A canção de Ana

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Parece-me não conhecer homem nenhum que não tenha uma fada madrinha. Fada madrinha milagreira, que toma conta de nós nos piores minutos da nossa vida, trata de nós e tem a forma de uma fada, apesar de não encantar porque sim, mas por excelentes motivos.

No meu caso, ando sempre a choramingar e cheio de tristeza. A minha fada toma conta de mim, nos minutos mais tristes da vida. Minutos que duram uma eternidade, mas que com o seu encanto, é capaz de converter essa tristeza em paz. Fadas que não se vem no meio das multidões, mas um dia qualquer confiamos em elas sem saber como e porque.

Toda fada tem uma canção. A minha tem a música que, diz os mitos, cantava a avó de Jesus, chamada Ana, ao seu neto em bebé: dorme-te menino, dorme-te por deus, dorme-te pedaço, do meu coração

É sabido que não sou homem de fé, mas falando de fadas que nos amadrinham, o nosso saber e a nossa crença desparecem, substituída pelo encantamento da fada. Não há dia, é que não há dia, em que no fale com ela de manhã cedo para me queixar de uma ou outra tristeza, reais ou inventadas pela soidão da vida. Uma voz que canta ao falar, confere o sortilégio que levanta o espírito.

Habituado tenho estado, ao longo de 51 anos, a estar ladeado de estudantes que querem saber mais, obter mais, especialmente altos valores nos seus estudos. Esta a minha fada nunca ouvi solicitar nada para ela, mas sim sempre  arriscar-se pelos outros. A fada revela-se ou sabemos dela, porque nada pede nem solícita, cansada a seguir um dia de trabalho pesado, assistia as aulas se queixar, ainda vivendo uma vida martirizada por acontecimentos injustos entre colegas ou não lar. Cansada podia estar mas dessa fraqueza aparecia a terra de nunca.

Mal sabia e sei a língua portuguesa. A sua colaboração comigo, convertera essa ignorância, com paciência e respeito em saber acumulado para escrita. Sem a minha fada madrinha, era incapaz, era-me impossível colocar acentos que fecham vogais e os que as abrem. Não exibia esse saber, com discrição os corregia. Nunca a ouvi falar de sarilhos que magoam.

Um dia qualquer de 1999 tinha este problema: dar uma aula as 18 horas – éramos fãs de estudantes trabalhadores, bem como proferir uma conferência no Alentejo no dia seguinte. Entusiasmado pelas aulas, ia esquecendo que devia cruzar Lisboa para o autocarro que conduzir-me- ia a vila da conversa. Com delicadeza, voo aos meus ouvidos, lembrou-me do compromisso e consegui com calma por o ponto final a minha bem-querida perorada de palavras, e no dia a seguir, já descansado e fresco, consegui falar

As fadas madrinhas tomam conta de nós, dão-nos ânimo e paz e permitem paz e calma. A canção de Ana, doce e companheira, é manter a alegria da vida. A  sua frase preferida, que me tem ensinado imenso a trilhar os caminhos da uma vida azarada, como tem sido a minha. E certeza este texto ser-me-á devolvido para fixar os detalhes de má escrita…Se assim não for ou fosse – qual é o verbo correto?-. Apenas ela sabe e dir-me-á. Com doçura e firmeza.

Finalmente, a canção de Ana é chamar a minha atenção e corrigir os erros da minha vida, tantos, que paciência tem muita, para me ensinar a ser um bom português. Dai essa canção mencionada antes: viver não custa, o que custa é saber aprender a viver…

A canção de Ana….colada no meu sentir e pensar…, nos meus pensamentos e emoções:  na minha vida…, vá

Raúl Iturra

20 de Dezembro de 2011

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