O que é Português é bom, o que é do Norte é ainda melhor


Tenho andado um pouco arredada das Aventadelas. Não porque não haja motivos de sobra para as minhas palavras menos simpáticas ou porque tenha passado a acreditar na chusma que manda nesta república dos bananas. Também não foi por ter baixado os braços. Isso, nunca!

Simplesmente, tenho feito outras coisas nos meus tempos menos ocupados. Uma delas foi comemorar a passagem de mais um aniversário. Tive a sorte de poder passar o dia rodeada de pessoas de quem gosto muito. E tive a sorte de receber alguns presentes que foram autênticas surpresas para mim, quase tudo feito em Portugal, muitas feitas por uma família de artesãs e artistas que admiro.

Uma das prendas, a mais surpreendente e inesperada, foi uma saia de uma estilista, ou designer de moda, como agora se diz. Tem loja no Porto, pois claro, mais concretamente na Rua de Passos Manuel. Será que adivinho aí já alguns sorrisinhos de reconhecimento do lugar de que falo?

A loja chamou-se em tempos Butikão. Agora é simplesmente Laura Artur, o nome da criatividade de quem faz roupa «como quem faz o amor», para usar uma expressão muito em voga nos dias que correm. Cada artigo é elaborado com carinho, com o amor de quem faz isto há muitos anos e gosta do que faz.

Para quem lá entra, cada peça de vestuário idealizado por aquela senhora e produzido pelas hábeis mãos das costureiras que certamente terá sob a sua alçada, é uma obra de arte. Uma jóia única e intemporal.

Sabemos que compramos uma saia, um casaco, um vestido, uma túnica e que vamos ter o privilégio de vestir uma peça única, que durará alguns anos e estará sempre na moda, de tal modo é especial e artística. E nós, dentro de tão belas obras, sentimo-nos também obras de arte, monumentos à beleza feminina.

O primeiro vestido que lá comprei ainda existe e terá uns doze anos de vida. Da primeira vez que o mandei para limpar a seco, as funcionárias da lavandaria perguntaram-me onde o tinha comprado. Estavam apaixonadas, tal como eu me apaixonei. Levei esse vestido a um casamento em Paris, cuja boda se celebrou numa daquelas maisons seculares sobre o Sena, onde serviam haute cuisine. A sua beleza foi elogiada por alguns dos convidados e até a cabeleireira parisiense que viu fotos para saber como eu queria o cabelo, ficou surpreendida.

Ontem fui à Laura Artur para pedir o arranjo da saia que recebi de prenda. Eu sou baixinha e a saia terá sido idealizada para uma rapariga bem mais interessante do que eu em termos de medidas.

Foi mesmo a artista que me recebeu. Os tempos estão difíceis e, embora já não seja muito jovem e a actividade criativa certamente lhe tome bastante do seu tempo, já não tem funcionária na loja. Recebeu-me com uma simpatia extrema.

Confesso que, apesar de adorar as obras, não tinha muito boa opinião da artista, apesar de nunca ter falado com ela. Achava-a distante, altiva, uma pessoa que, por estar tão habituada a circular num meio de belezas e encantos, nem reparasse sequer em comuns mortais como eu própria. Não podia estar mais enganada. Parvoíces de quem vai por ideias feitas…

Em conversa, queixei-me que a loja não tem nem site com loja online nem página no Facebook, o que é imperdoável nos dias de hoje. Disse que tinha colocado fotos da saia no Facebook e a senhora sorriu. Perguntou o meu nome. Que me ia procurar e pedir amizade. Porque a loja não tem Facebook, mas a artista tem. Fez-me pena. Faz-me pena que uma loja com tanto potencial não esteja presente na rede, onde teria certamente acesso a muitos possíveis clientes e onde muitos possíveis clientes, muitas mulheres que buscam incessantemente uma roupa que as faça sentir especiais, se tomariam de amores.

A Dona Laura Artur é uma simpatia. Mostrou-me todas as roupas feitas por ela – «Tudo feito cá». Todas lindas e prontamente elogiadas por mim. Falou-me da necessidade que agora tem de vender roupas de outras marcas – «é preciso pagar a renda…». Mostrou a sua tristeza e desânimo porque agora poucas pessoas compram as peças que ela idealiza com tanto carinho e paixão. Pelos vistos, acham que não é moderno. «Uma pessoa acaba por desanimar, sabe? Fazemos cinco ou seis peças e depois desanimamos» Como é isso possível???? Vejam as fotos e digam-me se aquelas obras de arte são ou não são únicas. Digam-me se há moda para aquilo. Não há.

E quanto aos preços? Pois, são um bocadinho elevados, é certo. Sobretudo nos tempos que correm. São jóias que só se podem comprar em momentos especiais e às vezes nem isso. Mas que se podem usar sempre. E claro que uma túnica é muito menos dispendiosa do que uma saia de retalhos toda bordada com apliques atrás e à frente. Ainda assim, claro que nem todos temos capacidade financeira para lá comprar alguma coisa. Eu só tive uma saia porque alguém se lembrou de ma oferecer. Eu nunca compraria. Não nesta fase da minha vida, em que nem trabalho certo tenho.  Mas compraria noutras alturas. Como comprei.

Comments

  1. Maria Ramos says:

    São roupas muito bonitas. Roupas de cigarra. É com elas que vai fazer o seu voluntariado e as suas caminhadas?


    • Dizia alguém que é compreendendo a diferença que podemos ser tolerantes sem que os nossos valores sejam violados.
      Mas, convenhamos, há momentos em que até a tolerância tem limites: quando o nosso alegado sentido de humor se afirma pela boçalidade.


  2. PARABÉNS E FAÇA MUITOS COM MUITA SAÚDE E SORTE E QUE O DINHEIRO TAMBÉM NÃO LHE FALTE E VOLTE Á LUTA É PRECISO MALHAR NESTAS SEITAS . FELICIDADES .
    NÃO SOU DO NORTE , MAS GOSTO MUITO DO NORTE DO NOS-
    SO PAÍS , QUE TODO ELE PODERIA SER MARAVILHOSO .
    MAS OS CULPADOS SOMOS NÓS POR QUE DEIXAMOS , POR- QUE CONSENTIMOS .

  3. trasdaponte says:

    Começando pelo Pinto da Costatrasdaponteseixal@

  4. Maria says:

    Ainda bem que ainda existe essa loja, agora denominada Laura Artur, há cerca de 20 anos fui cliente e pensava que tinha encerrado, na minha próxima ida ao Porto irei visitá-la.
    Muitos parabéns

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