João Pinto e Castro sobre as patologias da sociedade portuguesa [Educação]

«(…) Por vezes, o exercício retrospectivo faz-se de uma memória crítica (…). O economista João Pinto e Castro (aluno que passou entre 1961 e 1967 pelas três casas do Camões – Alvalade, Areeiro e a sede) pensa que a reflexão em torno do «estilo autoritário e prepotente do lendário reitor Sérvulo Correia», se tem prestado a interpretações claramente regeneradoras de uma má memória que o tempo tornou incómoda. Reabilitação que, transformando os valores da época e do regime em renovados bons exemplos, Pinto e Castro considera espelhar a «nostalgia do autoritarismo, hoje muito em voga». Valores que absolutamente questiona, considerando-os geradores «de nefastas consequências».

«A verdade é que o sistema vigente no Liceu Camões só [serviu] para fomentar a falsidade, a dissimulação, a mesquinhez, o culto das aparências, a hipocrisia, a subserviência, a ignorância e a ausência de sentido crítico – para não mencionar outras mais graves, […] e que continuam a ser, quarenta anos depois, as mais correntes patologias da sociedade portuguesa.»

«Escadas que não se podiam descer, outras que não se podiam subir, corredores por onde só podiam circular os alunos, outros reservados aos professores, obrigatoriedade de usar gravata por baixo da camisola de gola alta, proibição de correr no recreio, de frequentar cafés a menos de cem metros do liceu, de parar no jardim da Praça José Fontana – eis algumas das normas arbitrárias do regime de sistemática e quotidiana humilhação a que alunos e professores eram submetidos sob os mais variados pretextos. O absurdo era planeado ao mais ínfimo detalhe no Liceu Camões nesses anos de chumbo.»

«Em meados dos anos 60 (creio que precisamente em 1965) três quartos dos alunos da minha turma do Liceu Camões, secção do Areeiro, faltaram à exibição de ginástica programada para o dia 10 de Junho, Dia da Raça, no Estádio Nacional. No último dia de aulas fomos todos chamados à presença do reitor e sumariamente expulsos do liceu. Nas circunstâncias políticas da época, isto poderia, até certo ponto, ser considerado normal, dado que, no quadro da Mocidade Portuguesa, a nossa ausência equivalia a uma espécie de deserção. […] Apesar de, por razões de saúde, eu ter sido nesse ano dispensado da ginástica, fui expulso como os outros, sem apelo nem agravo. [Não] se pode dizer que essa decisão tivesse resultado de um equívoco ou de um impulso do momento, porque, embora o facto fosse de todos conhecido, e explicitamente alegado em minha defesa, ela não foi revogada nas semanas seguintes. Apenas três meses depois, já em Setembro, o vice-reitor Salvador do Carmo conseguiu finalmente a anulação da pena para todos os alunos.»

João Pinto e Castro (1950-2013), na sua contribuição para o livro Liceu de Camões – 100 anos, 100 testemunhos (Quimera, 2009). Um dos mais interessantes textos que recebi quando estava a fazer esse livro. Vai fazer falta, a sua visão desempoeirada sobre o Portugal imortal que por estes dias a minoria de governantes tenta fazer ressuscitar.

Comments


  1. o facto mais relevante para a missao das escolas é que a classificaçao das escolas tinha o 1º colegio a meio da tabela, cá bem para baixo e agora depois da escola “democraticamente” gerida, melhor paga que o privado as melhores escolas são as privadas e só tem piorado. Avaliaçoes só se todos passem a mestres.Tenham vergonha!!!

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