PSA Mangualde: mais 450 para o olho da rua!

penia e porosPenia, Poros e Eros

Na mitologia grega, Penia é a personificação da pobreza. Uniu-se a Poros, a esperteza, no Banquete platónico, tendo, dessa união, nascido Eros, deus do amor. Esta é uma das versões da origem de Eros. Existem outras.

A trilogia da penúria, da esperteza e da felicidade simbolizam a preceito o actual momento político do País. A penúria do empobrecimento como objectivo apologético governamental, a esperteza, reles e grosseira, usada a eito pelo governo de Coelho e Portas; e finalmente, o paraíso como capciosa visão do PM e Vítor Gaspar, entoada em baladas e balelas do ‘ponto de viragem’.

Em relação à concepção da política da pobreza e a sua inevitabilidade, já há muito que a contestação transbordou para o interior de círculos próximos dos partidos do governo.  Bagão Félix, de resto na continuidade de críticas anteriores, discorda da ideia fatalista de que o País tem de empobrecer. Concordo. Rogo-lhe que, entretanto, o transmita ao seu amigo Paulo Portas. Sempre seria um serviço aos portugueses, embora desconfie do sucesso da iniciativa.

As multinacionais servem as crueldades à 6.ª feira

Na senda da liberalização das leis laborais, e conquanto o governo ainda não tenha finalizado o processo de agravamento decorrente do famigerado ‘acordo de concertação social’, a PSA Mangualde anuncia o despedimento 450 trabalhadores.

O “timing” de anunciar a medida é escrupulosamente escolhido, uma 6.ª feira. É uma velha táctica das multinacionais, replicada, diga-se, por empresas nacionais. O último dia de semana laboral é o tempo privilegiado para despedir. Minimizam-se perturbações internas e os trabalhadores, com o fim-de-semana manchado, que afoguem as mágoas entre família e amigos. Com uns copos à mistura, se necessário.

Alega a PSA Mangualde que as vendas de viaturas estão em queda. Acredito. Estão em queda e assim vão continuar, acrescento. Operando em conjugação com fábricas do grupo em Vigo, igualmente alvo de despedimentos, à PSA de Mangualde e a muitas outras empresas é vedado alimentar expectativas de que  os mercados de Espanha e Portugal, em crise económica e com mais de 6 milhões de desempregados, permitam ou potenciem o desenvolvimento de negócios.

É, de facto, nesta complexa trama em que a Europa está enclausurada. Especialmente, e por ora, a do Sul. Até quando? Não há previsões. Com a maioria dos políticos actuais, de fraquíssima qualidade ou mal-intencionados, o cenário de melhoria é uma miragem.

Comments

  1. José Galhoz says:

    Com as medidas recessivas como tónica da política na zona Euro não há, de facto, nada mais à vista do que o agravamento dos problemas. Mesmo os países promotores desta política já começaram a sentir os seus efeitos, não ainda com recessão mas já com crescimentos muito abaixo do esperado; aliás, não se percebe como esperavam compensar, de um ano para o outro, com um Euro sobrevalorizado, as importantes exportações que faziam para os países onde agora promovem a recessão… Não se esperando mais nada dos actuais dirigentes políticos, também não se percebe o papel dos patrões das indústrias. Será que já não contam perante os interesses dominantes do capital financeiro? Esperam vir a beneficiar da maior exploração do factor trabalho (para depois venderem a quem)?


  2. Caro José Galhoz,
    O problema está justamente ai: o ‘sistema financeiro desregulado’, de há 30 anos a esta parte, iniciou o derrube e agora domina o ‘sistema económico’, naturalmente o único gerador de riqueza e essencial à distribuição de rendimentos. Com o adensar da crise e a explosão do número de atingidos, será muito complexo a Europa cumprir um processo de recuperação rápido. Já considero que 5 anos seria um intervalo de tempo curto, se iniciadas de imediato as políticas e medidas necessárias. Infelizmente, não vai suceder.


  3. 300 ou 350 do 3º turno contratado por sócrates até às eleições…

    que tenham aguentado mais 7 meses é milagre


  4. “O “timing” de anunciar a medida é escrupulosamente escolhido, uma 6.ª feira.”

    É só sobre isto que opino. A sexta-feira é também, para quem sobrevive (sinceramente sobre este caso não faço ideia se alguém sobreviveu) o melhor dia da semana para anunciar uma coisas destas. E escrevo na condição de sobrevivente de um “naufrágio” recente, anunciado a uma segunda-feira e que acabou por ser, garanto-lhe, penoso, muito penoso, mas mesmo muito penoso também para quem ficou e sim eu preferia ter tido o Sábado e o Domingo, nem que fosse nos copos, do que ter voltado nos dias seguintes, sem ter tido tempo para encaixar a ideia. Ter de afagar quem ficou, fingir que os que foram, até os que eu nem gostava por aí além, não fazem falta. Ter de fingir que o vazio das secretárias e o silêncio instalado não me incomoda e fingir que não oiço as vozes de alguns que já lá não estão, porque oiço, ainda, como se lá continuassem. Foi há menos de um mês e acho que vou perguntar durante muito tempo, egoísta talvez, porque não fizeram as coisas a uma sexta-feira. Ou pelo menos enquanto ninguém me conseguir explicar porque acharam melhor fazê-lo a uma segunda.
    Eu preferia que tivessem minimizado as perturbações internas, as que acabaram por nos perturbar o interior.

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