Cavaco, Passos e Gaspar – a diversão de mau gosto

A imprensa portuguesa, infelizmente de forma generalizada, está a lançar na opinião pública uma polémica infundada, centrada à volta de virtuais problemas de relacionamento entre Cavaco Silva e o governo de Passos Coelho. Vítor Gaspar personifica as  divergências – Belém apressou-se a desmentir  desentendimentos.

O que está em causa, e a agenda da cimeira europeia de hoje é prova inequívoca, é entender-se de uma vez por todas que o modelo de austeridade adoptado, sob a batuta da ‘troika’, com FMI à cabeça e o governo a dilatá-lo, além de não resolver a crise do país, é factor de agravamento.

As medidas em aplicação, e de que o monetarista Gaspar é ortodoxo defensor, levaram-nos e levam-nos a resultados como aqueles abaixo enunciados:

1. Consumo Público caiu 3,2% em 2011, estimando a CE que, em 2012, a quebra será de 6,2%;

2. O Consumo Privado em 2012 descerá 5,9%, segundo previsão igualmente da CE.

As exportações, por muito que o governo declare o inverso, não compensarão estas reduções da actividade económica interna. Grande número de lojas, indústrias, fornecedores de serviços e o próprio Estado estão a registar quebras de receitas.

Da austeridade, não se espere resultado diferente do agravamento da crise. O crescimento económico e do emprego, aflorados agora à pressa e sem determinação na cimeira europeia, constitui um caminho que, em boa verdade, não consta do roteiro dos líderes europeus com poder de decisão (dispenso-me de citar nomes).

(Notícias de hoje: o Índice PS-20 caiu 2,45%, os juros da dívida soberana subiram e Financial Times sugere que a UE pondera já um segundo pacote de ajuda a Portugal – Tudo boas novidades. Continuemos em austeridade!).

Comments

  1. Zé Povinho says:

    O retrato da Grécia parece que ninguém quer ver, mas é o nosso apenas com alguns meses de diferença.
    Abraço do Zé

  2. eyelash says:

    Um texto que vale por todos os telejornais: preciso e conciso, com a verdade nua e crua. Parabéns!


  3. Também acho… Afundar o mercado interno é “lixar” a vida a muita gente. Patrões e empregados a caminho de não o ser… O crescimento das exportações vem dum outro tempo e também poderão abrandar… Esperemos que não!…

  4. José Galhoz says:

    Quanto às “discordâncias” PR-Governo, o PR finge que discorda e o governo finge-se incomodado. Dados os factos que transparecem (não os boatos), quem poderá pensar que é de outra forma? Quanto à agenda europeia, também nada varia, apesar das aparências que se tenta impingir – a receita de “ganhar capacidade para pagar aos credores através do empobrecimento” daria para rir se as consequências não fossem trágicas. A questão é que o “nosso” 1º e acólitos parecem acreditar mesmo em tal receita – o facto de muitos outros dirigentes europeus seguirem a mesma linha só prova que as elites políticas estão dominadas por loucos e mentecaptos (ou será antes cobardia colectiva?).

  5. ainda penso says:

    Aposto nas duas hipóteses e ainda lhe acrescento, um bando de incompetentes e oportunistas


  6. Este filme dos programas de austeridade («ajustamento estrutural», diziam eles) começou a ser exibido há quase uns 30 anos em muitas dezenas países do »terceiro mundo». Sempre com um grande «sucesso de bilheteira»… Os figurantes do filme (leia-se os povos…) é que NUNCA (mas nunca) viram qualquer sucesso. É que não há um único «caso de sucesso»… Nem sequer a «excepção que confirma a regra».
    Agora, com um novo cenário (a onda da «austeridade» chegou às praias da Europa) lá andam os produtores e realizadores do filme a ver se o desenlace é diferente.

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