A TOBIS foi Vendida

Foi Oitenta Anos Portuguesa, Agora é Angolana
Foi criada em 1932 para fomentar o Cinema Português. De uma maneira ou de outra, conseguiu os seus intentos. Agora, cheia de dificuldades financeiras, com toda a gente a lutar dentro da empresa, foi posta à venda e comprada, não por empresas Portuguesas (não as há com capital para comprar seja o que for), não por empresas Europeias (não há nenhuma que acredite em nós), não por empresas Chinesas (para já estão ainda a digerir a EDP), mas, desta vez, por uma empresa Angolana (para irem somando empresas ex-Portuguesas, em competição com a China).
A venda da Tobis é quase um crime de “lesa-magestade” com o património fílmico e imobiliário a permanecer nas mãos do Estado Português, garantia de um responsável, uma garantia que vale o que vale, não tivesse também garantido que foram salvaguardados os direitos dos trabalhadores, quando o acordo prevê o despedimento de metade deles.
Enfim, estamos a preço de saldo, nós todos, e não parece haver quem nos acuda.

José Afonso: A busca da utopia


A 28 de Fevereiro de 1987, 5 dias depois da morte de José Afonso, José A. Salvador publica uma longa biografia do cantor no «Expresso». Aqui fica:

«Mandei-lhes um telegrama. Podes pôr isso lá no jornal?»
Olhei José Afonso ainda surpreso pelas suas palavras ciciadas quando o visitei em finais de Junho de 1986. A doença avançava a olhos vistos e fitei-o de novo sem perceber totalmente o alcance da sua pergunta.
Instantes depois tudo se esclarecia: o cantor desejava publicitar que enviara ao Presidente da Guiné-Bissau Nino Vieira um telegrama de apoio para que não fossem fuzilados os seis condenados à morte envolvidos no caso Paulo Correia. Ao tomar esta atitude, José Afonso invocou razões de humanidade e as tradições humanísticas do PAIGC fundado por Amilcar Cabral.
Mesmo aqui, na aparente dissonância em relação ao Partido no poder em Bissau, José Afonso não questionava o processo político guineense nem o apoio que mantinha em relação a todos os movimentos de libertação africanos das ex-colónias portuguesas.
De resto, a realidade colonial que conheceu de perto, sobretudo em Moçambique, foi marcante na sua formação política e até na sua música.
Sempre de costas para o poder, apenas se lhe reconhecem dois períodos, ou situações, em que lhe concedeu o seu apoio: [Read more…]

Concurso de professores e as prioridades – público e privado

Começar um texto com duas ligações externas vai contra todas as regras, mas o fundamental é a discussão e essa surge depois destas duas sugestões:

– no pé-ante-pé podemos encontrar um excelente trabalho de comparação entre a legislação em vigor e a proposta do MEC;

– no Educar a Educação podemos ver um esquema que mostra uma possível consequência da proposta do MEC.

E ainda antes de ir ao ponto quente da discussão virtual entre os docentes, importa colocar as coisas no tom certo:

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As Escolas não necessitam de gestores

Já antes escrevemos no Aventar sobre a temática da Gestão em contexto escolar procurando equacionar, à luz da negociação em curso, o que poderia ser a autonomia da gestão escolar.

Mas, esta temática é geradora de grandes confusões porque os ignorantes pensam que a escola pode ser vista como uma empresa e gerida como tal.

Para economia de tempo, vamos assumir como possível tal barbaridade.

O que há para ser gerido na Escola?

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Gastão era perfeito

Também em memória da Adelina, que nos vendia às escondidas este e tantos outros discos. Quem passou por Coimbra sabe de quem estou a falar.

É a minha favorita, hoje que também é dia de cada um falar da sua. Não me perguntem porquê, quando me apaixono por um poema, uma música, uma canção ou uma mulher nascem mistérios que prefiro nem desvendar.  Aqui só falta a mulher mas sobra a velha tradição da cantiga de escárnio e maldizer, superiormente reinventada.

Faz parte do Venham Mais Cinco, em termos de sonoridade e  maravilhamento poético o mais elaborado dos trabalhos do Zeca, com um respirar que logo a seguir seria impossível, tanto ao Zeca como ao José Mário Branco, o senhor que em português inventou a palavra produção.

Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sonolências afeito
Às picadas dos mosquitos [Read more…]

Desempregado, uma carreira de futuro

Desempregados vão ter gestor de carreira

Mais uma vez, Álvaro Santos Pereira maravilha o mundo com outra brilhante descoberta. Tendo em conta que o número de desempregados está a aumentar em Portugal, torna-se claro que ser desempregado é uma das carreiras com mais futuro. Daí à ideia de criar a figura de gestor de carreira para desempregados foi um pequeno passo para o Álvaro e um grande salto para os portugueses.

Assim, antes de mais, será importante criar cartões de visita com a indicação da condição de desempregado, o que causará sensação nas festas e beberetes frequentados pelos que optaram por esta promissora carreira.

Os gestores de desempregados aconselharão os seus clientes acerca do melhor modo de desempenhar a sua inactividade. Assim, será importante que o desempregado acorde o mais tarde possível, de modo a que possa prescindir do almoço. O gestor de desempregados poderá, ainda, ensinar aos seus pupilos técnicas de relaxamento que lhes permitam transformar o oxigénio em nutrientes, desde que fiquem muito quietos o dia todo.

Entretanto, há uma grande movimentação na oferta de alternativas ao desemprego e está prevista a criação de cursos profissionais de ladrão, em que os discentes poderão frequentar disciplinas como TGV (Técnicas de Garrote e Vandalismo), CCB (Crimes de Colarinho Branco) e MAMA (Métodos de Ataque à Mão Armada).

Tristezas não pagam dívidas.

Não deixa de ser curioso que, em tempo de crise, a principal discussão das últimas semana tenha sido sobre o Carnaval. O país nunca deixou de rir, mesmo quando o mais natural fosse estar a chorar. Portugal é um imenso alfobre de piadas, humoristas e artistas circenses. Os políticos são malabaristas, o cidadão aquele Zé Povinho boçal, anafado, risonho e borracho. De resto, um país que se identifica com tamanha criatura, que ri de tudo, mesmo quando está prestes a perder a casa, a perder o emprego e a ficar sem comer, só pode ser um povo escolhido. Ele não precisa de quem o guie, abomina os políticos e os governantes, mas adora assistir às manigâncias deles, entre uma talhada de melancia e um copo de vinho verde.
Na Grécia está tudo a ferro e fogo, lá onde a comédia foi inventada e vive lado a lado com a tragédia. Cá, os homens vestem-se de mulheres e mangam do primeiro-ministro, que lhes tirou o feriado. Um feriado de e para brincar. É assim este quadro, que de tão ridículo chega a ser grandioso. Às vezes aparece alguém a dizer-se o novo D. Sebastião (Afonso Costa, Salazar, Mário Soares, Cavaco Silva…), mas não é preciso. Em 500 anos a coisa até tem corrido bem, dadas as circunstâncias. É uma gestão curiosa que nunca resultará em tumultos: os políticos e as elites roubam as duas fatias maiores do bolo, o povo – conquanto o político não se roube mais de dois terços anui – e reparte entre si a última fatia. É um roubo absolutamente democrático e consentido: uma mão lava a outra e as duas lavam as dos outros.
A coisa nunca resultará como na Grécia, em incêndios, feridos e ódio. Quando muito, por cá, mataremos um ou outro político à gargalhada, com matrafonas, gigantones e carros alegóricos. As nossas pistolas são bisnagas com água.

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