Contrato de funeral em vida

O crédito pode ser uma coisa funesta, já aprendemos essa lição, e pode até ser fúnebre. A funerária daqui do bairro, que teve sempre, como todas as funerárias, o constrangimento de não saber que pôr na montra – a miniatura de um caixão, um recipiente para cinzas, uma coroa de flores? – resolveu, por fim, essa dificuldade afixando um cartaz que oferece a quem passa uma oportunidade única. Chama-se “Contrato de funeral em vida” e consiste num “contrato de prestação de serviço funerário, efectuado em vida”.

Para além da sinistra imagem de depositar dinheiro a cada mês para vir a ter direito a um funeral, chama-me a atenção a particular disposição das palavras que permite ler que o contrato se destina a que nos realizem o funeral quando ainda estamos vivos e a espernear, se é que ainda se esperneia. Sabendo-se o que sabemos hoje, o “contrato de funeral em vida” bem pode ser a mais perfeita metáfora do conceito de crédito. 

Anuncia o cartaz que quem contrata um funeral em vida, salvo seja, deve escolher um destes planos: sepultura, cremação ou jazigo. Pondo já de parte o jazigo, que me parece uma coisa elitista, espécie de condomínio fechado post mortem, parece-me que a escolha será sempre impossível. Eu que nem consigo meter-me debaixo da cama (falta-me o ar, que querem), jamais escolheria a sepultura, até porque dispenso o cheiro da terra molhada e outros sentimentalismos de cariz rural. Mas se a alternativa é a cremação, não sei que vos diga. Para além do fogo, que me abstenho de adjectivar, está o problema das cinzas, tão pouco higiénicas, e a chatice acrescida de livrar-se delas num lugar apropriado.

As fotos do cartaz também não me tranquilizam. Um casal de meia-idade, com ar saudável e limpinho, ela muito sorridente, ele mais contido, os dois sentados à margem de um rio e tendo atrás uma árvore sinistra, sem uma única folha, de ramos retorcidos, preparados para se lançarem sobre os pombinhos maduros, agarrá-los pelos gasganetes e arrastá-los para os infernos. Sim, sim, eles riem-se, mas algo está prestes a acontecer e não será coisa boa, dá para perceber. Noutra foto, uma jovem debruça-se sobre uma anciã, apontando alguma coisa no monitor do computador para o qual ambas estão a olhar, e a gente quase consegue ouvi-la dizer:

– Vês, mamã, podes ser cremada ou enterrada, tu é que escolhes. Se fores cremada, as tuas cinzas são lançadas ao mar, como naquele filme que a gente viu, ou então são plantadas com uma árvore. Que é que achas melhor?

E imagino a senhora a sopesar as vantagens e inconvenientes da sepultura e da cremação, com o embaraço que nos é comum a todos, e que é o de ter de pensar no nosso corpo como algo que não nos pertencerá, sobre o qual não teremos controlo, no qual, ao fim de contas, já não estaremos, e cada um que decida se acha que vai estar noutro sítio ou não.

Talvez devêssemos, de facto, conversar sobre estas coisas antes e ter claro qual a vontade dos que nos são próximos, mas não é assunto que se introduza facilmente ao jantar.

Não há muito tempo, mão amiga (conceito impreciso mas simpático), prevendo que eu acharia graça ao tema, enviou-me o podcast de um programa de rádio dedicado ao “Joy of Death Festival” (o “Festival da Alegria da Morte”), um evento que se realiza anualmente em Bournemouth, cidade costeira inglesa. Por esse programa passou um embalsamador, que me pareceu um homem delicado e gentil, e que contava que se tinha apaixonado pela sua profissão ainda em criança, para espanto e horror de todos os adultos que o conheciam. A sua missão enquanto embalsamador era devolver ao cadáver uma imagem tão parecida quanto possível com a que tinha tido em vida – o perfume, o penteado, as peças de roupa favoritas, os óculos, a maquilhagem – e assim tentar facilitar a despedida aos familiares.

O outro convidado do programa foi uma mulher que tinha enterrado a mãe sozinha, não porque não pudesse recorrer a um serviço profissional para fazê-lo, mas porque não queria que um estranho se ocupasse do corpo de alguém que lhe era tão querido. Quando chegou a hora, colocou o cadáver nas traseiras de uma carrinha, fez-se à estrada a caminho da casa dos velhos amigos da mãe (a quem ela deixara de visitar porque levava anos acamada), para que eles se despedissem do cadáver da sua velha amiga. Tocava-lhes à campainha, recordava-lhes quem era (imaginam-se os diálogos longos e sinuosos: “Filha de quem…?”), e convidava-os a irem até à carrinha dizer adeus ao cadáver da sua velha amiga. Parece que em Inglaterra é possível fazer isto sem que ninguém se surpreenda particularmente.

Depois das despedidas, a filha procurou um terreno bonito, localizou o proprietário, explicou-lhe o que pretendia, e quando ele o autorizou, começou a cavar a cova onde viria a depositar o corpo da mãe. Fez tudo isto sozinha, com o esforço físico que se imagina. Ao longo de todo este processo (a viagem, a escolha do terreno, a preparação da sepultura) foi fazendo o luto, à sua maneira. Agora que passaram vários anos, ela continua a achar que a sua opção foi a mais acertada. Foi ao Festival contar a sua experiência e animar outros a fazer o mesmo, coisa que pelos vistos é facilitada pela legislação britânica.

É uma opção extrema e não me imagino a fazê-lo, mas parece-me bem menos sinistra, apesar de tudo, do que contrair um crédito para morrer, e assinar, imagino que com letra trémula, o contrato do nosso funeral em vida.

Comments

  1. Amadeu says:

    O mote dessa funerária bem podia ser : A Morte é Bela.

  2. Konigvs says:

    Já escrevi por aí num fórum qualquer como nos dias de hoje se esconde a morte, varre-se para debaixo de tapete e faz-se de conta que não existe para que as pessoas possam continuar a acreditar que são imortais. “Ai eu não vou ao funeral para guardar boas memórias da pessoa” ouve-se agora. Tretas. Fui ao funeral do meu pai, da minha avó, do meu avô, e a imagem que lembro deles não é a recordação de um corpo frio num caixão, nem nada que se pareça. Quando me lembro deles, lembro-me deles em vida. Claro que ir a um funeral não é coisa agradável, pois não é, mas ir é como que uma última homenagem que prestamos à pessoa, e ir faz parte do processo de luto.

    Eu depois de morto estou-me nas tintas para o que vão fazer com o meu corpo, já não preciso dele, até o podem reciclar para fazer sabão que não me interessa minimamente. Mas já falei sobre isso cá em casa, e só há uma coisa que faço questão: não ter nenhum padre por perto – é verdade que aqui na aldeia morrer é sinónimo de cerimónia fúnebre com direito a padre, missa, procissão, cruz, opas e bandeiras e essas trapalhadas católicas, que dispenso. Deixem-me ir descansadinho para o inferno tá bem?

    Mas é verdade que séculos depois da igreja ter inventado o capitalismo com as indulgências, este chegou agora também aos funerais. Já tinha chegado aos cemitérios, porque até na “última morada” as assoalhadas são bem diferentes, uns têm direito a jazigo, outros a pedras mármore com direito a esculturas, e outros a um monte de terra. Ao menos a morte, essa sim é bastante democrata e incorruptível, vão todos com o caralho tanto faz que sejam ricos ou pobres.

  3. Fazer um contrato para o nosso funeral, em vida, não é coisa assim tão incomum, na Alemanha, onde vivo. Um tio (alemão) do meu marido deixou tudo pago, com a indicação de ser cremado e de as suas cinzas serem atiradas ao mar. Assim se fez, sem despesas adicionais.

    A morte é um assunto muito incómodo, mas, no fundo, a morte é tão natural como a vida. Toda a gente nasce, toda a gente morre. Há quem diga, pelo menos, por aqui (e em círculos religiosos) que devia ser tema mais abordado. Até as crianças deveriam aprender a falar da morte de maneira mais natural, tendo em vista, claro, os métodos mais indicados para elas. É possível. Já ouvi falar, por exemplo, dos métodos aplicados nos hospícios de crianças com doenças incuráveis. A família, os irmãos, a própria criança, são preparados da melhor maneira possível.

    É mórbido, eu sei, é triste. Mas é uma coisa que se passa todos os dias, a todas as horas.

  4. Deixo dois parágrafos para amanhã. Já encolhi tanto que, daqui a nada, desapareço. Estava eu ali ao lado numa animada conversa sobre cinema e chamas-me tu para eu saber a quantos graus vai ser o meu assado :((

  5. Orvalho says:

    Oxalá tudo isto nos obrigue a pensar sobre a morte, sobre a nossa morte …
    Eu voto nesta:

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=xAI3C6jIXWw

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