O Tó da Farmácia partiu

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O Tó da Farmácia deu, ontem, entrada na sua última morada. Tinha 51 anos, e o caranguejo da morte abocanhou-lhe o pâncreas, chupou-o até ao osso e entregou-o à família para um último adeus, com aquele ar de cera que anuncia a passagem.

Um simples telefonema, uma mensagem, e a notícia era, então, definitiva para todo o clã: o Tó, o mais certinho de todos, tinha hora marcada numa capela mortuária, na mesma igreja que quase todos havíamos frequentado.

Eu era mais velho, 10 anos naquele tempo que eternidade, tinha quarto alugado na casa de um deles, estudava e trabalhava. Olhavam-me de soslaio, era um velho. No regresso das aulas, na Praça, lá estavam eles, a jogar à bola com os bancos por balizas, a preparar a última estória para memória futura, a aprenderem o primeiro sabor do cigarro. No mesmo sítio, onde, mais tarde, se iniciaram nos drunfes com cerveja, na ganza, no chuto. Outros que não. Ficava por ali um pouco, lançando olhares às sopeiras, titubeando uns piropos, naquela aprendizagem que todos fazíamos no jardim público ao pé de casa.

O filho da senhora que me alugava o quarto, normalmente, regressava comigo. Era o combinado, quando eu viesse das aulas nocturnas, ele tinha que entrar. Havia sempre uma última aula que acabava, convenientemente, mais tarde, e ele tinha, assim, desculpa para o atraso.

Entretanto, a faculdade, a mudança de quarto, a tropa. Eles cresceram e foram partindo. Quando regressei, anos mais tarde, às memórias do lugar, quase só aquele que ficou como meu irmão mais novo até hoje, num elo que se estende pelo filho, de quem sou padrinho.

Foi dele o telefonema: hoje, é para te dar uma má notícia, o nosso almoço, combinado para amanhã, mantém-se, mas, depois, temos que ir despedir-nos do Tó, o funeral é às duas.

Foram aparecendo. No final, seriam uns 30. Mais? Abraços de reencontro, em alguns casos com mais de 10 anos de intervalo,15, 20. Outros, desde o dia anterior, nos bombeiros; desde sábado, na danceteria; desde há um mês, no almoço, na Rua do Paraíso. Todos no primeiro lustro dos cinquenta anos, como o Tó.

A vida espelhava-se na cara de alguns, difícil, a puta da vida, mas tão buliçosa. Sulcos que ainda ostentavam a passagem de noites mal dormidas ou ressacas de álcool e droga. Que foi de um tempo que passou, ou que permanece. Outros ostentavam barrigas bem tratadas, não tão difícil a vida, apenas interessante. Vícios que foram e não voltaram. E havia aqueles para quem a vida até foi boa, tão stressante esta lufa-lufa, não dá para parar. Ou os donos de obras, tudo quieto, este país, não sei. Havia os que, por detrás de um certo status, alegadamente alternativo, ostentavam etiquetas de marca, apenas o cabelo comprido, nunca alterado na aparência do gel, e aquele ar de quem nasceu na ilha e nunca perdeu o jeito, apesar de todo o dinheiro. Havia os que vestiam fato completo, por dever de ofício ou de trabalho, bancários, quadros.

Lembras-te de quando éramos todos acólitos aqui?! Dividíamos o dinheiro dos funerais e íamos para trás da igreja jogar à coca?! Eu vim para acólito mais pelo campeonato de matraquilhos. Eu vim porque estávamos todos cá. Era bom, sentíamo-nos protegidos, todos juntos. Eu, porque não tinha para onde ir.

E tu que fazes? Não faço. E tu? Andei por aí, nos comandos, na legião estrangeira, enchi-me daquilo, voltei, mas continuo a fazer karaté todos os dias. Eu?! Fui vendedor, deixou de dar na minha área, faço umas coisitas por conta própria. Ah! Eu ainda nos cafés, estás a ver ali a carrinha?! Eu nos medicamentos ainda, vai dando sempre, graças a Deus. Pela Holanda, vim, por Angola, já cá estou, à espera de voltar a sair. Olha, eu, que tantos cursos tirei, tanta formação fiz, tanto me preparei para aquilo de que gostava, ando agora de motorista de pesados de passageiros. E o Tó, o mais certinho de todos, quase sem vícios, ali, deitado, da cor da cera, à espera da paz final, no final das orações da praxe, encomenda feita para o Além.

Estamos todos passados da vida. Os que conseguiram ter passado e, vá lá, têm presente. Os que, mesmo com passado, viram o presente fugir-lhes. Os que se esqueceram do que foi o passado que não tiveram e o presente que continua a ser-lhes negado. Ou aquele que se mantém à sombra da velha igreja e é arrumador de carros. Sim, aquele, ali, o único que não se juntou. Aquele que, conhecendo todos, olhava para tudo como se de novo, ou velho, uma coisa estranha, a última era marada com certeza, agarrado que sou sem emenda. Talvez tivesse uma vaga ideia de quem eram todos, seria?! Mas os carros, ó chefe, ali á frente, vire tudo… e quem são aqueles marmanjos todos, ali, a falar enquanto corre a missa de corpo presente, diria que alguns me dão ares.

Coitado dele, não nos conhece, às vezes conhece, quando consegue espreitar por detrás da ressaca, um caco, coitado. E o Tó, o mais certinho de todos, a sair da igreja para o cemitério.

Entretanto, o choro, os gritos. Da irmã, eram tão chegados. Grande mulher, a cuidar da mãe, da sogra. O marido também foi tão cedo. Mas ela aguentou firme. Não, não aguentou: chorava, o adeus rompia-lhe os olhos, meu irmão querido, fica bem, alisem a terra ali, com cuidado, assim está bem. Ai, vou ter tantas saudades tuas. E o outro irmão, o mais velho, pouco mais, dois, três anos, sem uma lágrima, como que a dizer um homem não chora e estou entre amigos que nunca me viram chorar, estou outra vez com a minha gente, não choro. E o Tó, o meu irmão, o mais certinho, ali, a ser enterrado.

Os mais velhos também estiveram. Guardiões que foram de tantas histórias dos putos do jardim, das ilhas, da rua, hoje todos cinquentões, lembras-te quando… E o respeito por eles do clã: coitado o que ele sofreu por nossa causa, a fruta que lhe roubávamos, a malandrices que lhe fizemos, mas está com bom aspecto, ou não, tão velhinho, pois, já era tão velho quando nós ainda andávamos de calções. Tem praí noventa. E tais, de certeza, tão velho que já era naquele tempo.

E o Tó, o mais certinho, o que nunca deu consumições, ali, com a terra por cima, em paz finalmente. Ou ainda não, faltam as artes finais do coveiro.

Ou a estória do Opel Kadett, era preciso ver se tinha gasolina, acendo o isqueiro e aquilo incendiou. O meu “irmão” a contar-me: eu, no banco de trás, essa merda está a arder, fujam. E o artista, calma, eu apago isto, e apaguei, e lá fomos onde tínhamos que ir, onde? Ao bailarico, não, à Ribeira, uns drunfes ainda sem turistas, só nossa a Ribeira nas tardes de sábado, ao sol, não sei, ou fomos a Gaia. Talvez. Não interessa, o que interessa é que fomos. E apaguei a labareda. E o Tó, o mais certinho, o único certinho, por supuesto, lá foi, lá está, debaixo da terra há 15 minutos. Só, pela primeira vez desde que partiu.

Juro pela minha mãe, estava aqui na carteira, há meses. Estive para lhe dar sumiço. Abre a carteira e lá está a ponta de uma tablete acastanhada. Deixei-me disso, estava para aqui há meses, tirei-a já não sei a quem para um momento como este, em que a dor nos consome, mas, hoje, vai, em memória do Tó, o mais certinho, o que nunca se amarrou a não ser à farmácia, mais de quarenta anos, o mesmo emprego, o mesmo sítio, a dois passos de casa. Hoje, vai, a puta da ponta da tablete, em nome do Tó. Juro que estava aqui, na carteira, há meses. Hoje, vai uma cachimbada, foda-se! Pelo Tó.

E eu, merda, estou lúcido! E dói.

Enrolei um cigarro, foi uma garrafa de tinto para moer a sobremesa de queijo, já ao jantar, traga mais outra dose, e mais outra, já agora. Pelo Tó. Que não bebia e não me lembro se gostava de queijo. Eu e o meu “irmão”, que era do clã, fazemos isto algumas vezes. Queijo, queijo, queijo, amanteigado, da serra ou afim, e tinto. Ó chefe, mais umas tostas. Boa noite, Tó. Que a tua alma “requiescat in pace”, como dizia o clã, em latim, quando eram todos acólitos.

Comments


  1. Que o Tó, de quem nada conheço, repouse em paz, e que esta carta lhe chegue. Deve haver Net no Céu.

  2. Amadeu says:

    Por momentos pensei que o Armindo se referia ao grupo do meu bairro. Porra, a papel químico.
    A si, ao Tó e aos outros todos, os meus sentimentos de empatia.

  3. rosa maria says:

    e vamos tecendo histórias porque nada mais podemos fazer. aranhas nesta teia imensa. até ao ultimo dia. inesperado. sempre. haja memória que as guarde e ficaremos.

  4. Fernando Torres says:

    Bom texto!

    Na nossa idade, perder um amigo nessa idade é mau e bom!
    Pensemos no bom!

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