Meu Brasil brasileiro

O título – falta de imaginação – foi surripiado de ‘Aquarela do Brasil’ de João Gilberto. Gosto demais do Brasil. Se me é permitido o aviltamento antipatriótico, asseguro que não me causaria o menor desgosto ter nascido carioca, em vez de lisboeta… ah!, se no Rio morresse, me enterrassem na Lapinha.

As primeiras palavras deste escrito, a despeito do tom jocoso, devem ser interpretadas como sentimentos fraternos e solidários com o povo brasileiro, onde se contam alguns familiares próximos.

Ao longo de décadas, milhões de brasileiros têm vindo a sofrer dos efeitos do domínio de uma classe política corrupta, por vezes amparada em despóticos poderes militares. Antes Lula da Silva e agora Dilma Roussef pareciam ser finalmente a esperança para, ao ritmo do possível, propiciar aos brasileiros uma sociedade mais justa e equitativa na distribuição de rendimentos, criando um equilíbrio socioeconómico que jamais existiu.

Lula deu alguns passos nesse sentido, eliminando níveis de pobreza próximos da miséria. Todavia, o ‘mensalão’, onde pontificou José Alencar amigo chegado do nosso ex-ministro Relvas, acabou por ser fatal para ‘O Presidente Operário’. Inadmissível a corrupção registada.

Na euforia do efectivo desenvolvimento do Brasil – novas e múltiplas plataformas de petróleo, p.e. – Lula da Silva deixou a Dilma a pesada herança do ‘Mundial de Futebol de 2014’ e dos ‘Jogos Olímpicos no Rio em 2016’, obras que, em todos azimutes, sofrem do anátema de desvios de custos brutais e de actos de corrupção. Por sua vez, a acção política da presidenta arrefeceu no combate a injustiças sociais, em especial no domínio da pobreza.

Uma imaginada simples decisão de aumentar em 20 centavos o custo dos transportes públicos despoletou por todo o Brasil a revolta de dimensões conhecidas. O povão desceu à rua, mobilizada pelo poder da telecomunicação das redes sociais – Aznar, ao ser derrotado por Zapatero em 2004, foi das primeiras grandes vítimas das novas tecnologias de comunicação remota. Diga-se que Sindicatos e Partidos nem sempre valorizam esse fenómeno, havendo políticos que tratam com displicência os chamados ‘movimentos inorgânicos’. Depois sofrem surpresas desagradáveis.

Os protestos propagaram-se por diversas cidades brasileiras. São Paulo foi o ponto de partida. Agora, no desenvolvimento das agitações sociais, onde militantes de esquerda e partidários foram agredidos, o Movimento Passe Livre (MPL), primeiro promotor das manifestações, vem declarar pela voz de um dirigente, Rafael Siqueira, a suspensão das manifestações, devido à infiltração de “nacionalistas armados”.

A direita, no jeito revanchista que lhe é reconhecido historicamente, desvirtuou, pois, uma luta, talvez exagerada na informalidade e na inconsciência de meios utilizados e consequências, aproveitando a oportunidade para atacar o poder legítimo, constitucional e sufragado pela maioria do povo brasileiro. Nada de novo, apesar de tanto mar nos separar – ler aqui e aqui a posição do MPL e a evolução recente dos acontecimentos.

À semelhança do que o prestigiado Arnaldo Jabor afirma no vídeo, penso que 20 centavos de aumento nos transportes não é motivo suficiente para um milhão e picos de manifestantes agitarem um país de quase 190 milhões.

Haveria algo mais a dizer, a respeito das posições de Caetano Veloso, de actrizes e actores de telenovela e, finalmente, dos futebolistas Daniel Alves, David Luiz e Deco que, à custa do pontapé na redondinha, se debatem com enormes dificuldades na vida. Coitados.

Comments


  1. Já não há vídeo.

  2. Sarah Adamopoulos says:

    Lamentável discurso o deste senhor, muito repetido também por aqui, pelos que acham que o povo é igual ao que era há 50 anos, como se a classe média não tivesse crescido, e as sociedades fossem ainda maioritariamente compostas por massas de analfabetos. Não é porque os jovens são oriundos das novas burguesias que não estão revoltados. Saem à rua justamente porque o estado do Mundo os desgosta, saem movidos pela revolta de se verem e às suas famílias atirados para a pobreza a que os remetem as políticas injustas dos governos das nações. Podem não ter essas “grandes causas” de que fala o orador-moralista-passadista, mas têm causas sim, e uma delas (não negligenciável) é certamente mudar o Mundo, que bem precisa.


    • Sarah, nem sempre podemos estar de acordo. Eu sou da geração de esquerda dos anos 60.
      É redutor qualificar o discurso de Jalbor como “lamentável” condenação dos jovens e da classe média brasileira. Se ouvido na íntegra, o autor crítica essencialmente a contestação do aumento dos transportes de 20 centavos do Real, por jovens não favelados que incendiaram autocarros e cometeram outras acções violentas contra manifestantes de esquerda.
      Jalbor não deixa de se interrogar, nas palavras que profere, por que razão tais jovens não se rebelaram contra
      – os baixos salários dos polícias,
      – a inflação,
      – a fuga de capitais,
      – juros e dólar em alta,
      – a proposta de aprovação do PEC 37, que afastará o Ministério Público da instrução de processos judiciais, calendarizada para 26 de Junho pelo Congresso
      O que também está em causa, e foi destacado pela ‘Folha de São Paulo’, é a infiltração de jovens de ‘direita armados’, com agressões efectivas e filmadas pelas TV’s a jovens de esquerda, incêndios de autocarros e ainda assaltos e furtos a estabelecimentos, prejudicando pequenos comerciantes que são igualmente classe média.
      O Brasil está numa grande embrulhada, descobrindo-se agora que, afinal, a herança de Lula, com mensalão, processos de corrupção e megalomanias à mistura é demasiado pesada para qualquer sucessor. Dilma no caso.
      Todavia, a contestação, embora tenaz, tem de centrar-se em aspectos consistentes e legítimos objectivos políticos para uma sociedade melhor.
      Prefiro as opiniões de Jalbor às manifestações de solidariedade de futebolistas como Daniel Alves, David Luiz e Deco, senhores de fortunas e luxos que o pontapé na bola lhes possibilitou – manifestações inequivocamente hipócritas.

  3. Luis Neves says:

    Grande estúpido este Jabor! Não valem vinte centímos ??? Tás a Brincar!! Valem um voto cada um , valem tanto como o teu voto , e e eles estão a reivindicar um Brasil mais justo. Um milhão nas Ruas não representam só um milhão de Pessoas …. Representam muitos Milhões de Brasileiros que não se vêem representados por esta classe Politica . Se o sr. Jabor não percebe isso , então que proponha desde já eleições. Para ver o que a voz desse senhor representa e quem e quantos votos.

  4. Sarah Adamopoulos says:
  5. Sarah Adamopoulos says:
    • Carlos Fonseca says:

      Se, por conveniência e interesses de popularidade, Jalbor vem agora dizer que errou, jamais conseguirá apagar a realidade citada da evolução económica desfavorável do Brasil, das fugas de capitais e do PEC 37, por exemplo.
      Quanto à participação de grupos de extrema direita armados e as agressões a militantes do MPL e de outros movimentos e partidos não foram por ele referidos. A extrema-direita esteve presente. Notícias e imagens também deram conta de assaltos e pilhagens por jovens dos infelizes depósitos desumanos, ditos favelas.
      Também no ‘post’ censurei Lula, a corrupção e a megalomania do Mundial de 2014 e Olimpíadas de 2016, mantendo o Brasil situações sociais graves por resolver. Não tenho partido em Portugal quanto mais no Brasil. O PT falhou, e ainda escrevi em comentário a outro post o mérito de FHC.
      Jalbor diz que errou, mas outras opiniões melhor fundamentadas argumentam que a luta justa iniciada do MPL foi aproveitada por grupos de direita violentos.
      De resto, centrar agora a discussão apenas em Jalbor é muito, muito subjectivo. O Brasil é que é objectivamente o problema central. O resto é conversa de café, de avanços e recuos, de voltas e reviravoltas do mau jornalismo que inquina as verdades e, infelizmente, está em força por esse mundo fora.


  6. A situação que se tem vivido até agora de miséria no
    Brasil é inexplicável, quando deve ser o país mais rico
    do mundo , mas como foi gerado por portugueses creio
    que está tudo explicado , basta olhar para o que se pas-
    sa em Portugal . Somos um Povo da treta .
    Só espero que a revolta no Brasil não pare e que sirva
    de contágio positivo em tudo o mundo .
    Temos que mudar e melhorar esta Sociedade conspur-
    cada de corrupção , de falta de palavra , de persegui-
    ções , discriminações , roubalheiras , em suma , com
    falta de humanismo e de princípios . ´

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