Acordo Ortográfico: entremez muito simples sobre a arte de não responder

Esta caixa de comentários inspirou-me o pequeno divertimento que se segue. O visado perdoar-me-á. Ou não.

Personagens: Nabais e Silva

Nabais: Então o que me diz ao facto de Antônio Houaiss afirmar que há consoantes com valor diacrítico?

Silva: Se quer acreditar nisso, o problema é seu.

Nabais: Não se trata de eu acreditar. É uma afirmação de Antônio Houaiss.

Silva: Não tenho nada a ver com as suas falsas crenças.

Nabais: Talvez não me tenha feito entender: Houaiss falou da existência de consoantes com valor diacrítico.

Silva: Por mim, até pode acreditar que Estaline foi um benemérito da humanidade.

Nabais: Hmm, já percebi que com o Houaiss não vamos lá. Como comenta, então, a argumentação contida no texto do Acordo de 1945 acerca da manutenção das chamadas consoantes mudas: “após as vogais a, e e o, nos casos em que não é invariável o seu valor fonético e ocorrem em seu favor outras razões, como a tradição ortográfica, a similaridade do português com as demais línguas românicas e a possibilidade de, num dos dois países, exercerem influência no timbre das referidas vogais.” ?

Silva: A sua cegueira e a sua extrema juventude impedem-no de perceber que essas consoantes mudas não têm influência nenhuma no timbre das vogais.

Nabais: Pois, e já vamos no segundo linguista que afirma que há consoantes com valor diacrítico. Não sei se já leu o artigo de Francisco Miguel Valada, em que se demonstra que, com o acordo ortográfico, aumentam as excepções no grupo de palavras terminadas em –ação: dantes, só nove palavras deste grupo tinham a vogal pretónica aberta; com o acordo, esse grupo passa a ter 54 palavras.

Silva: Essas excepções terão tendência para desaparecer, você vai ver. Um dia, explico-lhe.

Nabais: Pois, a minha juventude e a minha extraordinária beleza física impedem-me de perceber. Antes de se ir embora, gostaria, ainda, que me demonstrasse que é verdade aquele anúncio de que agora se passa a escrever exactamente da mesma maneira em Portugal e no Brasil.

Silva:…

Nabais: Espere aí, não vá já! Escreva um texto, pequenino que seja, que possa ficar igualzinho cá e lá.

Silva:…

Nabais: Ó Silva, não seja assim, homem! Volte aqui! Era só um texto…

Comments


  1. Caro António Fernando, uma coisa ninguém lhe tira: o caro amigo é exímio com as palavras!

    O diálogo está fantástico! Quase apetece levá-lo à cena… uma stand-up comedy, talvez! 🙂

  2. Pedro Marques says:

    No sítio que partilhei prova por A mais B que o Stalin não mandou matar ninguém, nem o fez tão pouco. Adiante, até muitos brasileiros estão contra este acordo, e não percebem porque é que ele existe. Se essa porcaria unificou alguma coisa? Então não, é ver agora a quantidade de erros que por ai circulam, a quantidade de gente que não usa este acordo, logo estão 4 ortografias em uso, pois porque depois de ter sido imposto este acordo muitos foram os portugueses e não só que decidiram usar a língua portuguesa sem as alterações ortográficas, pois unificou uma grande coisa. Só os cegos é que não vêem e o J. Silva é um deles.

  3. Edgar says:

    Para mim, uma das mais incompreensíveis decisões, é obrigar a escrever “fato” quando continua a ler-se “faCto”.

  4. Maria de Fátima Bizarro says:

    Facto continua a escrever-se faCto em Portugal. Mas “Excepção” passa a ser “Exceção” em Portugal e “ExcePção” no Brasil.
    Digam-me lá onde está a uniformização. “Rais parta” o AO90!!!


    • Facto continua, mas a verdade é que se escreverem fato teria de aceitar…
      E uso o condicional porque o «acordo» não está em vigor, nem poderá estar.


  5. Reblogged this on Firefox contra o Acordo Ortográfico and commented:
    Absolutamente delicioso…


  6. Nabais,
    Vem um homem de fim de semana, e dá de caras com um pedido de desculpa seu. Pois considere-se desculpado, só não sei se deve desculpar-se a si próprio.

    Explico-me. Se reparar bem, o sua caritatura refere uma pergunta que respondi e a uma afirmação que eu não fiz. A tal resposta, é ler, que ela está lá; quanto à afirmação que não fiz, foi dizer que vc era giro; Nabais, poupe-me, eu não jogo no clube em que os homens se acham gros uns aos outros, além de que me é indiferente que o Nabais goste que outros homens lhe façam esse tipo de observação.

    Agora, generalizando, vc acredita em algo que aqueles que venera dizem, por mais que os factos lhe mostrem o inverso; vc não lê coisas que estão escritas; vc “lê” coisas que os outros não escreveram. Com isto voltamos ao meu comentário do seu post anterior porque também estas três caraterísticas fazem de si um belissimo exemplar de opositor ao AO; e nisto, o seu diálogo tem pouco de caricatura e muito de fotografia.

    • António Fernando Nabais says:

      Silva

      Pela parte que me toca, desculpo-me a mim próprio, obrigado.
      Este modesto entremez é feito quase exclusivamente com palavras retiradas dos nossos comentários e constitui um retrato de alguém que não responde às perguntas que lhe são feitas, porque não quer fazê-lo ou não sabe fazê-lo (para provar que as chamadas consoantes mudas não têm valor diacrítico é preciso muito mais do fazer referência a palavras em que isso não acontece, para além de implicar contestar autoridades científicas – e considerar alguém uma autoridade científica não é o mesmo que venerar).
      Este simples entremez é o retrato de alguém que não respondeu nem responderá – será cobardia? – ao desafio lançado várias vezes para demonstrar que se pode escrever da mesma maneira em Portugal e no Brasil, agora que o acordo salvou a língua portuguesa e nos uniu para todo o sempre numa mesma ortografia (pensando melhor, parece que a ortografia não foi uniformizada, pois não? Deve ser por isso que não se consegue escrever da mesma maneira dos dois lados do Atlântico lusófono).
      Finalmente, ó Silva, adoro que me digam que sou giro, até porque, infelizmente, é muito raro e penso que só aconteceu por estar escuro ou por alguém estar sem óculos. Talvez por ser uma pessoa carente, tanto me faz que sejam homens, mulheres ou pequenos crocodilos a elogiar-me, aceito tudo. Mas para que ninguém, aqui, duvide da sua transbordante masculinidade, declaro, alto e bom som, que o Silva nunca escreveu que eu sou “giro” (embora aquela do “belíssimo exemplar de opositor ao AO” possa parecer suspeita). Se tivesse lido com mais atenção, poderia ter reparado que foi a personagem com o meu nome que se considerou a si própria uma pessoa bonita, numa atitude típica do anúncio que diz “se eu não gostar de mim, quem gostará?” No fundo, o Nabais ficcional é, à semelhança do autor, um pobre-diabo tão desesperadamente necessitado de carinho que acaba por se elogiar a si próprio. Triste, excessivamente triste.
      Pela minha parte, desisto, com bastante pena, de qualquer futura polémica consigo, porque não tenho vocação para cão guia. Para além disso, talvez deva evitar frequentar as caixas de comentário por onde eu ando, porque ainda pode correr o risco de ser contaminado por esta minha homossexualidade latente. Latente, no mínimo, claro.

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