Corrupção Freeport e o Futuro

É impossível não sentir alguma simpatia e benevolência por pessoas como Charles Smith e Manuel Pedro. Foi porque Charles Smith revelou que a promotora do Freeport tinha pago luvas a um político num alto cargo governamental que tudo isto começou e tudo isto vai terminar ao lado do que realmente está em causa e interessa. Basta pensar que, nesse Governo demissionário, havia um relatório de impacto ambiental desfavorável ao empreendimento que só um certo pagamento poderia resolver. Havia até um destinatário para o mesmo dinheiro, o Ministro do Ambiente à data dos eventos, que mais tarde acusou Charles Smith de ter usado o seu nome para extorquir o suposto dinheiro de luvas ao promotor do empreendimento, mas o certo é que Charles Smith a ficar com o dinheiro, nunca poderia ter revertido o estudo de impacto ambiental transformando-o de desfavorável em favorável. Quem vai encalacrar-se sob uma acusação estapafúrdia de extorsão? Smith e Pedro. São acusados de extorquir dinheiro à promotora do empreendimento à pala do nome de ministros, autarcas e outros para dar mais solidez às suas supostas pretensões de anjinhos. Em todo o caso, este julgamento serviu para perceber pormenores. Sabemos quem recebeu. Sabemos como recebeu. Percebemos de que forma o dinheiro era entregue a outros implicados. Conhecemos a teia dessa corrupção até chegar ao Ministro do Ambiente. Se o crime de extorsão não pôde ficar provado, uma vez que Smith e Pedro não extorquiram o dinheiro ao promotor para ficar com ele, só pode ter sido dado a outros, pois, não restam dúvidas, esse dinheiro foi efectivamente pago.

Falta é dar o passo seguinte. A absolvição de Smith e Pedro do crime de extorsão é/será da mais límpida justiça. Ambos intermediaram dinheiro recebido por corruptos. Ambos participaram num crime de corrupção, mas apenas como pombos-correio da recepção, transporte e entrega do guito. Irónico é que corruptos acusem outros, bem frágeis e muito abaixo na cadeia alimentar, de terem usado o seu nome para se aproveitar pessoalmente da situação. Smith e Pedro são homens comuns, sem rasgo para esquemas nem lata para fugir em frente e muito menos capazes de expedientes demasiado arriscados para a sua pacatez. Ninguém imagina que tivessem ânimo para ficar com o dinheiro de um suborno congeminado lá no topo e que desbloqueou um parecer aparentemente desfavorável e nisso irredutível.

Só falta a abertura imediata de um processo para acusar e condenar os corruptos, cujos nomes foram referidos e confirmados por inúmeras testemunhas. Rastreado o dinheiro colocado nos cofres do partido e nos bolsos atrevidos de quem se sabe, porque espera o MP?!

Comments

  1. Nuno Valério says:

    Até prova em contrário, é-se inocente! É preciso dizer mais? É: se uma determinada cabeça rolasse envolvida numa sentença transitada em julgado, na praça pública, Portugal sairia da crise em que o atolaram e atolam, tamanha o júbilo. O futuro? Portugal em crise, qual é a dúvida, mesmo que a pudéssemos corromper – a crise…

    • palavrossavrvs says:

      Tudo muito bem, mas uma das razões do nosso descalabro é a fastidiosa questão da lentidão da Justiça ou ineficácia e nulidade dela. Qualquer mudança de perfil no sentido do acréscimo de rigor e atribuição de responsabilidades beneficiar-nos-ia sem sombra de dúvida. À urgência e cumprimento escrupuloso que fizesse os credores nacionais receberem o que lhes é devido dos devedores nacionais equivale a urgência de os corruptos nacionais pagarem o que devem ao Estado e sejam punidos exemplarmente perante o País.

      Não é pedir muito. Corrupção é igual a miséria para milhares, como eu que sou pobre e passo muitos dias do mês sem um cêntimo no bolso, humilhado com os meus parcos recursos, vexado por me ser exorbitante exercer a profissão e vantajoso e económico receber um subsídio de desemprego, isto apesar de trabalhar, ser docente, precário há dezasseis anos. Este tipo de distorções, injustiças, desnivelamentos sociais faz de mim mais um cidadão que se alivia, que obtém catarse para si apenas por poder apostrofar Filhos da Puta aqueles que, por aquilo que nos fazem a sangue frio, não passam de Filhos da Puta.

      DECLARAÇÃO DE INTERESSES: 1. Sou um fervoroso católico personalista segundo uma espiritualidade onde o melhor do divino seja o humano, acessível, caloroso, repleto de um afecto indiferenciado que cure e traduza felicidade nas pessoas pelas pessoas.

      2. Acho que mudar de Regime por aclamação seria regenerador, pondo de lado as caricaturas apensas à ideia de Monarquia.

      3. Parece-me que esta democracia falhenta e falida terá de se reconverter através de uma purificação de boa parte das lógicas fechadas e maçónicas dos partidos do Arco da Corrupção Governativa. Há quase quarenta anos os partidos foram uma bênção. Hoje, de há anos para cá, revelam-se uma fonte de merda, um foco infecto de lixos, de traições às mais legítimas aspirações de prosperidade e paz social do Povo Português.

      4. Ouvi falar que tínhamos uma Constituição-Programa de igualdade, prosperidade e justiça igual para todos. Ora os partidos, os privilegiados, a ronceira elite que nos apascenta, já garantiram igualmente há imenso tempo a nulidade prática desse documento. Como rever o que se não cumpre nem respeita?! Hipócritas os que na Direita preconizam esse tipo de cirurgia documental apenas para nos oprimirem mais tranquilamente, achinezando-nos nos rendimentos pessoais, rebaixando-nos as condições vida o mais possível!


  2. No processo dos Sobreiros ficou provado que entrou 1 milhão de euros na conta do CDS-PP. Gente da cadeia 0. No caso dos submarinos provou-se na Alemanha que houve corrupção. Em Portugal 0. No caso moderna 0. No de uma certa empresa de construção civil que pagou dinheiros ao PSD no tempo em que um tal de José Luís Arnault (ring a bell?) geria as contas do partido também não houve consequências de maior. O Relvas é “doutor da mula russa e não se demite. A Helena Roseta diz que o Relvas favorecia a empresa do amigo Passos e nenhuma indignação se não a de um dos visados. Os senhores do BPN pululam ainda nos órgãos dirigentes do PSD e nos grupos de trabalho do governo e nada. O PR ganhou dinheiro de forma pouco transparente no BPN que além disso lhe financiou a primeira campanha presidencial e nunca mais se falou disso nem há investigação nem nada. Então se tudo isto se passa e se esquece sem grande sobressalto porque é que o caso Freeport é especial? Porque é que não há condenações de espécie alguma mas continua todas as semanas a fazer títulos nos jornais? É fetiche? É hipocrisia? É um súbito amor à verdade e à justiça? É obsessão? É doença? Vá, façam lá o vosso trabalhinho que a vida está difícil.

    • Nuno Valério says:

      Caro JP,
      Porque é que não há muitos mais exercícios prenhes de lucidez da nossa memória colectiva como este que saiu da sua pena? Sim, porque os enviesamentos, e então no caso Freeport, padecem de tamanha hipocrisia e tamanha carga de esquecimento, que não é propriamente fácil separar o trigo do joio. Trabalhemos pois, com a metáfora dos mineiros, para alcançar a luz ao fundo do túnel – alguém sugere melhor?…

    • palavrossavrvs says:

      Ó meu caro, se está à espera que eu desista de ver o receptador dos dinheiros-que-permitiram-enxotar-flamingos-e-fazer-o-Freeport pagar em vez de viver em sossego apenas porque nada se passou com os demais da sua lista, pode tirar o cavalinho da chuva.

      Os que elenca deveriam pagar pelos seus actos, obviamente. Mas há uma coisa muito clara que distingue o Receptador dos Dinheiros que Possibilitaram Construir em Zona Protegida e os do processo dos Sobreiros, do processo dos Submarinos, do processo da Moderna, [da tal empresa de construção civil que pagou dinheiros ao PSD no tempo em que um tal de José Luís Arnault e tal, matéria em que PS está absoluta e e inteiramente geminado], ou mesmo o favorecimento por Relvas da empresa do amigo Passos, ou o caso dos senhores do BPN, ou mesmo o favorecimento do PR em acções do mesmo banco. E a diferença é esta: nunca um mau carácter e um modo distorcido e desonesto de estar política pôs tanto em causa e é isto que é imperdoável: a solvência do País e a paz mínima de algumas classes profissionais, manobra de diversão, instabilização gratuita.

      O problema é todo este. Corruptos com impacto relativo, lateral, indirecto nas contas públicas merecem processo e prisão num País que funcione. Corrupção contumaz que deite a perder todo um Povo e comprometa o presente e o futuro de gerações num País, merece mil prisões e, dado que há hoje imenso sofrimento e angústia em milhares de portugueses à conta disso, talvez nem haja prisão que chegue para semelhante tipo de desmandos.

      Dito isto, infelizmente privei com gente sã que conhecia muito bem e bem de perto o Receptador dos Dinheiros que Possibilitaram Construir em Zona Protegida. Ávido como poucos, furão como poucos, videirinho entre os videirinhos, mau carácter sem cura, as suas decisões comprometem-nos gravemente, o seu amiguismo faccioso e partidarizante assassinou-nos efectivamente, as PPP assinadas [e por cada uma delas a mesma lógica comissionista que presidiu à Receptação dos Dinheiros que Possibilitaram Construir em Zona Protegida], quando estávamos já em pré-calamidade, definem um mau e daninho chefe de Governo. E tudo isto revestido com homilias massivas, diárias, de encher chouriços e vender banha viperina.

      Eu já conheço a sua linha de argumentação para que o deboche some e siga, JP. Mas essa linha que separa os Podres da Direita da Legitimidade de Roubar mais à Esquerda é o que eu como ao pequeno-almoço com os meus Flocos de Milho.

      • nightwishpt says:

        Discordo de si, se a bolha não rebentasse em 2008, seria o seguinte que seria o seu alvo preferencial. E eles continuavam todos a ter a culpa de destruir o pais aos portugueses.

        • palavrossavrvs says:

          Não me parece. O meu alvo preferencial tornou-se preferencial muito por culpa de uma aposta deliberada no embuste mediatizado todos os dias, na pressão chantagista e condicionalista da opinião pública através dos media, desde a primeira hora.

          A partir de 2005 este passou a ser um Estado que se endividava a uma taxa e a um ritmo insustentáveis, coisa ocultada e alvo de manobras de diversão, apenas expostas graças ao milagre negro em Wall Street alastrando depois pelo mundo, com a pressão logo direccionada sobre as dívidas soberanas. Ou seja, o mal estava lá, medrando, sob a subjectividade do meu alvo preferencial, o gosto de controlar, conservar o poder, ter o vértice dele para o máximo de ganhos e comissões pessoais-amiguistas.

          Éramos havia muito um País sem PIB para mais estradas, sem PIB para mais manigâncias eleitoraleiras, sem PIB para as PPP em carteira, feitas muitas delas [a maioria] porque tinham agregado um prémio pela decisão favorável, negociada por sistema contra o interesse público, amarrada pela lógica mefistofélica dos mega-escritórios de advogados em Lisboa.

          Portanto, meu caro, não há, não havia desculpas.


      • Tanta literatura barroca para dizer que a eventual corrupção do Sócrates é pior do que a eventual corrupção dos outros. Tudo porque tinha um modo menos ético de fazer política e isso corrompeu moralmente o país. E os mercados, horrorizados com tal vileza, deixaram de nos emprestar dinheiro. Acredita mesmo nisso? E no pai natal? Se calhar devia começar a variar a dieta ao pequeno almoço

        • palavrossavrvs says:

          O perfil do pré-arguido Corrupção Freeport é tão questionável do ponto de vista político-económico como o são, indubitavelmente, os de Sarkozy e Berlusconi. Além das circunstâncias externas que externalizaram os problemas que nos permaneciam ocultos porque escondidos, sobretudo o manejo com os pés da dívida, coisa que se administra bem ou mal, tínhamos um mau carácter, um golpista barato, um conspirador de concelhia a representar o PS-Estado, as Elites e os Interesses, não o interesse dos portugueses,

          Porque o interesse dos portugueses é viver e prosperar aqui e não assistir impotentes à prosperidade dos amigos do partido, das empresas do partido. Em suma, está tudo bem com o meu pequeno-almoço. A sua paixão pelo pré-arguido Corrupção Freeport bem como pelo partido que tantos benefícios colheu com o mal geral é que deveriam ser temperados com a benignidade e equidistância, como a praticam Manuel Maria Carilho, Henrique Neto e outros homens livres, que também os há, no PS, embora raros.

          O PS transformou-se num cancro conspirativo com uma agenda de infrene enriquecimento interno sob a tutela desregrada do pré-arguido Corrupção Freeport. Tal doença permanece e alastra. Condena-o ao processo terminal de todas as estruturas degeneradas que a História documenta. Morre e afunda-se na proporção cretina em que um Mário Soares expele o seu catarro faccioso por um novo Governo, já, ou em que Januário emite mais um dos seus escarros selectivos e certeiros como se estivesse num jogo de dardos, os quais divertem, no Inferno, todos os diabinhos do universo e, na Esquerda Portuguesa, todos os que da Igreja só consentem esta peçonha radiclóide e incendiária, mas não o resto da Mensagem, coisa que D. Manuel Martins ou D. António Ferreira Gomes nunca perpetraram, pois tinham elevação e sentido equidistante da realidade política portuguesa.

          Não pode haver paz para gente que enlameia e generaliza a lama só para cima do oponente sem uma nota que seja aos que bem se governaram com as nossas desgraças em decurso. Note-se que citei aqui um resto de PS decente. Não generalizo.


  3. Não sei se Sócrates é corrupto. Não sei, não vi provado que ele ou qualquer outro político ou gestor/empresário/consultor/político é corrupto. A Justiça nunca concluiu de forma cabal sobre nenhum caso de corrupção na política. E quando o fez foi só para que os respectivos recursos para instâncias superiores fizessem reverter a sentença. O que sei é que os indícios, as suspeitas, se quiserem, aquilo a que cheira, o caso Freeport não é diferente do de muitos outros casos, com políticos e partidos e governos do “arco do poder” ou do “arco da governabilidade”. Só não compreendo porque é que este caso em específico, que nasceu durante uma campanha para as legislativas, renasceu em outra campanha para as legislativas e se continua agora a arrastar sem nenhuns resultados práticos, continua a ser a estrela mais cintilante da constelação de “casos” que assombram a justiça e a sociedade portuguesa em geral. A outros foi concedida a benesse do esquecimento. Mas já se sabe, Sócrates é um poderoso afrodisíaco para muita gente. Eu bem sei que ele era mau. Mas a incapacidade para converter a indignação em acção regeneradora parece estar a causar algum desconforto que sabe sempre bem apaziguar lembrando o abominável sócrates das neves de Paris. Soluções, concordo, temos de aprender com os mineiros. Intervenção cívica. Tomar consciência dos nossos direitos, da sua legitimidade, e lutar por isso da única forma que resta, perante o panorama de degradação generalizado da instituições: Protesto! Força das massas! Coloquem o rótulo que quiserem. Mas era o PR que há um ano apelava à rua em discurso na AR. O que é que mudou? Mesmo?

  4. Nuno Valério says:

    Caro JP, permita-me repetir estas palavras: “Mas a incapacidade para converter a indignação em acção regeneradora parece estar a causar algum desconforto que sabe sempre bem apaziguar lembrando o abominável sócrates das neves de Paris”. De facto, o rótulo é absolutamente secundário, serve apenas para a impressa poder engalanar as suas parangonas. Todavia, enquanto simples e mero cidadão, preocupa-me sobremaneira a letargia em que estamos mergulhados (e não é só pelas razões climáticas) – VPV na sua crónica de hoje é assertivo qb na explanação da sua posição. As palavras estão perfeitamente gastas mas não corroídas pelo tempo, pelo que a concretização do protesto tem que assumir o objectivo que, na minha visão, deverá ser o nuclear: a prática governativa actual tem que ser alterada, não podemos continuar a ser cobaias de agendas ortodoxas e ultraliberais; a crise financeira tem que ser ultrapassada com o questionar e o assumir cabal de responsabilidades por quem esteve na sua génese e a alimentou e alimenta, sob propósitos meramente lucrativos; a crise económica não pode, jamais pode, ser combatida com a desvalorização atroz e “criminosa” do valor do trabalho, mesmo que reconheça a necessidade de alteração de alguns dos paradigmas vigentes no nosso modelo económico (e.g. a aposta crescente em bens transaccionáveis), bem como o desfigurar de privilégios corporativos que minam a nossa existência colectiva – a começar pela classe política.

  5. nightwishpt says:

    Você quando quer e se esforça até escreve poesia que não deixa espaço para enganos. Antes fosse sempre assim e não temia sempre que o próximo artigo publicado pudesse ser seu.

  6. maria celeste ramos says:

    Talvez o Free seja tão badaladamente importante por ter sido inaugurado pelo principe Eduardo de Inglaterra que é empresário e o topónimo do outlet cheira muito a british ?? Este imbróglio nunca mais será limpo e a água do tejo está muito poluída

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