As guerras do canal de distribuição e das moedas (2)

(segunda e última parte desta  divagação)

É quase um lugar comum afirmar que o cavalgante custo do dinheiro emprestado resulta de uma guerra das moedas. Nesta perspectiva, um conjunto indefinido de pessoas e corporações agiriam de uma forma consertada para fazer dinheiro à conta dos que precisassem de pedir emprestado. Sem duvidar que isso acontece, esta explicação confunde a consequência com a causa, já que este cenário só ocorre porque quem se endivida não tem outra solução que não seja essa.

Mais do que bramar contra os moinhos de vento, interessa perceber como é que aqui se chegou. É neste contexto que entra em jogo aquilo a que chamo de canal de distribuição e que constitui o grupo dos que fazem as pechinchas orientais cá chegarem para serem vendidas a preços  ocidentais. 

Um produto saído de uma sweatshop tem por custos principais a concepção e a distribuição, sendo o custo do trabalho apenas marginal (tipicamente 2% a 5%).  Se produzir com mão-de-obra a custo quase zero é um bom negócio, trazer essa mercadoria para o ocidente não o é menos. Mas, há uns anos, havia um enorme obstáculo a este idílio mercantil: os limites à importação. Algo que o lobby do canal de distribuição conseguiu abolir com a conivência dos políticos que mudaram as leis e com o contentamento dos eleitores que trocaram os seus salários pelos saldos de Outono/Primavera. Duas realidades opostas, uma de proteção laboral e ambiental, outra de completa selvajaria, acabaram em rota de colisão, com a consequente transformação do ocidente num mercado consumidor.

Mas o mealheiro ocidental tinha fundo, que foi sendo tapado pela banca e que bem lhe tem sabido. Neste momento estamos a pagar a selvajaria comercial com desemprego e com um Estado insustentável. Desde os anos 80 que o canal de distribuição está em guerra connosco e nós temos aplaudido. Mesmo que abatidos por fogo amigo.

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