Não pagarás a dívida dos outros até porque nem terás dinheiro para isso

José Vítor Malheiros enumera hoje as perguntas óbvias:

Devemos dinheiro a quem? E quanto? Quem o pediu e para quê? Onde está a lista das dívidas? Quem a certifica? Quem a auditou?

Blasfémia. Horror. Leva com um chorrilho de banalidades neoliberais que tem o seu clímax nisto:

 Aquilo que se chamava ataques especulativos eram tão somente investidores a deixar de comprar dívida portuguesa e outros receosos a aceitarem apenas juros mais altos.

Nestas cabecinhas delirantes não existe nenhuma coincidência no facto de o “receio” concertado exigir juros especulativos, de o fazerem simultaneamente em vários países, e fingem que 2008/09 nunca existiu em Wall Street. Foi só o défice, esse mantra ritual dos dividocratas. Calhou, foi uma coincidência, porque tinha de suceder, como se dever dinheiro não fosse na história dos estados tão natural como sempre foi.

Chega-se ao ponto de referir que só agora vamos pagar as PPP, como se a Lusoponte não existisse. As contas públicas surgem como algo de transparente, auditado pelo Tribunal de Contas, como se alguém tivesse sido preso em Portugal por comprar submarinos num contrato ruinoso, criar empresas municipais para colocar a família ou gastar o que se gastou no BPN (o tal de onde desapareceram milhões que, para estes ingénuos, não estão no offshore de ninguém) ou Nuno Crato não tivesse acabado mesmo agora de estoirar 61 000 euros num parecer jurídico que não serve para nada, em vez de pagar a quem deve como qualquer empresa o faria.

Não, foi tudo má política do estado porque há estado. Houvesse menos estado não seria assim. Houvesse um estado de direito, digo eu, e teríamos as cadeias cheias dos que se serviram do estado. E acrescento que as dívidas que contraíram os meliantes para benefícios privados não são minhas, nem nossas; são deles. Que se há défice se devem também procurar as causas no lado dos rendimentos do estado: os que fugiram e fogem aos impostos, ou nem sequer são decentemente taxados. Que haverá sempre défices enquanto existirem paraísos fiscais. E que dívidas ilegítimas, escrabrosas, impossíveis de pagar não se pagam, seguindo o exemplo histórico dos EUA e também da Alemanha. O estado não é uma pessoa, quem se aproveitou da sua fraqueza que se dane.

Mas não, a solução é calar quem aponta o dedo ao rei  despido. Haja a decência de se prevenirem; já faltou mais para o consenso nacional numa coisa óbvia: não vamos pagar porque nunca teremos dinheiro para isso, e os credores terminarão por ter de o aceitar. Nessa altura veremos que terá de dar o dito pelo não dito.

17 comentários em “Não pagarás a dívida dos outros até porque nem terás dinheiro para isso”

  1. O BPN, por exemplo, nunca existiu e nos restantes bancos, do BPP à CGD, passando pelo BCP, a apertada supervisão exercida nunca permitiu qualquer operação especulativa. Precisamente, por isso, respiram saúde e liquidez.

    Mas às perguntas de Vítor Malheiros gostaria de acrescentar mais uma: tirando os 6 mil milhões para a banca como foram aplicados os restantes milhares de milhões que já recebemos?
    Há pagamentos a credores preferenciais?

    1. “tirando os 6 mil milhões para a banca como foram aplicados os restantes milhares de milhões que já recebemos?” Para pagar a divida que vence durante o período de assistência. E para pagar os défices gerados nesse período de assisitência. As respostas estão no texto. Não há credores preferenciais. Há títulos de dívida e há empréstimos. Se as pessoas lessem sem preconceitos e com atenção faziam melhor figura…

      1. Se o dinheiro recebido serviu para pagar divida, pergunta-se então por que é que a dívida não pára de aumentar?
        Já li, entretanto, e não consigo agora descobrir onde, que a banca alemã conseguiu livrar-se de grande parte da dívida grega e portuguesa que detinha quando o negócio era bom.
        A pressão sobre a Espanha e a Itália para que recorram ao resgate não terá a mesma intenção?
        Enquanto o negócio da dívida foi bom, com pouco risco, com o BCE a financiar a banca privada a juro baixo para esta comprar dívida dos estados, foi um fartote. Agora, é só empurrar para os contribuintes a responsabilidade, com “ajudas” das troikas a juros que asfixiam os orçamentos.

  2. Há muita cegueira ideológica nessas críticas ao esclarecimento desesperadamente necessário que foi feito através do blog blasfémias, e há também cegueira ideológica que impede de constatarem a realidade. Não falam nos défices sucessivos, não falam no endividamento sistemático, não falam na insistência em não cortar na despesa. Falam sim em banalidades e populismos, como falar nos submarinos (despesa extraordinária de mil milhões de euros) ou na lusoponte.

    O que a cegueira ideológica impede de constatar é que as afirmações daqueles que são agora alvos de ataques pessoais, como as acusações infantis de serem neoliberais ou até mesmo fascistas, criticam justamente os BPNs e Lusopontes deste mundo, e criticam também os Cratos e os Borges deste mundo. Se abrirem os olhos e ouvirem o que está a ser dito então irão constatar exactamente isso.

    Mas como aquilo que vocês realmente pretendem é tentar vilificar aqueles que não afinam pela batuta do vosso comité central então não se importam pelo conteúdo. Importam-se apenas em tentar pontapear os outros, mesmo quando para isso for necessário, no melhor das hipóteses, demonstrar que não perceberam nada do que foi dito ou no pior das hipóteses demonstrar uma profunda má fé fundada em partidarite.

    1. Uma enorme banalidade, constatar a existência de economia paralela, paraísos fiscais, predominância de impostos não regressivos, rendimentos não taxados.
      Sinto-me vil, sórdido, pérfido, nesse mundo dourado onde ideologia só a têm os outros, a minha capacidade de pensar leva logo com o comité central, e a insinuação de que chamei fascista a alguém.
      Linda argumentação. Mas quem sou eu? um tipo que não percebeu nada do que foi dito, um néscio perante as elites clarividentes que me tentam apontar o caminho da verdade.
      Tenho a dizer-lhe, Jaime, que já fui assim, idealista, sonhador, defrontando terríveis adversários, durante os dois anos da minha adolescência em que andei pelo maoísmo. Depois passou-me, e não foi com a idade.

    2. E esta política de redução de salários custe o que custar não é ideológica?
      Quando fala dos défices sucessivos refere-se a quem? Só pode ser ao PS, ao PSD e ao CDS que governam este país e dominam toda a estrutura do estado há décadas.
      Se é de “dar o pontapé” a alguém …
      Ao referir-se ao “vosso comité central” se está a pensar no PCP, mas quer comentar com um mínimo de seriedade, lembre-se que o PCP alertou inúmeras vezes ao longo dos anos para a “economia de casino” e “a financeirização da economia” que estão na raiz desta crise e tem combatido as políticas da troika e do PS, PSD e CDS, demonstrando que só vão agravar a situação, destruir o tecido produtivo, formado maioritariamente por micro, pequenas e médias empresas, agravar o desemprego e atrasar décadas o desenvolvimento do país.
      A realidade está aí para demonstrar a verdade.
      Só não vê quem não quer!

  3. o que o JCD se esqueceu de referir é que a dívida pública é antes de tudo um negócio, e que sim, havia imensa gente disposta a emprestar-nos dinheiro (a procura nos leilões excedia sempre a oferta) mas que os juros eram estabelecidos à priori por umas entidades ligadas aos mesmos bancos que compram dívida. E que os bancos portugueses que foram “obrigados” a comprar dívida financiaram-se a valores irrisórios para depois “emprestarem” ao estado novamente a juros usurários. E que o aumento do défice está neste momento directamente relacionado apenas com isso: os juros usurários que estamos a pagar. E que com estes juros é impossível saldar qualquer dívida. E que mesmo assim nunca foi feita qualquer tentativa para os renegociar, perpetuando ad eternum o pagamento da divida e o clima de emergência social.

  4. Com pouquíssimo tempo para comentar, deixo apenas um reparo a esta citação do artigo do “Blasfémias”:

    “[…]O que está em causa é, tão só, fazer com que a dívida não engorde mais e para isso, precisamos de conseguir atingir uma meta extremamente difícil: défice zero.”

    Digo agora eu: que é exactamente o oposto do que Passos Coelho está a fazer. A dívida pública continua a subir, aparente paradoxo se se tivesse acreditado no que nos foi vendido através do discurso oficial e oficioso dos defensores troiquianos, mas nem tanto para os que levaram a sério o que foi sendo avançado pelos do “Comité Central”, para usar a adjectivação respeitosa de um comentador acima.

    Excelente texto do João José Cardoso.

    1. Mas você não leu o que citou?? A dívida só não aumentava se tivéssemos défice 0, ou seja, se as receitas do estado chegassem para pagar tudo sem ter de pedir emprestado. Portanto, ou as receitas do Estado aumentam ou as despesas diminuem. Isto é, aumentamos impostos ou cortam despesas. O melhor que pode sugerir é “vamos gastar mais dinheiro para tentar fazer crescer a economia”, ou seja, aumentar as despesas e esperar que o aumento da receita compense. Problemas: não temos o dinheiro para investir, e se tivéssemos seria provavelmente desbaratado (nunca resultou nos últimos 10 anos). Achei que o texto do Blasfémias estava escrito num tom insultuoso, mas depois de ler estes comentários, já não sei.

      1. O défice este ano não vai ficar acima das próprias previsões do governo? Onde está a tendência para o défice 0? A receita fiscal não caiu? O PIB não está a contrair? Se o défice se mede em percentagem do PIB como espera diminuir o défice reduzindo a riqueza criada? E, já agora, como espera abater a dívida nas mesmas circunstancias? Pensei que tudo isto era claro por estar implícito no meu comentário.

        Já agora, nunca é de mais repetir este link:

        http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=586761&tm=6&layout=121&visual=49

        Transcrevo um excerto:
        “Segundo os responsáveis do OBEGEF, bastaria que os níveis de economia paralela em Portugal caíssem para a média da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) — 16,4 por cento do PIB, contra os atuais 25,4 por cento — para, aplicando-se uma taxa média de impostos de 20 por cento aos nove por cento de rendimento adicional considerados, o défice público descer dos 4,2 por cento de 2011 para os 2,2 por cento.”

        Aqui sim, encontra muito que fazer para reduzir o défice. Não é com a política Passista/Troiquista de empobrecimento generalizado que vamos lá.

    2. Para se afirmar que o “Comité Central” fez alguma coisa para cortar na despesa do estado é necessário que transcendemos a realidade ou que estamos a tentar empurrar uma peça de propaganda que nem vocês acreditam. O “Comité Central” adoptou nas últimas 2 ou 3 décadas uma política de oposição a qualquer corte na despesa pública. O “Comité Central” defendeu com unhas e dentes o TGV, o e-escolas e a renovação do parque escolar. O “Comité Central” apoiou ferozmente a nacionalização do BPN, e só a criticou por não terem sido nacionalizados todos os activos da SNL e por não ter sido nacionalizada toda a banca privada do país. E poem-se a tentar dizer com cara séria que o “Comité Central” tentou reduzir o défice? O mesmo “Comité Central” que cunhou a expressão de obcessão pelo défice como bandeira política de oposição a qualquer corte na despesa pública? Mas em que planeta vivem?

      1. Também é um enorme mito de que existe demasiada despesa pública em Portugal. O que existe é um PIB baixo para as necessidades de despesa em educação, saúde, cultura, investimento público, o que se traduz numa percentagem elevada da despesa do Estado face ao PIB. Claro que tem havido desperdícios, nomeadamente em negociatas para os amigos privados (com administrações confundidas com os partidos do centrão) à sombra do orçamento (veja-se a proliferação de PPPs rodoviárias, os contratos milionários em acessórias jurídicas e outras, a contratualização de serviços em saúde e por aí fora), em simultâneo com a destruição desde o período Cavaquista de partes importantes do aparelho produtivo, com a consequente importação de bens e aumento do desequilíbrio externo. Se quiser perceber porque tem sido assim e em particular porque temos tido um PIB baixo, terá que se interrogar sobre a viabilidade das políticas económicas de quem tem exercido o poder e não pedir contas a um qualquer “Comité Central”.
        E, sim, a nacionalização do BPN foi antes de mais um favor monumental aos accionistas privados do Banco concentrados na SLN, que se viram livres de um enorme berbicacho, sem que o seu património fosse beliscado. Esse favor (em nome de quê?) estamos ainda a pagá-lo, sob a forma de “austeridade salutar para equilibrar as contas públicas e viver de acordo com as nossas possibilidades”. As nossas, claro, não as deles.
        Por isso, o planeta é mesmo a Portugalândia, embora a política, essa, às vezes pareça de Marte.

        1. Não sei como é que o facto de que o estado português tem uma despesa demasiado alta pode ser alguma vez descrito como um enorme mito, visto que não há memória de um único ano em que o orçamento de estado não tenha sido suportado por um défice assombrosamente grande. Só no penúltimo ano do governo de Sócrates o défice ultrapassou os 10%. Como é que isso não constitui uma despesa demasiado alta?

  5. Oh Jaime, conheçes aquela anedota do cégo, em cima da ponte na noite de Natal, em que lhe apareceu um tipo vestido de Pai-Natal a prometer-lhe a visão imediata, se ele,coiso e tal??Sabes o que é que aconteceu ao outro olho?….VAI DAR BANHO AO CÃO, MAIS A TUA “IMUNIDADE IDEOLOGICA”….trata-te lá com os” imunes” do Blasfémias, e aproveita ….

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