A bolsa e a vida*

Frank Paton - The Card Game 1885

Os bancos portugueses estão aflitos com a chegada da troika aos seus balanços. Afinal, o dinheiro que lhes falta para financiar a economia está nas mãos de alguns, poucos, grandes clientes que o pediram para comprar acções que agora não valem nem metade do que custaram.

Isabel Tavares in Sou tão rico, não era? Dívida supera mil milhões

Também já vi este filme, conhecido entre uns por Investir no Mercado Bolsista Através do Crédito e por outros chamado Jogas na Bolsa e Quem Se Lixa Sou Eu.

A simples ideia de um banqueiro emprestar para comprar um papel, agora nem o papel existe, arrepia-me desde que li umas coisas sobre 1929. Quem vai agora emprestadar aos bancos também sou eu, no meu vencimento anual e nos gastos de todos os dias.

Que culpa temos de as acções terem descido, se quando subiram nada ganhámos com isso?

* o título é gamado mas googlando percebe-se que aplicado o provérbio se conseguem milhões de anos de perdão, pelo menos tantos quanto a dívida privada nacional.

Comments

  1. O problema é exactamente este. Estamos a subordinar a economia do país ao salvamento de bancos que estão falidos.

    Aconteceu com os empréstimos que referes, aconteceu também com o mercado imobiliário e claro, não esquecer o mercado de consumo (cartões de crédito, crédito ao consumo e afins).

    O drama maior é o facto de todas as medidas dos governos serem poucas, se o objectivo for salvar os bancos. Não há dinheiro suficiente para o fazer.

    Nota tb que comprar acções com dinheiro emprestado, em bolsa ou não, não tem grande mal só por si – não é mais do que a compra de uma participação numa empresa. O mal vem do facto dos nossos bancos serem muito corruptos, assim as avaliações de risco foram feitas com critérios de amiguismo, ou houve dinheiros pagos por fora, ou mesmo, simplesmente, o tipo que autoriza o empréstimo queria um bónus maior no fim do ano.

  2. Helder,
    No essencial estou de acordo contigo; exceptuo alguns ‘pormaiores’:
    1) Emprestar dinheiro para a compra de acções, tomando como garantia as próprias acções ou é um acto doloso do amiguismo financeiro ou é um acto de incompetente – as acções, porque sujeitas ao mercado volátil da bolsa, nunca reflectem com rigor e a cada instante o valor das sociedades cotadas;
    2) Os tais empréstimos, bem como a intensa participação dos bancos nas PPP’s, com recursos a capitais externos degeneraram definitivamente a liquidez do sistema bancário, em consonância com o que, de resto, sucede no ‘sistema financeiro internacional’.
    A crise , como defendes, é produto dos bancos que, uma vez estrangulados, estão a sufocar e de que maneira as economias. Para os neoliberais, a solução é favorecer os bancos e retirar ao Estado funções sociais que, na Europa, remontam ao tempo do conservador Otto von Bismarck, século XIX.
    Um abraço para ti e para o JJC, um irreverente coimbrão tradicional,
    CF

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