Irritações


 

É tarde e na televisão passa a repetição de um programa de discussão política, emitido umas boas horas antes. Os personagens são conhecidos, demasiado conhecidos. Têm o seu passado de inutilidades e equívocos branqueado por isso mesmo, por ser passado. Ouço-os, e à natural falta de paciência causada pelo cansaço de quem precisa, mas não consegue dormir, junta-se uma estranha irritação. Os sorrisos sobranceiros que decoram as palavras, não ajudam. A discussão que esconde mal, mesmo muito mal, um pacto tácito entre todos, azeda-me o fígado. A sabujice de quem modera (?) revelada nas lambedelas que substituem as perguntas, é suficiente para tirar do sério o mais fleumático dos mortais. Mas há ali qualquer coisa mais. Qualquer coisa que eles tentam, mansamente, encobrir. Qualquer coisa que, a pouco e pouco, se vai tornando perceptível, quase palpável. E de repente, “voilá”. Finalmente percebo e também percebo que, afinal, a descoberta nada tem de notável. Aquelas aventesmas não vão para ali dizer o que pensam. Vão para ali dizer o que lhes dá jeito e apenas dizem o que serve os seus interesses pessoais.

São os “senadores da Pátria”, cargo cuja nomeação depende não de se ter feito bem ou mal, ou mesmo, de se ter feito coisa alguma, mas sim da perfilhação dum estilo, duma postura, dum registo, e de aparecer há muito tempo e muitas, muitas vezes. Ah! E parece ser iniciático. Dá toda a ideia que todos eles passaram por uma sala mal iluminada onde na presença de outros, ainda, mais vetustos, juraram sobre uma luxuosa encadernação do “estatuto das reformas acumuláveis”, proteger o “status quo” que lhes permite a relevância e lhes garantirá um concorrido velório nas Galveias ou na Estrela com muitos testemunhos duma excelência que não mereceram.

Mas como quem é vivo sempre aparece, estes aparecem muitas vezes. Muito mais que o desejável. Com um único propósito: defenderem os seus interesses pessoais. Ostentam o ar magnífico de quem conhece O porquê e A resposta, sendo completamente irrelevante que não façam, a mais mínima, ideia nem duma coisa nem da outra, como, inegavelmente, as suas próprias experiências o demonstram. Porque apesar de nunca terem sido ou terem querido ser solução, falam como se só eles a enxergassem. E insultuosamente. Porque ao esconderem a apologia que, realmente, fazem da sua agenda pessoal debaixo da manta do interesse nacional que juram ser o seu único móbil, ofendem-nos. A mim, além disso, irritam-me. E na antecâmara de um sono que, ainda, não está perto, apetece-me mandá-los para um sítio que eu cá sei.

Comments

  1. Eu tenho o maldito defeito de sofrer por antecipação. E sofro muito. Da mesma forma que, as vezes, abro mão daquilo que amo por medo de sofrer depois. O problema é que muitas vezes não percebo que, evitando o sofrimento, eu posso estar me privando de ser feliz também. Mas eu tenho aprendido, devagar e sempre.

  2. maria celeste ramos says:

    Se calhar é gato de rabo de fora e igualmente aproveitar a visibilidade do écran para igualmente cativarem quem não sabe onde a quem se juntar já que a manada anda a crescer mas não saberá o caminho por mais que os urbanos saibam como “fazer” Por acso eu sou mazoqueista e de cada vez que há um desses debates e em geral depois de noticiário e em 3 dos 4 canis – oiço-os para ter a certeza de que oiço bem e não me enganei no que percebi – mas o que mais me encantou foi ouvir de uma penada TDOS os eis ministros (que agora estão mais gordos e jogam golfe estão “aposentados”) dizer a verdade mesmo – que interessante como se até a verdade na boca deles cheirasse mal já que uma coisa são as palavrasdo que de facto fizeram e quereriam ter feito mas que afinal revelam a mais interessantes das desgraças – aliás cavaco diz o mesmo e velamos como faz “bem” o seu papel e o que resulta – e quem resiste a mostar-se e ainda ser bem pago para dizer o que dizem ?? e entretanto até parece que nem fazem teatro – é mesmo assim – são verdadeiramente da maior mediocridade intelectual e política e humana – por isso vivem em condomínios fechados estilo gandarinhas antes que se distraiam – mas os porugueses são como os bois de Augusto Gil e não aqui como os irlandeses que meteram uns tantos na cadeia – mas à solta – aliás como Giscard D’èstang – que anda à solta mesmo condenado de 7 anos – é a brincar – condenações e tribunais a brincar – enquanto ninguém se revoltar a sério continuarão a engordar e jogar golf e a brincar – a politica é um hobby tentador – mas as prisões estão a abarrotar e nem cabiam lá e os presos limpavam-lhe a “gordura”

  3. maria celeste ramos says:

    Acabo de ouvir no euronews uma jornalista romena a falar no referendum no próximo domingo na roménia e um transeunte que diz que é a fingir pois que seja qual for o resultado irão manipulá-lo – mas claro – onde é que não sucede isso ? o que vale é que o benfica ganhou ao real madrid – alguém se distraíu

Trackbacks

  1. […] a 28 de Julho de 2012: Carlos Garcês Osório explica o que digo, mas com uma qualidade retórica a mim inacessível. Mais […]

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