Solidariedade

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Anteontem, 15 de Outubro, de este NO 2012, ESCREVIA SOBRE SALVADOR Allende e o fracasso do seu governo, texto que pode ser lido aqui e  para quem tiver tempo.

É um conceito que tem definição, sendo o primeiro em falar deles Émile Durkheim no seu livro de 1893 escrito na sua língua, o francês, De la division du travail social, texto em que distingue entre a sociedade orgânica e a mecânica. A primeira, deriva do direito e das leis que governam um povo, como todos sabemos; a segunda, como sabe também, dos usos e costumes que têm as pessoas no seu comportamento social. Não defino mais, porque tenho escrito muito sobre este texto, que pode ser lido em português europeu na edição de Europa – América.

De facto, é um debate com Adam Smith em que o autor citado, pai da ciência da Sociologia, diz que Adam Smith se tem enganado no seu texto de 1796: Um inquérito das causas e motivos da riqueza das nações, original em inglês da Escócia, traduzido ao português europeu pela Fundação Calouste Gulbenkian, livro em que define a economia como uma inclinação natural do ser humano para trabalhar. Durkheim duvida e riposta que Smith tinha esquecido que não há inclinação ao trabalho. Os seres humanos vivem e se alimentam dos ordenados adquiridos nos seus empregos. Aliás, o direito define que todo ser humano deve trabalhar para se alimentar e para contribuir, com impostos e bens criados pelo trabalhador, ao desenvolvimento da sua sociedade. O seu trabalho incrementa o produto nacional bruto e faz do seu país, uma nação certa e segura pelo contributo do operário à sociedade.

Como comentava ontem, era o que o presidente mártir, Salvador Allende, entendia, como percebia também que o povo trabalhador desperdiçava o seu ingresso em festas e bebedeiras porque não era proprietário de nenhum bem que rendesse lucro com mais-valia. Dependia apenas da sua capacidade de trabalho e de transformar bens em estado bruto, em bens em estado de ser comercializado. Este facto apenas rendia lucro para o proprietário dos meios de produção, poucos, dentro da massa de habitantes de um Estado. A ideia de Durkheim, como a de Allende, está retirada da teoria de Karl Marx, especialmente do seu livro de 1846: A Ideologia Alemã, em que define o conceito de alienação. Essa definição foi usada por Durkheim e Allende, os dois professores sobre a arte do trabalho, ideia que define a Durkheim como o que era, um socialista científico ou marxista. Normalmente, se diz que Durkheim era um sociólogo funcionalista, em que procurava provas para as suas hipóteses na relação entre ser humano e Estado. Um grande engano em que a maior parte dos sociólogos têm participado e não estudam profundamente a Durkheim, menos ainda os discursos de Allende, aulas magistrais perante centenas de pessoas de como o dinheiro deve ser usado e como empregar o corpo, para no esgota-lo no trabalho alienado. Trabalho alienado que é definido por Marx como o retirar das mãos do produtor o bem fabricado com a sua sabedoria, e pagar menos pelas obras do que merece um trabalhador que fabrica um bem que rende lucro ao proprietário dos meios de trabalho, entre eles, o próprio produtor, que passa a ser o capital variável do processo produtivo, sendo o fixo a maquinaria, o prédio e os terrenos da fábrica, além dos lucros ganhos com mais-valia pelo trabalhador. O operário é capital variável porque ou pode ser dispensado do seu trabalho pelo proprietário, ou porque adoecem e falecem e outro técnico tem que substitui-lo. As aulas de Durkheim e as massivas de Allende, ensinavam estas ideias aos trabalhadores, sendo Durkheim mais um docente que ensinava à noite aos trabalhadores de Paris, como Paulo Freire e eu fizemos com o operariado rural ou com os trabalhadores que durante o dia trabalhavam e, de noite, cursavam uma licenciatura ou um curso de alfabetização.

Solidariedade é também a colaboração para ensinar a jovem trabalhador, como funciona o sistema produtivo, saber ou pessoalmente transferido, ou em aulas sindicais, como tenho experimentado na já a minha cumprida vida. Não foi em vão que dediquei, junto com colegas de estudo, anos da minha vida para ensinar a ler e escrever a quem não sabia, junto com a minha pequena família doméstica.

A solidariedade, em fim, consiste em colaborar com gentileza para a aprendizagem de quem não conhece a letra o, nem por redonda que ela é. É a coordenação de quem tem uma tarefa em conjunto e quer aliviar o seu trabalho ensinando ao novato como fazer, descarregando assim um duplo peso das suas costas: a confecção de um bem e a colaboração nessa criação, do aprendiz a operário. Sem nunca ofender a quem não sabe porque ninguém nasce aprendido. Depende de quem saiba mais. E se quem mais sabe nada diz, é uma deslealdade que nasce apenas entre as ideologias fascistas e neoliberais, parte do fascismo.

Durkheim e Allende podem ser comparados na sua inclinação a ensinar sem envergonhar ninguém, com plena consciência de saber dar o que o outro não te. Eis porque Ratzinger no seu livro de 2007, Jesus de Nazaré, encomenda,  louva  Marx, quem tinha entendido como a alienação podia ser retirada se a riqueza e o saber eram partilhados, a riqueza redistribuída e o saber também. Durkheim e Allende, como Paulo Freire e eu, fizemos o impossível para nunca envergonhar ninguém pelo seu não saber, e com calma e paciência, iam distribuindo a literacia entre todo o operariado que, por nascer sem saber, aprendiam com a paciência dispensada pelo operário que treinava o aprendiz, ou pelo académico que sabe guardar as palavras caras como se diz em língua popular, para os colegas e para os seus livros, sem nunca envergonhar ninguém por não saber gramática ou sintaxes. É assim como defino solidariedade que causo a morte de Allende, professor massivo, e a de Durkheim dentro de uma idade ainda nova, entre a tristeza de ter perdido ao seu filho na Grande Guerra de 1814-18 e a sua devoção ao ensino persistente.

Raúl Iturra

15 de Outubro de 2002

lautaro@netcabo.pt

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