As broncas previsíveis da Parque Escolar

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«Os alunos da Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa, poderão não voltar a ter aulas de Educação Física este ano lectivo», explicava-se ontem no Público. «Empreitada de 21 milhões de euros deixa escola a braços com inundações», adiantava-se naquele jornal. E no entanto muitos foram os que advertiram para o que estava a acontecer, quando estava a acontecer. Na António Arroio, as aulas decorreram durante longos meses (vários anos lectivos) em salas improvisadas nuns contentores que a Parque Escolar alinhou nas imediações do edifício da escola.

Há três anos, fiz uma reportagem sobre a vida política nas escolas. Um dos temas a que não pude fugir foi justamente o das obras da Parque Escolar, um consórcio de privados a quem José Sócrates encomendou a requalificação de mais de três centenas de escolas portuguesas – precisassem elas ou não de obras -, oferecendo-lhes também um lugar na gestão dessas escolas (!). No decurso desse programa destruidor da memória dos lugares, várias escolas centenárias perderam os seus materiais nobres, os seus bens patrimoniais, a memória material desses lugares a que a Parque Escolar matou a identidade arquitectónica, para lá pôr, usando materiais pobres e baratos, coisas muito modernas mas muitas vezes sem aplicação funcional. Foi o caso do famoso deck da Escola de Gil Vicente, em Lisboa, um espaço ao ar livre por cima da biblioteca da escola, mas que os alunos não podiam usar por falta de insonorização. E nessa que é uma das mais antigas escolas de Lisboa, vi escadarias e portas de madeiras antigas arrancadas com a raiva das pressas sem razão de ser, e empilhadas em amontoados de pedaços grandes de memória que doravante apenas os textos e as imagens poderiam documentar. E a urgência dessa modernização fazia adivinhar o pior, embora nem tudo do pior se tenha já revelado.

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