A CPLP, Abril, o sector e o setor

A Resolução sobre a Situação na Guiné-Bissau, ontem aprovada pelo Conselho de Ministros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), será sempre lembrada como uma referência quer da crónica inaplicabilidade do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), quer do conceito de heterografia que lhe está associado, quer da precipitação em aplicar-se algo que a própria CPLP assumiu há poucos dias precisar de “diagnóstico relativo aos constrangimentos e estrangulamentos na aplicação” e de posterior “ajustamento”.

Enquanto se espera pelo “ajustamento”, a medida mais sensata seria a da pura e simples suspensão do AO90. Seria. Enquanto não se perceber que a imediata suspensão é a única medida sensata, haverá sempre episódios perfeitamente desnecessários, como o da  Resolução sobre a Situação na Guiné-Bissau. A convivência de “sector” com “setor”, no mesmo texto, além de comprovar a já prevista inadequação dum “critério fonético (ou da pronúncia)” a uma ortografia de base alfabética, demonstra que o AO90 é efectivamente um instrumento que promove a “heterografia“, em vez de regular a ortografia. As três ocorrências de “Abril” demonstram que a base XIX, 1.º, b) é, na melhor das hipóteses, um mistério irresolúvel, passados quase 22 anos. 

Quando os políticos não lêem os pareceres que solicitam, é isto que lhes acontece. Quando os políticos assinam algo que não leram, o resultado é este. Quando os políticos fogem para a frente, é com isto que nos deparamos. Quando os políticos defendem o que desconhecem, acontece-nos isto. Sim, porque isto não está a acontecer só a quem defende o AO90. Está a acontecer-NOS.

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  1. […] inaptidão da CPLP para lidar com o AO90 é bem conhecida. Embora concorde com Margarita Correia que «[q]uaisquer […]

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