O ódio às árvores


Jardim Salgueiro Maia, Massamá

Li há dias e acabo de confirmar:

«Desde o início do verão que a Câmara de Oeiras tem desenvolvido um plano de intervenção que prevê o abate de 90 por cento de árvores na freguesia de Santo Amaro de Oeiras, uma decisão que tem sido alvo de protestos.» na Rádio Ocidente

A Câmara de Oeiras justifica a acção como decorrente de várias reclamações devido às árvores terem “elevado risco de rutura” mas que estão previstas “novas plantações e melhores acessibilidades (zonas de passeio e estacionamento)”. Sem conhecer o caso mas atendendo ao habitual modus operandi aqui deixo a minha aposta de as reclamações terem vindo da parte da tesouraria da câmara, que novos estacionamentos pagos e árvores era coisa incompatível. Os protestos decorrem mas têm os políticos em Portugal este velho hábito de os ignorarem e, mesmo assim, conseguirem fazer-se eleger na mesma. Até com processos em tribunal e condenações à vista, já agora.

O ódio às árvores, particularmente entre o poder local, é algo de longa data. Parece ser sempre um empecilho à requalificação urbana (à quê?) como com muito mais glamour se tem chamado às obras públicas citadinas. Aparentemente, sempre que se decide calcetar um pedaço de cidade, logo alguma alma iluminada opta por decepar o que de verde exista, não vá ele ensombrar a vista no dia da eleição. Acresce que um pequeno nada parece sempre uma grande mudança se esta vier do choque visual que o desaparecimento das árvores causa.

Mas esta aversão ao natural vai mais longe e atinge a própria sombra onde ela faz falta. É o caso dos parques infantis, de que este na foto (Parque Salgueiro Maia, Massamá) é um exemplo característico. Destinando-se estes equipamentos sociais (mais um termo glamoroso) ao uso por parte das crianças, é suposto que estejam habitualmente colocados em zonas de sombra que as protejam do nosso generoso sol, certo? Errado. Dos que conheço, é raro que estejam em parques onde existam árvores (dois ou três exemplares para enfeitar não contam) e, mesmo assim, são localizados de forma a que a chapada de sol lhes bata todo o dia.

Face à dizimação do pouco verde que sobra nas cidades, tenho a dizer-vos que este poder local é um eucalipto: seca tudo à sua volta.

Comments

  1. A pergunta que se impõe: as árvores dão rendimento ou votos?
    A resposta óbvia: não.

    Portanto, actue-se em conformidade.

  2. Konigvs says:

    Eu vi esse notícia na televisão. A Quercus também já estava metida ao barulho e quer ver a situação muito bem esclarecida e se for o caso vai para tribunal. Uma senhora da câmara explicava que o plano de abate das árvores já estava há muito planeado porque, dizia ela, as árvores estavam infetadas com uma doença qualquer, coisa que para as pessoas que estavam a protestar não era evidente.
    Uma coisa é certa, por todo o país assiste-se a verdadeiros atentados às árvores, muitas delas protegidas por lei. Nas cidades procede-se a podas completamente assassinas, e depois quando há árvores ou palmeiras em risco de cair ninguém faz nada e espera-se que os primeiros ventos as tombem caindo por cima de carros ou pessoas como aconteceu na Madeira em que morreu uma senhora. Depois “as causas naturais” têm as costas muito largas – como aqui perto, em Castelo de Paiva que morreram quase sessenta pessoas, e no mesmo dia que a ponte caiu, algumas pessoas iam ser julgadas em tribunal por manifestações de protesto face ao estado de degradação da ponte. Irónico não é?
    Os maus exemplos estão por todo o lado, basta um olhar mais atento, mas vejam só o que se passou este ano no Buçaco: http://aeiou.visao.pt/bucaco-a-saque=f587673
    Ghandi disse que podemos analisar um povo pela forma como trata os animais, eu estou em crer, que povo que não tem sensibilidade para proteger o seu bem mais precioso que são as suas árvores e a sua floresta, é um povo muito pobre.

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