qualidades quase rituais, como diz Durkheim em 1912, se, como Mauss criticou sistematicamente no seu jornal L´Humanité e nos seus textos políticos, recentemente aparecidos na PUF, 2002, não houver troca desigual entre países, grupos, castas, classes sociais, como demarcou Karl Marx e Friedrich Engels no seu texto de Paris de 1848: O manifesto comunista. Palavra que em francês é communitaire ou comunitária. Conceito que todos partilhamos para sermos solidários com os que amamos e com aqueles que nos tratam mal, conforme os nossos parâmetros.

Os nossos parâmetros são, basicamente, solidários. No entanto, um vírus entrou na nossa sociedade, denominado moeda e estragou a reciprocidade das relações. Os seres humanos parecem ser serviçais, apenas nos corrigimos, quando somos vistos, louvados, por pessoas de maior importância, quando somos rederidos de forma pública pelas nossas actividades. Que há Amnistia Internacional? Que há Human Rights Watch? Parece que poucos parecem saber ou se interessar pelas matérias que estas instituições internacionais tratam. Seres humanos na rua? O dormir, sob o vento e a chuva? O que sabem os mais ricos da poeira que estraga a vida dos menos beneficiados pela fortuna, esses que não têm meios para subsistir. As portas das casas não lhes são abertas, bem ao contrário, têm alarmes, fechos encomendados especialmente, os saberes de uma pessoa não são utilizados, excepto se nos levam para algum sítio mais alto. Uma vez servidos, já não necessitam de se importar mais. A pessoa já ofereceu o que tinha, torna-se assim, substituível, dispensável. Já temos o nosso don, a nossa dádiva.

No texto anterior, referi os perigos da riqueza de profissionais liberais e artesãos. Remeto-me a eles, para complementar este texto. Porque hoje em dia, após uma experiência de cinco meses de ser auscultado, de pagar taxas moderadoras, ou imenso dinheiro por análises não comparticipadas, devolvidas pela Segurança Social apenas três meses depois, a minha atenção está centrada na pilhagem que fazem os profissionais “da saúde” com as doenças dos seus apelidados “pacientes”, esses que eu gostava de ouvir denominar “clientes”. Não apenas advogados, arquitectos, serralheiros. O mais grave, os médicos de patologia do corpo. Os que sabem construir a sua fama e fortuna em diagnósticos enganosos, em operações que justificam unicamente a prática da sua arte, desnecessárias na maior parte das vezes, e a colaboração desfavorecida que presta o pessoal paramédico: diagnostica, grita através do guiché, pensam que sabem tudo e têm os seus preferidos e os seus mal queridos, esses que parecem aborrecê-los.

Uma doença, meninos, é sempre dupla: é a do corpo e é a social. A do corpo, está já comentada. A social, é essa servidão do cliente ao Senhor Médico ou Senhora Médica, entendidos como seres que parecem saber tudo e tratados como Bispos. Tenho observado até os que beijam a mão ou tocam a toga branca com lágrimas nos olhos. Afazeres típicos de quem não está bem no mundo da concorrência e a sua vida é desdenhada por não ser útil para a corrida social, para essa imensa necessidade de ganhar dinheiro e sobreviver. Há doenças que fazem do ser humano, um morto em vida, como a SIDA, a Hepatite B, a cegueira e outras que todos nós sabemos. O nosso saber não é respeitado e não somos animados, nós, doentes, pela ideia: “não é nada, em breve já deve estar bem e voltar ao seu trabalho que tanto ama”. Não, a frase é: “vamos esperar se é útil ou não e aí vemos o que precisamos de fazer em si.

Escrevo estas ideias com imensa dor, após trabalho de campo de vários meses entre académicos e profissionais da saúde. Não sou crente, todo o mundo sabe, mas “tomara” que houvesse um Deus para orientar o comportamento ético, epistemológico de académicos e profissionais. Aí, se espera uma divindade, como falava Durkheim em 1892, Mauss em 1924 e Marx desde o começo da sua vida. Eu próprio, nos meus textos. Todos a abusarem da saúde e solidão de um “cliente”, excepto aqueles, os raros que nos visitam, ou telefonam, têm cuidados, perguntam como estamos, ou então são da Ucrânia.

Pais, devem ensinar aos mais novos, às crianças, o que é a solidariedade humana, essa da qual eu lucro em casa e nas ruas da minha aldeia. Amém.

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