Eu, professor emigrado no Rio, virei balconista de boteco

Desempregado de longa duração, de professor de História sem colocação, passei a aluno. Ao abrigo de IEFP fiz diversos cursos, em especial na área de Informática. Estudei sistemas operativos, redes e programação. Sempre elogiado e classificado pelos formadores como dos melhores. Emprego? Nada!

Um ano, dois anos, dois anos e meio, a viver de esmolas de pais e sogros, cansei-me da vida de pedinte. Deixei a Ana e o casal de filhos, Paulo e Sofia, e fiz-me ao caminho: EMIGREI!

Cheguei ao Rio de Janeiro às 7h45 de 1 de Setembro de 2009. Optimista, iluminado por manhã carioca solarenga. Tomei um táxi para a Gávea. Bairro fino, da classe média alta, onde residia o tio-avô do meu pai, Joaquim Francisco de sua graça.

Com mil reais no bolso, disse-lhe ao que vinha. Licenciado e professor de História, sem colocação em Portugal, tinha decidido emigrar para o Brasil. Tanto poderia dedicar-me à docência, como a outra actividade, acentuei. Referi os meus conhecimentos e atributos informáticos. O tio Joaquim, de sotaque bem abrasileirado, disse-me: “Vou ver o que posso fazê por você, mas sabe que não é fácil, não; o Brasiu está necessitando de tudo menos de professô, aí presidentje Lula garante que estamos na maió!”.

Bem! Isto começa mal, disse de mim para mim. Más lá permaneci num anexo da casa, a dormir sobre uma tira pouco espessa de espuma, sob lençol esfarrapado. Chamavam-lhe colchão. De manhã, ia no banheiro, me barbeava, me lavava no chuveiro e, após o café-da-manhã, lá partia à procura de trabalho.

Dias a fio, bati rua, bati avenida, bati estrada, comi até o pó do caminho, mas sem sucesso. Comia em lanchonetes, do mais baratinho, para evitar diminuir a poupança. Ao oitavo dia, regressado a casa do tio Joaquim, este anunciou-me: “Sabe meu filho, é impossível conseguir algo para você. Falei com as senhoras de voluntariado da assistência sociau e elas arrumaram uma habitação para você, no princípio do morro da Rocinha. Terá alimentação gratuita e esquentada todos os dias e a minha fé no Criadô mi diz que o a sua colocação virá dipois, divina e automaticamentje”.

Ouvi e, a sorrir, a minha alma chorou. Ao outro dia, lá fui ter com as senhoras e conhecer o quarto no barraco da Rocinha. Mudei-me. Ao lado, morava uma cabrocha quarentona, D. Neide, bem humorada e de bunda abundante, mãe-solteira de 4 filhos. O mais velho tinha 14 anos e já fumava maconha. Três sofriam de tuberculose.

As senhoras do serviço social lá diligenciaram para que a D. Neide me lavasse a roupa. Ainda hoje o faz, sem ponta da contrariedade do seu Joriceu, assim chamado  – explicou-me – porque a mãe era Jorema e o pai Dirceu.

Passaram dias sobre dias e eu, sem trabalho, só gastando. Pouco, mas gastando. Uma despesa regular era com os chopes bebidos com Joriceu. Agora, digo foi um investimento certeiro. Direitinho. Joriceu acabou por me recomendar ao Sr. Martins, dono de um boteco na Lapa. centro da boémia carioca. O Sr. Martins, era um transmontano a viver há mais de 40 anos no Rio, e preferia sempre empregados portugueses. Fui substituir um tal Mané, entretanto falecido.

O emprego dá para o barraco e comer. Tive de resignar-me com esta sorte em terras do Brasil. De professor, virei balconista de boteco e arranjei uma nega chamada Teresa. Sim, porque a Ana e os meus filhos esqueceram de dar notícias de volta.

Com três anos de antecedência, posso regozijar-me de ter tido a visão da expansão da diáspora portuguesa do actual governo de Portugal, do Dr. Passos Coelho. EMIGREI! Sou balconista de boteco carioca, licenciado em História. “Pra Portugau, não vou voltá mais, não; e quando eu morrê m’enterrem na Lapinha!”.

Comments

  1. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Será que independentemente da sátira, este magnífico texto nos permite perceber a qualidade da língua portuguesa (pelo menos escrita-cuja fonia os brasileiros nem entendem) a par da interessante lingua escrita no brasiu e perfeitamente consolidada (que os portugueses entendem muito bem excepto certos termos reionais e de origem não portuguesa), com a adesão da ficção do acordo ortográfico, e se calhar sintático, vamos ter a grande salada, e tal que em vez de uma se perderão duas línguas ??? Tanta gente tão inteligente até xateia nesta de acordos tão discordantes e, para mim, mesmo inexplicáveis, a menos que os meus neurónios estejam em curto circuito
    Santo Natal para todos os que falam e escrevem de outro modo-Vamos mas é aprender a falar xinês antes que tenhamos mesmo de perceber, ou tentar, o que parece que vem por aí, antes que aconteça o que está “acontecendo” pelo menos nos portos de Angola – e construção civil que desmantelou sem regresso a imagem e paisagem da Ilha restinda e da frente da baía de Luanda – que os xinas invadiram em massa e de que tomaram conta para já, pelo menos, sem nada se perceber do que poderá suceder para o longo prazo – quem não viu, que veja reportagem de TV sobre a invasão xinesa em Angola – Santo Natal para todosacordem ou não com o Acordo com que eu não Concordo nem a brincar

  2. Josias Oliveira says:

    Sem margem para duvidar das qualificações deste nobre companheiro, fico “imaginando” o quanto devem ter sofrido os milhões de imigrantes portugueses que trilharam pelo mesmo caminho, mas apenas com a fé e coragem, …
    Ninguem merece,
    Reage Lulu, reage….

  3. Beirão says:

    Num país onde as velhas escolas inndustriais e comerciais dos tais tempos do “faxismo” (como diz o vivaço do dr. Soares), donde saiam todos os anos profissionais altamente qualificados e com emprego garantido, foram simplesmente deitadas ao lixo pela esquerdalhada mentecapta,do ’25/A’, querem agora os senhores doutores da mula ruça (muitos deles pouco mais que analfabetos funcionais) empregozinho garantido pelo Estado, é? Para dezenas e dezenas de milhares que andam por aí a encanar a perna à rã, em vez de irem tratar da vida, cá dentro ou lá fora, onde calhe, que os empregozinhos para toda a vida, muitas vezes sem neles se fazer a ponta d’um corno, foi chão que já deu uvas…

    • Carlos Fonseca says:

      Caro Beirão,
      Talvez para para sua desilusão, saiba que fui aluno da Escola Comercial Patrício Prazeres (Lisboa). Depois de terminar o ‘curso comercial’, transitei para o ensino liceal, onde pela lei fascista, como estudante-trabalhador e depois dos 18 anos, fiz o 7,.º ano liceal, em duas etapas, no Liceu Gil Vicente e no Liceu Camões, em Lisboa. A seguir, como aluno da alínea g), fiz o exame de admissão a ‘Económicas’. Tudo sempre a trabalhar e com exames iguais aos meninos de dia. Foi a minha vida que assim o determinou e não guardo resssentimentos.
      Não sou, nunca fui, professor do ensino scundário. Dei aulas na UCP, a universitários.
      Sempre admiti e tive de gramar fascistas – que remédio! – mas a minha visão da vida é outra. Quando não se consegue ultrapassar os domínios da leitura literal, corre-se o risco de asneirar. Por vezes, até em tom fascista. Será o seu caso ou não vê, não ouve ou não percebe o que se passa à sua volta?

      • Tiro ao Alvo says:

        Não há duas sem três, diz o povo. Portanto, aqui vai a terceira edição do meu comentário para o amigo, pala terceira vez, apagar:
        “Boa, brasileiro! Eu também sou dos que subiram na vida a pulso, mas não fiquei vesgo, nem ressabiado, como se adivinha que o amigo ficou. E digo isto, sem necessidade de ler nas entrelinhas do que escreve, como se vê quando classificou como “leis fascistas” as leis que obrigavam os estudantes-trabalhadores – eu também fui um -, a fazerem exames como os “meninos (?) de dia”, como depreciativamente se referiu aos alunos do ensino regular. Sendo certo que não era bem assim, custa-me a aceitar que um economista ande por aqui a brincar com coisas sérias, parecendo acreditar que o dinheiro se pode fazer do nada, a chamar fascistas a quem o contraria, a dizer que tem outra “visão da vida”, mas, adivinha-se, a aproveitar bem todas as benesses que esta lhe pode dar, quem sabe se não a comer o suor dos outros.”


  4. O texto pareceu-me muito divertido e penso tratar-se de uma ficçao. Definitivamente nao creio que um professor de história nao encontre um trabalho melhor que o de balconista de boteco no Brasil… a menos que esteja residindo ilegalmente no país!! Parece-me um pouco raro devido as várias oportunidades de trabalho que atualmente há no país. E em relaçao ao português descrito aqui, suponho que será o falado por uma classe social muito humilde, pois sou brasileiro e tanto eu como os meus amigos nao falamos e tampouco escrevemos “brasiu” e outras coisas parecidas. Além disso, nas diferentes zonas de Portugal, como é normal, também há muita gente que nao fala ou escreve o português culto; motivo pelo qual nao gostei da generalizaçao em relaçao aos brasileiros. As generalizaçoes nao costumam ser positivas.

    • Carlos Fonseca says:

      Caro Alexandre,
      Claro que é uma ficção. Conheço bem o Brasil. “Brasiu” é um termo que potugueses usam para referir o seu País.Não tem nada de pejorativo. É idêntico a muitos outros ícones da linguagem com que brasileiros se referem a Portugal. Não passa disso. A generalização não é colectiva em termos do povo brasileiro, mas fundamentalmente os ‘cariocas’. Toma aí o aço, meu caro.
      Um abraço

      • Alexandro Lyra says:

        Pois agradeço-te pela explicaçao. O meu comentário surgiu à raíz de outros anteriores que podem conduzir à generalizaçao colectiva…

        Opino que independente dos regionalismos e diferenças que há entre os difrentes países lusoparlantes, e eu até me atrevería a incluir o galego (já que é básicamente a lingua mater), é inquestionável que possuímos um dos idiomas mais falados e de grande riqueza literária e cultural.

        Saudaçoes desde a Espanha!

  5. Drapetomaniaco says:

    Porra de texto nazista. Vão todos tomarem no cú seus porcos colonialistas de merda. Nenhum de vocês é cochecem o Brasil. E claro que com as universidade deterioradas de vocês professor de história aqui vai fazer o que todo portugues faz quando vem ao país. Trabalhar em padaria.

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  1. […] escrevi este ‘post’, ignorava em absoluto o que seria a 1.ª página do ‘Expresso’, publicada horas […]


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