25 Poemas de Abril (VI)

Por ti , pelo teu ódio à Liberdade
à Razão e à Verdade
a tudo que é viril, humano e moço
a fome e o luto apagaram os lares
e os homens agonizam aos milhares
no exílio, no hospital, no calabouço

Por ti, raivoso abutre,
cujo apetite sofrego se nutre
de lágrimas, de gritos, de aflições,
gemem nas aspas da tortura
ou baixam em segredo à sepultura
os mártires que atiras às prisões

A este claro Povo, heróis dos povos
que deu ao Mundo,Mundos novos,
mais estrelas ao céu. mais luz ao dia;
a este livre e luminoso Apolo,
atas as mãos, os pés e o colo
e encerras numa lobrega enxovia.

Falas do céu como um doutor no Templo,
mas tu, encarnação e vivo exemplo
da hipocrisia vil dos fariseus,
pelos sagrados laços que desunes
pelos teus crimes, até agora impunes
roubas ao mesmo crente a fé em Deus

Passas … e mirra a erva nos caminhos;
as aves, com terror,fogem dos ninhos,
e, ao ver-te o vulto gélido e ferino,
mulheres e mães, lembrando os lastimosos
casos de irmãos, de filhos e esposos,
bradam, crispando as mãos: Assassino! Assassino!

Passas… e até os velhos, cujos anos
têm costumados a monstros e tiranos
dizem com a boca cheia de ira e asco:
– Sobre esta pátria mísera que oprimes,
jamais alguém foi réu de tantos crimes.
Vai-te! Basta de vitimas! Carrasco!

Passas… e ergue-se, vai de vale a cerro,
dos hospitais, do fundo das masmorras
às inóspitas plagas do desterro,
um coro de ais, de imprecações, de morras.

São multidões que surgem num só brado:
– Maldita a hora em que tu foste nado!
-Que se malogrou tudo quanto almejas!
– Conturbem-se os teus dias de aflição!
-Neguem-te as fontes águas, a terra pão
e as estrelas luz! Maldito sejas!

Jaime Cortesão

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