Os demónios de Alcácer-Quibir

Rodrigo Moita de Deus queixa-se porque “nos últimos cem anos a república faliu quatro ou cinco vezes o país“. Não vou contar quantas vezes a monarquia o tinha falido antes que as falências ocorrem em qualquer regime e a da última década do séc. XIX até deu muito jeito aos republicanos. Já levar Portugal à perda da independência foi até hoje exclusivo da monarquia, primeiro com os casamentos que procuravam a união dinástica, iniciados ainda no séc. XV, e tendo como corolário um tolinho, vítima de tanta consanguínidade, que foi brincar às guerras para Alcácer-Quibir. Em 1580 o mouro é que jogava em casa e levámos uma abada.

Comments

  1. Pena é que quando se fala em Alcácer Qibir, nunca se lembre La Lys. Inconsequência por inconsequência, a segunda devida ter sido evitada, conhecida a primeira.

    • Muito folgo em que tenhas a sensatez de tal entendimento Nuno. Como sabes quem se opôs à participação de Portugal na Grande Guerra foram sobretudo os anarquistas. No envio de carne para canhão bem se uniram monárquicos e republicanos…

  2. Nightwish says:

    Isso de perda da independência tem muito que se lhe diga depois da entrada na CEE e, acima de tudo, no euro…

  3. Os monárquicos não negam e não contestam – eu não nego e não contesto – que, antes de Outubro de 1910, se verificaram falências e outras incompetências. Porém, é importante recordar que os republicanos chegaram ao poder também com a promessa de que tais crises iriam acabar… mas não só não acabaram como continuaram e se agravaram. E, infelizmente, não foi só no plano económico que a situação piorou: até ao 25 de Abril vigorou a institucionalização da violência, da repressão, da ausência de liberdade de expressão – males que não existiam na Monarquia Constitucional.

    E, precisamente, é uma demonstração de desonestidade intelectual ir buscar e misturar com o reino democrático de Portugal do século XIX (aceitável para os padrões da época) os reinados absolutistas de séculos anteriores – que, no entanto, e deve-se salientar sempre, proporcionaram a Portugal todas as conquistas de que hoje nos orgulhamos e que (ainda) constituem o suporte da nossa identidade. A política de casamentos conduziu algumas vezes ao risco de perda de independência? Sim, mas também poderia ter acontecido o oposto: com D. João II não estivemos longe de unificar a península a partir de Lisboa (a morte precoce do filho dele impediu isso).

    • Essa de “unificar a península a partir de Lisboa”, conhecendo o castelhanismo dominante na nobreza portuguesa é no mínimo discutível, mas não quero entrar em discussões tipo a história se.
      Quanto ao resto, promessas todos fazem. E sim, misturo o séc. XVI com o séc. XX não a propósito de democracia, o que não fiz, mas com relevo para o que falamos: monarquia, regime político onde um doente mental pode chegar a supremo governante por mera hereditariedade, pondo em causa não só a governação mas a própria independência.
      E quando falo em doentes nem penso tanto no Sebastião, que o era, mas muito mais em Afonso VI, que acaba a vida de forma miserável não passando de uma vítima do seu próprio nascimento, ou de Pedro I, personagem no mínimo invulgar mesmo para os padrões medievais. É por isso que sou republicano.

      • xico says:

        Ser republicano com base no facto de o rei poder ser um tolo, é um disparate e mesmo o senhor o reconhecerá. Sabe melhor que eu que os reis são e foram escrutinados, e afastados sempre que foi necessário. Sebastião foi um azar, como azar podemos ter com um presidente eleito. Sabe melhor que ninguém o que pode a propaganda eleitoral. Tivemos um exemplo disso no EUA. É claro que depois as instituições funcionam. Mas nas monarquias modernas acontece o mesmo. Afonso VI foi afastado por manifesta incapacidade, mas teve um grande ministro que efectivamente governou, e bem!

  4. Embora aliciante e bastante tentador, reconheça-se sem qualquer tipo de pejo ou ironia, não será muito produtivo olhar o pretérito com anacrónicos olhos de presente. Em finais do século XVI não perdemos a independência verdadeiramente. Essa é uma retórica anterior, em certa medida, mas sobretudo e muito claramente exacerbada pelo nacionalismo proto-republicano, aí pelo crepúsculo oitocentista.
    Não me pronuncio sobre monarquia e ou república, mas sobre precisão conceptual.

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