Somente Braudel

Fernand Braudel nasceu em França em Agosto de 1902. Ele é na minha modesta e insignificante opinião, o melhor historiador do século XX. O que quer dizer que ele é o melhor Historiador da História, se tivermos em consideração o que hoje em dia entendemos por História. É de sublinhar, contudo, que este tipo de classificações valem o que vale, o que é “melhor” ou não é muito relativo quando falamos de Ciências Sociais, ou cientistas sociais. Mas se tivesse que haver um melhor seria Braudel. Ele queria ser médico mas o seu pai não concordou e então ele tornou-se professor depois de estudar História. Depois de ensinar em algumas escolas de Paris e depois de conhecer Lucien Febrvre, um dos fundadores dos Analles, foi para o Brasil onde ajudou a fundar a Universidade de São Paulo.

Desde cedo que o seu interesse, ou pelo menos o seu primeiro grande foco de interesse, foi o Mediterrâneo. E assim, quando regressa a Paris em 1937 começou a fazer pesquisa para a sua tese de doutoramento cujo grande protagonista viria a ser este mar. Estava agora, claramente, sobre a importante influência da escola dos Analles. Apesar de tudo, é com o seu regresso que a sua vida se complica: com 35 anos é chamado para a guerra e consequentemente é feito prisioneiro. E agora, descobrimos aquilo que é, para mim, o facto mais extraordinário da sua vida.

Durante o seu tempo em cativeiro num campo de prisioneiros algures na Alemanha Nazi, Braudel conseguiu planificar e planear a sua tese de doutoramento, sem acesso ás suas notas, aos seus livros, ao material recolhido (àquilo a que chamamos a Heurística), com recurso apenas à sua memória. Esta tese iria dar um dos maiores livros da Historiografia mundial. Um livro que segundo alguns devia estar ao lado das obras de Gibbon ou de Tucídides: O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Felipe II. Devido a esta obra, Henry Kamen disse que Braudel foi o maior Hispanista que já existiu. E ele tem provavelmente razão.

Hoje em dia esta obra está dividida em dois volumes. O primeiro é dedicado à geografia, à economia, ao estabelecimento humano, ao clima. Ao território se quisermos ser brutos e simplificar as coisas. E o segundo é largamente dedicado à História política e ás relações internacionais do período. A discrição de Braudel dos territórios que circulam o Mediterrâneo provou que este mar mantinha ainda uma enorme importância no período de Felipe II e não sofreu uma decadência como era argumentado. Também Braudel comprovou a complexidade cultural, económica, geográfica que circunda este mar e que o torna excepcional se considerarmos especialmente no panorama europeu.

A mestria de Braudel faz com que ele tenha uma percepção de variados assuntos e áreas e a sua capacidade de estabelecer ligações entre eles, de os “encaixar” e de fazer com que um factor exista sempre em função de outro. Isto é algo que nós que estudamos História ou Ciências Sociais no geral, nunca conseguimos verdadeiramente atingir ou pelo menos, não da forma genial como ele o fez.

Braudel percebeu perfeitamente as grandes estruturas, as infraestruturas e as conjunturas. Daí a sua divisão do tempo, o que muda regularmente, o que muda lentamente e o que parece não mudar nada. Mas ele compreendia também, e isto é extraordinário, as pessoas. E não apenas as pessoas das margens, os “marginais”. Porque ele percebia esses apesar deles raramente (Especialmente naquele tempo) figurarem nos livros de História. Ele percebia-os e estudava-os e mencionava-os. Mas ele também entendia as grandes personalidades. E aqui eu teria de Braudel ganhou o meu coração ao compreender Felipe II (na medida em que ele é compreensível) mas numa altura ainda em que estamos embrulhados numa profunda Lenda Negra.

É de todas estas maneiras que ele era brilhante.

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