Nada justifica o vandalismo

Paris, Grécia,  Londres. Três capitais europeias, três verões, três cidades em tumulto. A moda de destruir os bens daqueles que estão na mesma condição dos “manifestantes” parece ter chegado para ficar. E se ainda não aterrou em Portugal não será por falta de vontade de alguns, pois já em 2009, ainda nem se suspeitava do que estava para vir, e já eu ouvia  suspiros na linha do “os gregos não brincam em serviço e os de cá são uns mansos”.

Indignados, manifestantes, rebeldes. Mas o que os indigna? Manifestam-se contra o quê? Espalham o caos para quê? Sabe-se que se queixam da sua parca condição mas nada fizeram quando os navios vindos da China traziam para cá contentores de Levis baratas e, na volta,  lhes levavam o emprego. Indigna-os não terem o plasma da montra e portanto fazem a justiça das montras partidas.

A mim mete-me asco esses que parasitam das benesses que a política lhes traz. Ainda há meses o PSD gritava contra os boys do PS e agora vejam-se os salários milionários que as nomeações estão a trazer. Impostos para uns, 3000 euros por mês para outros. Mas neste campo não existem virgens imaculadas. Do poder central ao regional e local, não há partido que não tenha telhados de vidro.

O nacional-tachismo é uma vergonha mas não justifica o estado miserável a que chegámos. E não será um eventual vandalismo importado de Londres que algo mudará. Precisamos de um paradigma económico diferente, sem empresas encostadas ao estado e onde a concorrência internacional tenha regras.

Comecem por ganhar nas urnas, em vez de querem conquistar as ruas. Nada justifica o vandalismo.

Comments


  1. Não é vandalismo, parece que é luta de classes:

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=QP-CC0gsSU4

    Mas não convém confundir o que se passa na Grécia como que se passou em Paris ou o que se passa agora em Londres. Na Grécia tens a implosão de um país, nos outros casos tens outra coisa.

    É engraçado a esquerda defende os RSI e afins, mas o síndroma da revolução que procura (e timidamente apoia) só aparece quando é altura de reforçar os anestesiantes sociais (que deve ser o que vai acontecer, é mais barato ter pobre a viver com a esmola do estado do que ter pobre a dar cabo do Verão…). Há aqui um paradoxo…

    • jorge fliscorno says:

      Este vídeo é incrível. Sim é isso, luta de classes.

      A causa da violência da Grécia é diferente, sim. Mas vejo ali, como nas outras, um padrão de dissociação entre quem se manifesta e quem sofre com a manifestação e entre as queixas por umas coisas e não por outras.

  2. rosinha says:

    Nada justifica o vandalismo . Completamente de acordo.
    O grande, o enorme problema é que as garantias de uma vida digna já não se obtem nas urnas. E quando as eleições ditas “democráticas” apenas contribuem para a instalação de meros servidores dos interesses económicos e financeiros, os actos eleitorais , são farsas. Como demonstra a realidade portuguesa. As campanhas eleitorais servem para vender os grandes partidos, apoiados e financiados pelos sacos azuis de empresas e empresários,( e infelizmente ainda pelos contribuintes) e os média apresentam ao “povinho eleitor” marcas concorrentes que fazem o mesmo, com ligeiras diferenças. Tal como escolhemos os detergentes , um porque lava melhor com água quente e outro com a água fria, escolhemos os políticos que mandamos para São Bento.
    E isto todos sabemos que não é democracia. E não esqueço que a história me diz que Hitler chegou ao poder através de actos eleitorais.
    Perante os avisos que chegam das “periferias” das grandes cidades , os políticos deviam, juntamente com os seus apoderados capitalistas que os sentam nas cadeiras de governos (europeus e no mundo) revisitar os manuais da História recente do Ocidente e mudar de rumo, para que os tumultos dos finais do século XIX não regressem em breve ao mundo globalizado.
    Dir-me-ão: vivemos uma era diferente. E eu respondo a isso, dizendo: vivemos uma era diferente sim, do conhecimento, da informação e comunicação imediata, mas com a mesma fome, a mesma pobreza, o mesmo desemprego, a mesma soberba de quem detém e domina os recursos, e despreza os mais fracos. A mesma selvajaria capitalista, que domina Governos.
    As diferenças no mundo de hoje, deverão ser agora as únicas armas de que dispõem aqueles que nada têm. Já não há martelos nas oficinas, nem foices nos campos. O mundo mudou. Não mudando as injustiças, a exploração e a indignidade dos homens e da soberba do poder do dinheiro, ficou ainda pior!
    Por tudo o que atrás escrevi, reafirmo: Nada justifica o vandalismo. Mas tudo o que temos hoje, começa a justificar uma revolução . Não sei se nas ruas, se nos Bancos, se nos ministérios, se nos condomínios fechados. Em Portugal, talvez começasse na Assembleia da República. Por “desinstalar” gente pouco recomendável, que os partidos políticos lá sentaram, Apesar das artes que lhes conhecemos, os partidos acham que eles nos podem representar na casa da democracia. A traição eleitoral, começa aí, e termina nos negócios que vão fazendo. E isto não é democracia.
    Desculpem a extensão do escrito. Que até deveria ter continuação.
    Manda a consideração que tenho pelos escritores do blogue que me contenha.

    • jorge fliscorno says:

      Ora, não se contenha 🙂 esteja à vontade.

      «A traição eleitoral, começa aí, e termina nos negócios que vão fazendo. E isto não é democracia.»

      Pois. E como se muda? Se calhar começando por as pessoas se envolverem mais na política em vez de deixarem os outros tomarem as rédeas da carroça.

  3. Ricardo says:

    Pode-se começar a mudar a sociedade a partir das suas bases – dar o poder do conhecimento às crianças de famílias da classe desfavorecida. Eu pergunto: porque é que não se ensinam às crianças a retórica e oratória? Não vos parece uma coisa óbvia? É uma opinião muito pessoal, mas a meu ver, o que está na base de qualquer aprendizagem é a retórica e a oratória, saber como expressar e saber o que expressar.

    Os donos da riqueza sabem isso.

    Quem mexe os cordelinhos determina que se ensine retórica e oratória na escola? Não. Sabem porquê? Porque isso era dar poder ao povo. O poder advém do verdadeiro conhecimento e da capacidade de crescer como ser humano.

    Exija-se que se ensine retórica e oratória na escola. Exija-se que se ensine a liberdade de espírito.

  4. rosinha says:

    Ricardo:
    “Porque isso era dar poder ao povo. O poder advém do verdadeiro conhecimento e da capacidade de crescer como ser humano.”
    Permita-me que acrescente à frase..e perceber o que se passa à sua volta e no mundo! E isso o poder dominante não quererá nunca! Quanto mais alienados melhor dominados! Não tenha ilusões: a escola não ensinará nada disso aos nossos filhos. Olhe o Ricardo à sua volta e o que vê??? Ou o que vemos? Treinar argumentação, expressão escrita, retórica?? Pura ilusão. A escola mal ensina hoje a escrever, muito menos a falar.
    Mas não é por isso que não vai deixar de existir consciência das arbitrariedades que se cometem. O pior é que as formas de expressão passam a pura violência, e vandalismo, porque outras não se conhecem. Não lhes foram ensinadas, nem na escola nem em casa. A geração dos pais dos jovens de hoje, também já não a tem. Muitos , apesar do desemprego e situações de dificuldades, acomodaram-se, acreditando que haveria dias melhores, e enquanto “subornados” pelos subsídios estatais, foram acreditando nos políticos. Mas o mundo mudou. E só agora começam a reparar lhes entregaram tudo, até a dignidade!

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