Pura sacaníce

Um amigo meu tem uma mercearia, comprada com recurso a crédito bancário. Quando a comprou era uma loja simples e ele trabalhou no duro para lhe dar valor e ganhar uma clientela. Ao fim de dois anos quis seguir outra vida e decidiu arrendá-la, tendo encontrado um interessado. Acontece que, de acordo com o contrato assinado com o banco, o arrendamento só seria possível com a autorização deste. E o banco não autorizava o arrendamento, excepto se o spread fosse revisto em alta. A proposta do banco, cuidadosamente preparada, significava que toda a renda recebida pelo meu amigo ia direitinha para o aumento de spread. Ou seja, o banco, que já estava a ganhar com o empréstimo bancário, queria ficar o lucro que o meu amigo poderia vir a fazer graças ao seu trabalho.

Vem isto a propósito da notícia da proibição do aumento do spread em caso de arrendamento de imóveis com crédito à habitação associado  não ter sido «bem recebida pelo sector financeiro».

Na medida extraordinária, que se aplica pelo prazo de três anos, e tem critérios de elegibilidade muito restritos ao nível dos rendimentos, entre outros, a possibilidade de arrendamento deixou de existir.[Público]

A situação é a mesma da do meu amigo. Se alguém compra uma casa e paga a tempo e horas a prestação mensal ao banco, que legitimidade tem este para dizer o que é que o comprador pode ou não pode fazer?

Esta situação é um caso claro onde o estado deve tomar o lado do mais fraco e proibir o a ganância desmedida da banca. Se o comprador pudesse arrendar a casa, a banca não perderia por isso um único tostão. Mas perdia a possibilidade de lucrar ainda mais com o trabalho alheio – e é isto que está em causa.

Os partidos foram todos (sim, todos os que passaram pelo parlamento) muito amigos da banca quando não tiveram a coragem de rever em tempo útil a lei das rendas, o que permitiu, a par com o acesso facilitado ao crédito, que a banca se tornasse no maior proprietário do país e, também, um dos grandes causadores da actual crise financeira (graças à especulação imobiliária).

E agora, novamente os partidos, neste caso o PSD e o CDS, favorecem a banca por causa de uma proposta que não foi «bem recebida». Há dúvidas sobre quem manda no país?

Comments

  1. Fernando says:

    Não, não há dúvidas…
    E já agora, há dúvidas quem manda no mundo?
    Se ainda as têm é porque andam muito distraídos…

  2. jorge fliscorno says:

    Estava aqui a pensar em como somos tão impotentes perante o que passe pela cabeça de um governo. Lembram-se de fazer um aeroporto no meio do Alentejo e ele nasce. Decidem cortar-nos os salários e isso acontece. Decretam o aumento do número de alunos por turma e num instante estas esticam. A lista da prepotência governativa é infindável. O poder que um governo tem é enorme e não existe um efectivo contra-poder.

    Mas por acaso nesta questão da impossibilidade de arrendarmos a nossa própria casa, até temos algum poder desde que actuássemos colectivamente (ou seja, nunca acontecerá). E se como retaliação começássemos a levantar as nossas poupanças? Muitos suores frios de repente apareceriam.

  3. Fernando says:

    “E se como retaliação começássemos a levantar as nossas poupanças?”

    As poupanças já começaram a voar daqui, para ali, mais concretamente, daqui para a Alemanha.

    http://www.bloomberg.com/news/2012-09-18/deposit-flight-from-europe-banks-eroding-common-currency.html

  4. Andrade says:

    Sem dúvida que o direito à propriedade privada é para se manter. Isso dos bancos andarem a ditar o que se pode fazer na propriedade privada alheia é coisa de ditaduras comunistas, e felizmente ainda não estamos assim tão mal para levarmos com uma coisa dessas.

  5. Rantanplan says:

    Se a opção da sociedade foi por um sistema capitalista isso significa que quem manda é quem tem capital e financia os partidos políticos obrigado-os a servir os seus interesses. Não vejo qual é a admiração

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