Não vão chatear o Camões

BXK8813_tumulo_de_luis_de_camoes_lisboa800Incapazes de uma abordagem ao mesmo tempo séria e holística da coisa educativa, os responsáveis pela Educação, políticos e não só, têm contribuído para a destruição do currículo, entre muitos outros malefícios provocados no sistema educativo.

Várias ideias (mal) feitas se foram instalando e ocupando demasiado espaço na reflexão sobre ou na concepção do currículo: ir ao encontro dos interesses dos alunos, transformar o lúdico na essência do acto de ensinar ou simplificar conteúdos ainda antes de se saber se são complicados. Em duas palavras: facilitismo e deslumbramento.

Ao comemorar vinte anos, a revista Visão resolveu pedir a José Luís Peixoto que transformasse em contos os cantos d’Os Lusíadas, publicitando a ideia de que o escritor irá actualizar a epopeia camoniana.

Há uns anos, Luísa Ducla Soares adaptou seis contos de Eça de Queirós, com o objectivo anunciado de que isso tornaria possível a leitura dos textos a alunos da Escola Primária.

Qualquer um de nós pode contar as mesmas histórias que Camões e Eça contaram. Podemos, até, abandonando qualquer modéstia, pôr a hipótese de que poderíamos contá-las melhor do que qualquer um deles. O que não podemos é acreditar que simplificar ou actualizar textos permitirá conhecê-los melhor ou que essas simplificações e actualizações poderão substituir os textos.

Já fui acusado de ser conservador, o que me envaidece, num tempo em que a novidade é vista como uma entidade absolutamente virtuosa. Apesar disso, devo declarar que não tenho problemas nenhuns em incluir, nas minhas aulas, futebol, telenovelas, piadas, disparates, filmes ou pauerpointes, entre outras modernices, sempre que venham a propósito.

Nada disso, no entanto, substitui o acto supremo e fundamental, frequentemente soporífero e bocejante, de percorrer os textos, de descobrir o sentido de palavras, de relacionar o texto com a época e com o sítio, até ao momento em que um conjunto obscuro de letras adquire significado, espessura, sabor, sem perder tempo, porque cada texto pertence também a um tempo.

Quando entro n’Os Lusíadas, não vou só procura de Vasco da Gama, de Inês de Castro ou de Fernão Veloso. Vou também em busca de uma voz chamada Camões. Se não a encontrar, qualquer manual de História me pode mostrar a descoberta do caminho marítimo para a Índia ou explicar as razões que levaram D. Afonso IV a mandar matar a amada do filho. Se não encontrar Camões n’Os Lusíadas, vou lá fazer o quê?

Comments

  1. Francisco Queiroz says:

    Totalmente de acordo. Vamos assistindo a uma onda de destruição dos valores mais nobres da Portugalidade. Constituem exemplos dessa destruição: a transformação forçada de estabelecimentos de ensino militar, a aceitação de faltas de respeito pela Constituição em vigor e a teimosia quanto ao AO10.
    Urge pois a actuação, conforme a do autor do texto que comento, de cada vez maior número de pessoas para provocar um alerta.

  2. xico says:

    Você não vai lá fazer nada, como aliás as pessoas de bom senso. Outros vão lá em busca de uma mina de ouro.

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