O camilourenço, a História e a Economia

Camilo Lourenço camilourenço, dicionarizado a preceito pelo João José Cardoso, desde há muito demonstrou ser um provocador mentecapto. Saiu a terreiro com nova imbecilidade, hostilizando a História como área do conhecimento científico humano – área sublime, entendo eu.

Sou economista, membro da respectiva ordem. Em defesa da verdade, mais do que da ‘minha dama’, entendo que, reagir com fragilidade a Camilo Lourenço camilourenço, para desvalorizar a Economia, como ciência social, é igualmente censurável. A polémica desce a baixo nível e naturalmente ao mundo da subjectividade. Mais a mais, invocando Margaret Tatcher, engenheira química, que, em sintonia com Reagan, foi grande obreira da desregulação dos mercados originária da crise sistémica. Registe-se-lhe também o feito de fundadora do modelo das PPP que o advogado e trabalhista Blair aproveitou e outros disseminaram pela Europa – de Cavaco a Sócrates tivemos, entre nós, excelentes intérpretes dessa ruid(n)osa melodia, pela qual estamos e vamos pagar milhares de milhões.

No curso que frequentei, além de Sociologia, Psicologia Social e Psicossociologia e outras áreas sociais, integrava-se a disciplina de História Económica e Social, ministrada pela Prof.ª Miriam Halpern Pereira, doutorada pela Sorbonne, universidade onde foi assistente do Prof. Pierre de Vilar. A ideia de que os economistas estudam só números é imprecisa, embora os mais responsáveis pela imagem sejam eles próprios.

A fim de se estabelecer um debate sério e objectivo acerca de Economia, como ciência social, é aconselhável fazer algumas leituras de estudiosos independentes e credíveis. Um dos livros que recomendo é de autoria do Prof. João Caraça, com o título ‘O que é Ciência’, editado por Quimera Editores. Ao abordar o percurso histórico e evolução do conhecimento da humanidade, na página 41, edição de 2001, o autor escreve:

A revolução comercial e industrial que tem lugar na Europa a partir do Séc. XVIII, baseada em pressupostos do domínio económico, levando ao abaixamento do custo do transporte de mercadorias, permitindo e necessitando da utilização intensiva de máquinas e de fontes de energia diversificadas, vem tornar favorável o quadro da expansão e consolidação de uma nova área cognitiva, ligada às necessidades de novos recursos “naturais” e à sua transformação em produtos em crescente quantidade. [Economia].

Com o andar dos tempos, e o domínio do ‘sistema financeiro internacional’ sobre o ‘sistema económico’, a profissão de economista, para além dos formados em Economia (macroeconomia) e Gestão (microeconomia), registou uma distinção entre ‘economistas’ e ‘financeiros’, todos classificados como economistas – este tema é dissecado por George Cooper em ‘The Origin of Financial Crises’, editado pela Vintage Books, NY.

Karl Marx, odiado por muitos que sobrepõem a mesquinhez política ao saber, dizia-se economista e filósofo. A doutrina marxista da ‘mais-valia’ foi desenvolvida com base na teoria do lucro de David Ricardo, que viveu entre os fins do Séc. XVIII e princípios do Séc. XIX, tendo sido um dos fundadores da ‘escola clássica inglesa de economia política’ –  a doutrina marxista, nesse aspecto, permanece actual, não implicando a opção comunista.

Claro que não se pode exigir ao Camilo Lourenço camilourenço que saiba coisas destas; todavia, universitários da área de História, desqualificar levianamente a Economia, como ciência social, não deixa de me surpreender.

Comments

  1. João Paz says:

    Obrigado Carlos Fonseca. Havia coisas das muitas que disse que já sabia mas havia outras tantas que desconhecia.
    Mesmo que não o queira assumir por muitas razões posssíveis (humildade digna de quem sabe por exemplo) foi de facto uma lição a muitos níveis que aprecio sobremaneira.

  2. Carlos Fonseca says:

    João Paz,
    Nada tem a agradecer. Sem falsa modéstia, gosto de repartir alguma coisa do que sei com o meu semelhante. Mas aprecio ainda mais aprender com quem sabe.
    Como dizia um professor de matemática que tive no liceu, “só sei que o que sei é um infinitésimo daquilo que não sei”.
    Obrigado pelo comentário.

  3. João Paz says:

    “só sei que o que sei é um infinitésimo daquilo que não sei”.
    Notável síntese, o seu professor tinha a humildade, o bom senso e, muito provávelmente, o saber dignos de um, sábio.

  4. Nascimento says:

    ESTA É PRÓ CAMELO….ISSO É QUE ELE IA ADORAR…EMPREENDEDORISMO DO MELHOR…COME PIZZA CAMELO
    http://www.dailymotion.com/video/x9prr9_grolandsat-pizza12_fun


  5. subscrevo !

    No entanto, pessoalmente acho que os economistas são muito úteis ao poder mas muitas vezes são menos úteis “no poder”.
    Explico : o Salazar, o Cavaco e tantos outros mostraram cabalmente que não basta ser economista para ser bom governante.
    Mas isso não quer dizer que o facto de ser economista seja razão para se não ser bom governante. Apenas que ser-se apenas economista não faz um bom governante.

    Mas o que é certo e sabido é que nenhum “gestor” pode ser bom governante. A própria miopia inerente à sua formação o impede para tal.
    Ora, aquilo a que se chama habitualmente um “economista”, hoje em dia, não passa de um gestor.
    O Berlusconi, o “Camelo” Lourenço são bons exemplos disso.

    Quanto à História, sem o seu conhecimento não pode, evidentemente, haver nem economistas nem governantes, ou até bons gestores.

    Tito Lívio Santos Mota

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