Pobres, parvos e de mãos atadas

Os manifestantes que irritaram a presidente actualmente em funções na Assembleia da República, Assunção Esteves, não passavam de agitadores para ali enviados pelo PCP, dizem-me vários. É provável. Em qualquer caso, o sindicalista Mário Nogueira andava por lá, e aquilo terá porventura sido uma acção combinada (os jornalistas das têvês referiram os olhares suspeitos que esses elementos presentes nas galerias ditas do povo da AR trocaram entre si antes da performance propriamente dita), e não uma reacção espontânea vinda de cidadãos ali reunidos de forma não-organizada.

No entanto, vale a pena observar a que ponto a indignação os tomou, como de resto tem tomado muitos mais que se têm manifestado desde que a vida em Portugal se tornou um verdadeiro inferno para a maioria – que são os que pagam a austeridade deste Governo, o IVA a 23% nas facturas dos fornecedores domésticos, as propinas imorais (no caso dos que ainda conseguem manter os filhos e netos a estudar), os cortes nas funções sociais do Estado (o aumento das taxas moderadoras nas consultas e urgências hopsitalares, por exemplo), e também a reforma dourada de Assunção Esteves. Comunistas ou não, as suas vidas (sejam eles trabalhadores, desempregados, aposentados ou pensionistas) estão transformadas numa luta pela sobrevivência que os indigna.

A culpa também é deles? É – dos que se abstiveram de votar, designadamente, entregando o poder político a partidos que, sendo cada vez menos votados, representam cada vez menos portugueses. Tal como é de todos os que aceitam participar dos modos de fazer habituais na nossa sociedade, corrompida pelas cunhas, pelo tráfico de influências, pelas luvas e outras corrupções, pelo branqueamento. Os ricos cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais parvos, dizem-me outros. É bem verdade, embora também não seja mentira que a habitual ausência de investimento na Educação e na Cultura só produz mais parvos ainda. Assim estamos: pobres e parvos, apesar do exemplo Islandês, pelos vistos incapaz de inspirar uma sociedade assim maioritariamente composta.

O PCP, conhecido por observar uma convenientemente democrática não-radicalização do combate político, está representado na AR, e não deve também por essa razão participar (por exemplo enviando autocarros cheios de gente mobilizada pelos sindicatos e pelas câmaras comunistas) em manifestações daquele tipo na AR, dizem-me ainda. Há nessa acção política uma dissimulação que enerva muitos, embora alguns pelas piores razões, porque essencialmente movidas por um anti-comunismo primário e local (entenda-se nacional). Ainda assim estarão certos, como de resto certos estão quando consideram o Parlamento o símbolo maior e a verdadeira casa da Democracia. Assim é, mas como prosseguir respeitando a toda a prova os que lá se sentam assegurando representar-nos, perante as crescentes injustiças que têm acentuado de forma inaceitável as desigualdades no País?

Perante argumentos baixos e acções vis (como aqueles a que nos habituaram os governantes desde há muito) devemos ainda assim escolher a elevação, dizem-me, e jamais abrir mão das convicções do que consideramos ser justo. A outra face que o bom cristão estende será sempre virtualmente virtuosa, lá está. Mas e quando não há pão? Nem dinheiro para comprar medicamentos? Ou para pagar a casa? Vamos todos embora ser portugueses pelo Mundo (como alegremente um programa de tv num canal público incentiva) ou ficamos e escolhemos construir, por uma vez na História? Mas e como é que isso se faz? Com que cidadãos? Com que líderes? Com que elites? Com que política? Em que Europa?

Hoje é dia 14 de Julho. Em França e na nossa modernidade. Mas em Portugal a ruptura que representa a Tomada da Bastilha nunca se fez, e o regime reformista prossegue a sua caminhada histórica, reproduzindo uma sociedade em que a mobilidade sociocultural permanece grandemente uma miragem.

Comments

  1. nightwishpt says:

    E quando é que os presentes começam a respeitar a assembleia?

  2. palavrossavrvs says:

    Belo texto. Aplaudo de pé. Não acredito no Regime. Esforço-me por demoli-lo: não confio em líder político nenhum. No entanto, parece-me útil que esta legislatura seja concluída: a única forma de luta é aguentar firmes esta fome, este cerco. Somos, cá em casa, quatro irmãos. Só um de nós trabalha. Eu, desde 1 de Janeiro, decidi nunca mais gastar comigo um cêntimo em porra nenhuma [e preparar-me para uma sobrevivência alternativa fora do País. Custa. Às vezes falta-nos dinheiro, trabalho, dignidade, mas sobra-nos saúde, felicidade sexual e familiar].

    Até agora tenho conseguido [não gastar comigo um cêntimo em porra nenhuma]. Se eu e milhares suportamos o desemprego, os futuros desempregados do Estado nada têm a temer. É a vida. Suportamos o mau? Preparemo-nos para o péssimo. Se incendiarmos Lisboa, nada mudará em Bruxelas, Frankfurt ou Berlim.

  3. Rosario says:

    Texto demasiado grande, perdi-me, reti o nome Mario Nogueira, até a Igreja já percebeu que ISTO JÁ mudou, está a mudar, o Mario Nogueira não…


  4. “Se há algo que os protestos mais recentes demonstram é a importância do espaço público para um ensaio de mudança. Provavelmente seja a Tomada de Bastilha o exemplo mais paradigmático do oposto, isto é, do prestígio de um edifício na efectivação da revolta de um povo. É em praças como as de Tahir, Sintagma ou Taksim, que grandes ou pequenas vitórias são alcançadas pelos cidadãos e não do interior de edifícios onde – ficticiamente, dirão alguns – são representados.” http://hugopeepbox.wordpress.com/articles-pt/a-zaida-de-siza/

    • palavrossavrvs says:

      Nunca em Portugal. Há mais de cem anos a “mudança” começou com um magnicídio. É mais ao estilo do português aceitar a realidade que preparam para nós e deixar a um bando de rancorosos-ambiciosos qualquer coisa de mais drástico.


  5. Têm que protestar agora pois até ao final do ano haverá muito desemprego para todos. bfds


  6. Mais desemprego ?? Pois e depois de onde vem mais subsídios para quem é posto na rua ?? Não se acaba ?? E, entretanto, se os glutões do governo e AR e autarquias forem para a rua, quanta será a reforma de cada um – vitalícia – e onde a vão buscar ?? Isto parece tudo invertido havendo mais dispensados -reformados – pensionistas – não esquecendo os milionários exgovernantes reformados que jogam golf (não contando com os que viraram politólogos em tempo de reforma) + alimento para os partidos e campanhas e uma atroz pepineira – ficando a trabalhar pelo menos na FP uma meia dúzia enquanto não puzerem na rua mais uns milhares – se se mandam todos os FP, mais governantes e AR & outros – de que “saco” ou “pote” se lhes pagará ?? não sei prever nem fazer contas – nem Gaspar seria capaz está bem de ver – nem os “avós” vão poder valer a ninguém

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.