Às mulheres do matadouro

Num trabalho muuiiito precário que tive há anos, tocou-me, certo dia, ir em serviço a um matadouro.  Por essa época, eu fazia parte de uma equipa que executava (termo apropriado) no terreno aquilo que os piores criativos publicitários de todos os tempos haviam concebido nos seus cubículos bafientos de humidade e fumo de tabaco. Eram campanhas portentosas, originalíssimas, como a que se fez para certa marca de palitos, cujo slogan era “X, o palito de design europeu”. Abstenho-me de dizer a marca porque, para meu espanto, ainda existe.

As criaturas criativas tinham varrido o Portugal esquecido, aquele ao qual jamais chegavam propostas de publicidade televisiva, e tinham arrebanhado contratos a dar com um pau. Pelas encostas da Alcongosta, no Fundão, em Castelo Branco, Vila Velha de Ródão, Vila de Rei, até nas terreolas que tanto nos custava descobrir no mapa, não faltava quem quisesse anunciar o seu negócio, levantado do chão com mãos calejadas de trabalho ou alavancado às pressas por um fundo comunitário. Vai daí, toca a contratar (é uma forma de dizer) uns quantos imberbes desempregados e a fazê-los correr as terras da Beira Baixa, munidos de esboços de guião e câmara de vídeo, muita paciência e ainda mais ingenuidade. O salário era curto, mas no fim de cada semana não me faltavam as histórias para contar aos amigos.

Se houve episódio que não consegui esquecer foi esse da visita ao matadouro. Exactamente, o dono de um matadouro em certa localidade da Beira Baixa contratou a realização e emissão de um anúncio televisivo, um magnífico spot sobre a sua unidade industrial, e, tendo esperado, já com alguma desconfiança, que alguém lá aparecesse para recolher as imagens, não percebeu as hesitações da equipa que, olhando em volta, com indisfarçado horror, não sabia que filmar. Um matadouro é um matadouro, e não preciso de armar-me em Gertrude Stein para dizer-vos que é um matadouro. Não há de nada de bonito num matadouro. Se vos calha em sorte irem ao matadouro em dia de abate de cabras com brucelose é ainda menos bonito, e nós tivemos essa sorte.

Na sala de evisceração (poesia pura), as cabras estavam penduradas pelas patas traseiras, já mortas, numa longa linha que atravessava a sala, enquanto duas mulheres, cada uma começando por um extremo e avançando para o centro, iam esventrando os animais, um a um, com um desses facalhões enormes que só se vêem nos filmes de terror. Cravavam a faca e deslizavam-na pelo ventre do animal, gestos rápidos, sem hesitações. As vísceras caíam para uma bacia, elas limpavam o interior do animal, cortando as vísceras que restavam, depois empurravam a bacia com o pé em direcção ao animal do lado e repetiam a operação. Os movimentos eram rápidos e precisos. O cheiro era nauseabundo e até o proprietário, um tanto envergonhado, veio sussurrar-me que era por causa da brucelose, normalmente não seria tão intenso.

Nunca me esqueci dessas mulheres. Eram parecidas, podiam ser da mesma família. Magras, rostos afilados, olhos brilhantes, expressão dura. Idade incerta, entre os 30 e os 40 anos. Para mim, copinho de leite urbano em digressão pelo interior, não podiam deixar de olhar com desconfiança, embora não com antipatia. Não se fez uma única imagem daquela sala, claro. A bem do negócio, há coisas que não devem ser mostradas. O dono não percebeu por que não se havia de filmar ali, que esperávamos que houvesse para filmar num matadouro? Conduziu-nos à sala do lado, uma enorme arca frigorífica onde se alinhavam umas duas centenas de porcos pendurados do tecto por ganchos metálicos. Gravaram-se umas imagens dos porcos, perante o olhar mais tranquilo e inegavelmente orgulhoso do dono. Ele tinha razão, que esperávamos filmar num matadouro? Fazia frio e, enquanto o meu colega filmava, eu olhava, numa espécie de transe apatetado, para os porcos suspensos no ar. Nas noites de pesadelo, por vezes ainda reconheço, no enredo desses sonhos, fragmentos de imagens do matadouro.

Muitas vezes me tenho perguntado se aquelas mulheres continuam lá, se passaram todos estes anos a fazer o mesmo trabalho, de faca em punho. Uma mulher que passa o dia a estripar animais consegue limpar da pele o cheiro que traz do matadouro? Mais importante do que isso, consegue esquecê-lo e convencer-se de que não o traz colado à pele? Consegue ser terna ou voluptuosa, consegue pintar as unhas, consegue enfeitar com anéis os dedos que todos os dias empunham a faca?

Não me ocorreu perguntar ao dono porque eram só mulheres a executar aquela função. Havia homens a movimentar cargas pesadas, mas não vi nenhum a manusear facas. Saí agoniada e ansiosa por afastar-me dali. Elas ficaram e talvez ainda lá estejam. Um cínico poderia perguntar-me quem me garante que elas não gostam, quem pode assegurar que elas não apreciam manejar uma faca e esventrar animais que já estão mortos, que já ninguém no mundo pode salvar, e desse modo aplacar as suas frustrações quotidianas?

Acredito que essas mulheres não gostariam de ser evocadas com sentimentalismos, mas também não acho que se sentissem cómodas com esse retrato de carrascas empedernidas. Quando se fala do interior e de quem lá vive, e se traçam os habituais retratos estereotipados dos rostos da interioridade, lembro-me das mulheres do matadouro e do seu trabalho. Talvez ainda lá estejam, de faca em punho, e em que ocuparão os pensamentos enquanto a lâmina trabalha?

Comments

  1. Caríssima Carla, para si as palavras são coisas vivas que compõem belas sinfonias de vida! São notas de movimento e de cor que incorporam o sentir, a orquestra da vida!

    Parabéns pelo excelente post!

  2. sinaizdefumo says:

    Muito bom

  3. dariosreport says:

    uma ode

  4. Mais um dos tais que têm que ser publicados. Só tu conseguirias uma obra-prima sobre tal cenário.

  5. Bom.

  6. Um hino

  7. José Pinto says:

    Bom texto. Há neste pais, no interior e no litoral, mulheres (e homens) muito valentes e trabalhadores. Fazem o que tem que ser feito, talvez não sem questionar, com maior ou menor entusiasmo, mas cada um tem que fazer o que tem que ser feito. Se calhar isso impressiona bastante mais os recém chegados à vida profissional e adulta, mas a mim parece-me que os nossos jovens, esses sim, são acantonados e isolados num mundo super-protegido e irreal, que só torna o inevitável embate com a realidade mais brusco e desconcertante. Todos vivemos num ambiente que nos é adverso, e temos que lutar para prevalecer. De facto dificilmente se encontra algo bonito num matadouro, numa etar, em muitas fábricas e oficinas, etc. Mas a realidade é assim mesmo, e nem tudo no mundo poderá ser bonito ou poético.

Trackbacks

  1. […] Excelente texto sobre gente e ambientes que por norma mais se evitam que retratam; de Carla Remualdo no Aventar: Às mulheres do matadouro […]

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