Não peças desculpa, Ricardo

Não peças desculpa, Ricardo, por lutares pelos teus direitos, pelo teu trabalho e por não quereres deitar pela janela fora vinte anos da tua vida.

Não peças desculpa, Ricardo, por fazeres greve, mesmo que eu duvide que muda alguma coisa, não peças desculpa por quereres que oiçam a tua voz, mesmo se me parece que gritas para uma parede surda e inflexível.

Mas não faças greve apenas por ti, Ricardo, nem apenas pelas tuas filhas (já é muito), nem apenas pelos professores, pelos funcionários públicos, pelos sindicalizados, pelos empregados, pelos desempregados. Faz greve pelo país, pela justiça, pela dignidade cidadã.

Faz greve pelo país que emigra, pelos juros que as tuas filhas vão continuar a pagar depois de deixares de trabalhar, pela falta de trabalho com que os teus alunos se vão confrontar, pelas conquistas civilizacionais das gerações que te antecederam e que agora, subitamente, são postas em causa.

Faz greve pelo país que fecha portas, pelos centros das cidades cheios de lojas falidas, pelos cidadãos independentes que, em vez de procurarem trabalho no estado e nas empresas, tentaram criar os seus próprios empregos e agora nem subsídio de desemprego recebem.

Faz greve por uma vida que não se esgote no trabalho, na competitividade, na produtividade. Faz greve por uma matriz inclusiva, redistributiva, mediterrânica, com direito ao sonho, ao lazer e ao prazer.

Faz greve contra. Contra a concentração da riqueza, contra a robotização da produção, contra o controlo da política pela economia, contra a negação das evidências sociais, ambientais, corporativas. Faz greve contra a exclusão, contra os juros usurários, contra o desmantelamento dos bens comuns, contra a entrega de património lucrativo do estado – o estado somos nós – aos plutocratas, contra os servos imediatistas dos plutocratas.

Faz greve contra os partidos medíocres infestados de carreiristas, contra as guerrinhas partidárias, contra as mentiras oficiais, contra os memorandos “mal desenhados”, contra os boys, contra os vendilhões acéfalos, contra a privatização da água, contra o registo de sementes, contra a normalização dos produtos, das práticas culturais, dos estilos de vida e contra as diferenças de tratamento dos países apesar da dita “normalização”.

Faz greve, Ricardo, contra um país desesperado e triste, sem esperança no futuro, com medo do presente.

Faz greve por tudo isso, Ricardo, contra tudo isso, só não peças desculpa porque, se há quem nos deva muito mais do que um mero pedido de desculpa, esse alguém não és tu, de certeza.

Comments

  1. produto says:

    Para os centros das cidades deixarem de estar cheios de lojas falidas seria necessário regular os horários dos centros comerciais, fechá-los aos domingos, diminuir o horário nos restantes dias.
    Acho bem, duvido que a maior daqui concorde com isso, mas acho bem.

  2. Fernando says:

    O Ricardo que não se preocupe, o defensor do povo infiltrou-se na reunião dos banqueiros e outros elitistas offshore.
    Na reunião Bilderberg deste ano o xuxa (In)Seguro não vai deixar pedra sobre pedra de tanto defender os interesses do povo!!

    Seguro e Portas vão representar Portugal no encontro de Bilderberg

    http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/seguro_e_portas_vao_representar_portugal_no_encontro_de_bilderberg.html

  3. Maquiavel says:

    Grande artigo, parabéns!

  4. adelinoferreira says:

    “Quando me elevo,os outros vêem-me pequenino.
    Porque não sabem voar”
    Eu sou daqueles que não sei voar.
    Obrigado Pedro Correia, fizeste-me voar!

  5. Carlos Fonseca says:

    Pedro, impossível discordar do texto, mesmo de um pormenor que seja. Felicito-te com a amizade e a estima que me mereces.

  6. Maria says:

    Parabéns Pedro Correia por esta maravilhosa mensagem dirigida ao Ricardo e no fundo a todos nós.


  7. Obrigado a todos pelos comentários.
    Um abraço para ti, Carlos.

  8. celesteramos.36@gmail.com, says:

    interessantemente contra o habitual em que todos os intervenientes andam aos coices uns aos outros, neste caso parecem muito cordados aos beijos e abraços, independentemente do caos do AO e des-OA – boa – não há crise

  9. Ricardo Santos Pinto says:

    Obrigado pelo texto, Pedro. Suponho que percebeste que o título do meu post era uma ironia…

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