(Foto: Paulo Vene)
Continuamos chocados com a morte de tantos idosos sós que veio a conhecer-se nas últimas semanas.
Só no ano passado, foram 44 os cadáveres que ficaram nas morgues sem que ninguém os reclamasse.
No dia 5 de Fevereiro, na capa do PÚBLICO, apresentava-se uma reportagem sobre este tema da seguinte maneira: «Idosos que nada fizeram para não morrer sós» (li várias vezes esta frase…copiei bem).
Foram muito infelizes as palavras utilizadas pela edição do Público. Parecem-me muito pouco «jornalísticas».
A reportagem procurou dar a conhecer a história do homem com 92 anos que morreu sozinho em Miragaia (Porto) e a história das duas irmãs de 74 e 80 anos da freguesia das Mercês (Bairro Alto, Lisboa).
As jornalistas perguntam “O que significa conhecer alguém? ” (uma boa questão).
Vou apenas referir-me à história das duas mulheres lisboetas. Uma história contada pela senhora da pastelaria – que sabia que uma delas gostava de salgados de chourição; pelo senhor da oficina de automóveis que comentou que as irmãs comiam uma pizza em saldo todas as quartas-feiras; pelos vizinhos que as viram crescer; pela costureira; pela secretária da junta de freguesia; e pela funcionária do centro de saúde. Todos juntos relataram um pouquinho da vida daquelas mulheres que aparentemente não tinham família.
As jornalistas que não conheciam os factos ( tanto como esta gente), julgaram, rotularam e sentenciaram as irmãs e o velho António: “nada fizeram para não morrer sós”. «Nada fizeram»?
Estes casos fazem-nos pensar. Esta frase que critico e não compreendo vinda de jornalistas, levou-me a colocar as coisas de outra maneira: o que fizeram estas pessoas que eram, afinal, a única « família » destes idosos? Não fez a Manuela, a Maria Jesus e o António parte do quotidiano de quem contou pedaços da sua história? (Não quero criticá-los, mas não podemos dizer «eles não fizeram nada para serem queridos ou aceites pelos outros»).
O que faz a sociedade e o Estado para evitar este tipo de situação? O que faz cada um de nós? A pergunta, penso eu, também tem que ser feita neste sentido. Mais neste que no outro…
Viver só pode ser uma opção, mas escolhe-se morrer só? Acho muito difícil.
E fico a pensar numa coisa mais: a vida de Manuela, da irmã e de António parece que nunca interessou a ninguém, porém, a sua morte deu que falar, pensar e originou uma reportagem, notícia de primeira página de jornal!?…








morrem 300 portugueses por dia e 3 por dia aqui no hospital
dos 1000 e poucos que morrem por ano ou são trazidos já mortos 90% estão acima dos 50 anos e morrem todos sozinhos ou chegam mortos com pouco acompanhamento
se só ficaram 44 sem que ninguém os reclamasse num ano é pouco
em 81-83 iam a enterrar só em 3 municípios 120 a 150 cadáveres não reclamados por ano
e morriam mais cedo…
em 2005 ou 6 morreu um comido pós-mortem pelos ratos num 1º andar em frente à misericórdia de Lisboa
gerações de natalidade reduzida e emigração…produziram 15% de velhos solteiros e viúvos sem filhos em 2 milhões
dá 30.000 com uma mortalidade de 10/1000 para a população em geral
dá pelo menos 300 velhos com poucos laços familiares a morrerrem ao ano
não são os outros velhos que os vão carpir
e esperar empatia de filhos de primos ou de sobrinhos ocasionais é não perceber muito da natureza humana…
criar laços com quem cheira a mijo e não se lava é extremamente difícil
Boa reflexão.
A solidão na morte é o prolongamento da solidão em vida. E, na maioria dos casos, ser solitário é uma fatalidade. Poucas vezes é opção. As sociedades europeias, envelhecidas, são mais marcadas por um folclore comunitário, a propalada sociedade civil, de conteúdo hipócrita e escassamente solidário.
Ao que me parece, a frase foi infeliz, pois o que se pretenderia dizer talvez fosse…idosos que nada de mal fizeram para morrer sós.