Conversa do chácha

Há trinta e sete anos, o que este país andou a ouvir acerca de colonialismos, ocupações e outras conversas então na moda! As Forças Armadas “jamais” deixariam o rectângulo europeu e apenas serviriam para a segurança da população e da independência nacional.
Viu-se, vê-se! Intervenções regulares no antigo Ultramar, desta vez sob as mais diversas formas de encapotamento daquela realidade que todos conhecemos: após décadas de independência e única e exclusivamente apenas excluirmos Cabo Verde, temos uma plêiade de Estados falhados, entregues a quem bem conhecemos. Nos maiores territórios, os mais básicos indicadores de desenvolvimento regrediram ao início da década de 50 do século passado e nem sequer valerá a pena voltarmos a contabilizar as montanhas de mortos sobre os quais os regimes se alicerçam. Em suma, já não cola o argumento do dedo apontado ao colonialismo que tudo justificou. Passaram mais de duas gerações. No caso da Guiné, ao vergonhoso fuzilamento sumário de dezenas de milhar de antigos soldados que serviram o Exército Português – “não temos nada com isso, eram pretos”… -, soma-se o descalabro social e económico, a constância da chacina dos tittulares do poder em Bissau, o total abandono das populações ao livre arbítrio e para cúmulo, a transformação do país numa placa giratória do narcotráfico internacional. Em suma, uma espécie de escondida Somália atlântica.
Agora, Portugal prepara mais uma intervenção militar na Guiné. A desculpa é clássica, com o recurso à defesa dos corpos e talvez das almas dos residentes portugueses no território. Pois…

Comments

  1. Pisca says:

    Nesta coisa cabe tudo, desde o “Portugal Uno e Indivisivel” até ao “Nem mais um soldado para as colónias”. Decida-se

  2. Tito Lívio Santos Mota says:

    O antigo “Ultramar” nunca foi “nosso” apenas foi ocupado (no século XX) para fins de exploração das riquezas naturais e da mão de obra barata.
    O que é hoje, diz-nos tanto respeito como o que era antes.
    Tal como o que é hoje Portugal diz tanto respeito à “aliada” Inglaterra como dizia antes do tratado que nos tornou sua colónia no final do século XVII.
    Basta a vergonha de termos andado a fazer a guerra contra povos estranhos durante 12 anos, incluindo a criação de 12 campos de morte lenta (o Tarrafal foi apenas um deles) e a maneira como tratamos as populações locais durante o século de colonização para apenas termos o direito de nos calarmos e metermos a viola no saco.
    O escândalo não é o que se passa hoje nesses países cujos passam por coisas que também nós passamos e outros países europeus também (incluindo a Escandinávia sob o domínio sueco, por exemplo).
    O escândalo é a atitude dos nossos governantes perante os ditadores africanos. A sua conivência com regimes que apenas servem para continuar o que fizemos antes de serem regimes. A maneira como se apregoa em programas televisivos da estatal RTP o facto de a roubalheira continuar e agora se estender ao nosso território como sendo “boas oportunidades” e “excelentes para ambas as partes”.
    Mas essa roubalheira sendo apenas a continuação da anterior nada admira que se estenda ao nosso território. Durante o salazarismo assim era também. Roubavam-se pretos e brancos, bantos e “parolos” da mesma maneira, com o mesmo desplante e a mesma falta de vergonha embrulhada em papel de “prenda natalícia”.

    Deixe pois essa gente em paz, resolver sozinha os seus problemas. Eles agradecem.
    Já metemos o bedelho onde não éramos chamados que chegue e sobre.

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