O mundo da infância – II parte: mudança de vida

 

Habituado a navegar e academicamente preparado para isso pela Universidade Católica de Valparaíso[i], como narrei na parte I, o mar era a sua delícia, navegar o seu objectivo, e esses encontros e desencontros com a sua mulher e o único filho desses tempos, sogros e cunhados, uma delícia. Estar todos os dias com as mesmas pessoas, poderia ser cansativo. Estava habituado a solidão dos campos, a montar o seu cavalo e percorrer o fundo em procura de amores ou amigos para cavaquear. Gostava dessas companhias, mas nem todos os dias nem com as mesmas pessoas. Era o patrão e gostava mandar ou pregar brincadeiras pesadas aos amigos, mas de que gostava brincar, era o seu prazer. Tinha começado os seus estudos na Universidade referida antes, em breves anos após a sua fundação, aos seus 18 anos: cinco anos de estudo mas a prática de engenheiro da marinha, acabaram por deixa-lo livre e com um bom ordenado em 1937. Aos 27 anos casou com a Senhora que pretendia mãe do bebe que foi a sua ilusão. Teve paciência, entre viagens e viagens pelo mundo e a contextura da sua mulher, acabou por ser pai três anos depois. As viagens continuavam, a mulher sempre em casa porque estava proibida de trabalhar pelo seu marido, passava os dias em casa dos seus pais, a sua casa por não ser prudente comprar ou alugar outra só para ela e uma empregada. Com a sua inteligência e formação matemática, mal aparecia o seu marido de volta em casa, pedia o dinheiro ganho, os separava em envelopes para pagar gastos, pagar roupas comprada a crédito, contribuir pelo aluguer do quarto e sala da casa do pai. Pai que não aceitava o dinheiro por causa de ve-la só e a espera do marido. A mulher do engenheiro, contava-me já mãos tarde, parece que nunca tinha saído de casa: tinha nascido e sido criada na casa do pai, rendo assim a impressão de não estar casada. Como a seu pai, quem a tratava como mais uma das filhas solteiras que moravam na imensa casa ou mansão e proporcionava mãos cuidado com ela: uma mulher casada sem marido, nos anos 20 do Século passado, era socialmente reprovável. O pai passou a ser uma espécie de marido para a sua filha e despedia ao genro com as palavras: anda descansado, ela fica comigo, sabes que a casa é calma, que nesta casa mão há jaleo, as mesmas palavras quase no dia em que o engenheiro entrou na casa paterna, como inquilino. Nesses anos 30, ele teria dito: jovem o aceito por recomendação de Fany, mas esta é uma casa de muito respeito e esta casa não já jaleo. Era uma casa imensa por causa da família e dos quartos alugados aos estudantes. Todos almoçavam na mesma mesa, não havia o hábito nem o dinheiro dos restaurantes nem das cantinas universitárias, que começaram quando eu entrei à Universidade. Todo isto dito com um sotaque espanhol de quem provém do Principado de Astúrias, da Catalunha e fala duas línguas: o aragonês e o castelhano espanhol[ii].

 

O hábito adquiridos pelos descendentes de ouvir falar ao pai, não permitia reparar, que a sua forma de pronúncia era diferente do resto da família. Conheci bem esse avô, advogado em Huesca e Barcelona, filho de notário de nomeação real, e mal entendia eu o que ele falava. As suas filhas ainda vivas, nascidas em Segóvia e Alicante, estavam tão habituadas que nem reparavam as formas diferentes de falar castelhano de todos os membros de família. No meu caso, de fala castelhana chilena, tinha que pedir que falassem outra vez, porque não entendia, como todos os primos mais velhos.

 

Este senhor advogado sentia tristeza de ver a sua filha casada, sem marido em casa. Nos anos quarenta do Século XX, instalou-se uma empresa norte-americana no Chile, para produzir força motriz e procuravam pessoal adequado. Pai e filha correram a inscrever ao engenheiro, levaram as suas credenciais e cartas de oficiais da Marinha Mercante. Faltava apenas que aparece-se o candidato, ser entrevistado para saber se prestava ou não para o sítio requerido e toda a papelada de recomendação possível. A mulher do candidato sentou-se à máquina de escrever, começou por redigir a carta de petição para ser admitido, falsificou a assinatura do marido, para desespero do advogado de Huesca, destemida foi aos gabinetes da empresa, apresentou a papelada, explicou que por motivos de trabalho o candidato não podia aparecer, mas em breve estaria no Chile. Era tanto o desespero de uma mãe com filho e sem o marido em casa, que não parou até o candidato fora quase admitido. Mãe Coragem, diria eu[iii].

 

Esta Mãe Coragem de outro canto da vida real, lutava para ver a sua família formada de vez. Eram quase quatro anos de solidão de criar só o filho comum, com a colaboração da família da casa mãe, com a profunda tristeza da Mãe Coragem, sempre só, e da família que a acompanhava. Enquanto o marido viajava e ia divertindo-se por terras desconhecidas, ela procurava alternativas em terra com a colaboração do pai advogado e o seu próprio ímpeto de carácter teimoso e persistente. Se até para falecer foi difícil! Com os seus noventa anos, morreu porque quis, após imensas conversas comigo em pessoa e a telefone esses derradeiros dias. Mãe Coragem que me contava na sua memória activa sobre a sua infância, a das sua irmãs e lembranças da mãe falecida aos seus cinco anos. Devo confessar, com honra, que era a melhoria da morte. Durante semanas e meses, tomei conta dela, junto com a minha irmã a seguir a mim. Vários meses antes, por causa de um inesperado acidente, tinha perdido a memória. De volta em casa a seguir semanas de hospital, dentro do seu ambiente, no seu lado da eterna cama matrimonial, recuperou a memória por pouco tempo. O tempo suficiente para lembrar histórias que antes nunca me tinha contado… e que estão nos meus cadernos de apontar a vida.

Foi essa mulher, monárquica, filha e neta de Damas de Companhia da Rainha de Espanha, falangista porque não entendia o que acontecia na vida fora de casa, esse coragem de mãe que confrontou ao pai dos seus filhos para lhe dizer que tinha uma surpresa para ele: trabalho em terra…. Ficou calado, mas a cor da sua cara, pálida de surpresa e contenção, com os olhos azuis tornados verdes de raiva porque era a sua mulher quem tinha tomado decisões por ele. Teve que ser empurrado com coragem pela mãe e levado a entrevista. Ganhou a primeira volta…o que não queria, mas depois começou a gostar: visitou a indústria, o lugar era um paraíso e a casa, ainda melhor. Laguna Verde era o nome do lugar, onde estava todo para ser feito e ele tinha que organizar. Mais tarde na vida, comprou parte da fábrica, que sempre a penamos como nossa…o engenheiro tinha já comprado 25 hectares de pinheiros em honra a mãe Lucrécia…. Foi ai que se traçou a nossa vida.


[i] El 21 de septiembre del año 1925, era puesta la primera piedra de la que hoy es una de las instituciones de mayor trayectoria y prestigio de la educación superior chilena. Ese día nacía la Universidad Católica de Valparaíso.

Los inicios de nuestra Casa de Estudios fueron posibles gracias a la generosidad de doña Isabel Caces de Brown, dama porteña que junto a sus hijas, señoras Isabel Brown de Brunet y María Teresa Brown de Ariztía, destacan por su trascendencia en la historia de Valparaíso.

[ii] Aragão é uma Comunidade Autónoma espanhola, resultado do reino histórico com o mesmo nome situado no norte da Península Ibérica. O Reino de Aragão, junto com o Condado de Barcelona (Catalunha) formava a Coroa de Aragão no século XII, ainda que permanecesse totalmente independente conservando todas suas instituições, foros e direitos até a Guerra da Sucessão Espanhola no século XVIII. Em Aragão se fala o espanhol em todo seu território e é seu idioma oficial, como no resto da Espanha. Entretanto há em algumas zonas algumas variantes do aragonês e em uma estreita franja (conhecida como franja de Aragão) se fala o catalão:

 

 

[iii] Mãe Coragem e Seus Filhos (no original em alemão, Mutter Courage und ihre Kinder) é uma peça de teatro escrita em 1939 pelo poeta e dramatista alemão Bertolt Brecht (18981956) com contribuição significativa de sua amante na época, Margarete Steffin. A peça também foi filmada. Escrita em 1939, é uma das nove peças que ele escreveu na tentativa de conter o avanço do Fascismo e do Nazismo. Seguindo os princípios brechtianos de drama político, a peça não está situada em sua época, mas sim na Guerra dos Trinta Anos of 16181648. Ela retrata o destino de Anna Fierling, apelidada de “Mãe Coragem”, uma mascate que segue o Exército Sueco e está determinada em viver da guerra. Durante o curso da peça, ela perde todos os seus filhos, Queijinho, Eilif e Katrin para a mesma guerra que a fez lucrar.

 

 


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