Egipto: o longo caminho para a democracia

Ismail Serageldin

Ismail Serageldin, o director da nova Biblioteca de Alexandria, esteve recentemente em Portugal para receber o Prémio Calouste Gulbenkian 2013. Entrevistado para o jornal Público, falou daquilo em que acredita: no poder das ideias, e no pluralismo. No seu país vivem-se por estes dias momentos de confronto entre os partidários das velhas e das novas ideias, entre islamistas (que pretendem impor no Egipto a vontade da Irmandade Muçulmana) e todos os outros, que representam cerca de metade dos cidadãos eleitores. Islamistas que não costumam aparecer nos debates promovidos pela Biblioteca Alexandrina, “encontros de teor tendencialmente liberal [e não falamos de economia]”, diz Serageldin, de que compreensivelmente não participam, imaginando talvez que dessa forma essas outras ideias perderão relevância na sociedade. Não podiam estar mais enganados – e a oposição ao deposto Morsi demonstrou-o. Morsi perseguiu os intelectuais, tentou calar os artistas, controlar os agentes culturais. É também isso que pelo menos metade da população do Egipto já não tolera: a governação pela força, contra tantos que pensam diferentemente, por governantes empenhados em impor à generalidade ideias que não servem aquilo em que assenta a democracia: o respeito pela diversidade.

Optimista, o director da nova biblioteca de Alexandria (símbolo da universalidade do conhecimento e do interculturalismo) acredita que a democracia vingará no Egipto. Mas vai lembrando, e bem, que “não há democracias funcionais instantâneas”, e que a coexistência pacífica das ideias não é nada que se faça por decreto: “Quando falo com os jovens na Biblioteca digo-lhes: ‘Querem democracia? Democracia significa pluralismo, diferença de opiniões.’ A chave é perceber que o importante na democracia não é o direito da maioria a decidir. A maioria pode forçar as suas decisões mas o principal em democracia é proteger a minoria da tirania da maioria. E isso significa que a minoria tem direito a ser ouvida, a ter os seus direitos protegidos. Tudo o que damos hoje por garantido já foi a posição de uma minoria. O poder das ideias, a interacção das ideias, é isso que a democracia protege. (…) A Irmandade cometeu um grande erro: pensou que podia fazer o que quisesse, sem lidar com os 48% que votaram contra Morsi. Ele prometeu que seria o Presidente de todos os egípcios, mas não foi.”

Comments


  1. Já era de esperar esta situação no Egipto , porque a
    Irmandade Muçulmana , queria impor uma ditadura ,
    aproveitamdo-se dos corajosos revoltosos que conse-
    guiram deitar abaixo o regime de Mubarak .
    O comportamento da Irmandade não me parece nada
    salutar e muito menos democrático , que se estava a
    aproveitar para impor um regime ultra-ditatorial , para
    os muçulmanos . perseguirem todos que não fossem
    dessa religião , como costumam fazer ..
    Esta é que é a verdade .


  2. “ele prometeu que seria o presidente de todos os
    egípcios, e não foi”
    Sarah, quero destacar apenas este último paragrafo
    e concluír, que a frase se pode aplicar a centenas de
    governos que me dispenso de inumerar. Deduzo
    também que sempre que tal aconteça, devam ser os
    generais com o apoio dos USA a colocar o carrinho
    nos carrís. Seguidamente fazem-se as eleições que sejam
    necessárias, até que o resultado seja o pretendido.

    sejam necessárias até que o resultado seja o que

    nos trilhos. A seguir fazem-se eleições até que as
    tenham o resultado desejado

    • Sarah Adamopoulos says:

      Sim, a frase pode aplicar-se a muitos outros presidentes e países. Quanto ao resto, percebo perfeitamente o que quer dizer, mas não foi nada disso que o post pretendeu defender, nem nada que se pareça.


      • Sarah
        Só me refiro ao último paragrafo, e nele está implícito
        a concordância com o golpe militar apoiado pelos USA.
        Se não é assim que pensa Sarah, peço-lhe desculpa.


  3. Separar a religião do Estado será um coisa assim tão difícil para os muçulmanos?

    • Sarah Adamopoulos says:

      Certamente que sim, que é muito difícil, sobretudo em razão do fundamentalismo que marca aquela sociedade – islamistas e seus opositores, pois vêm todos do mesmo caldo cultural. Basta ver a quantidade de egípcios disponíveis para serem mártires, numa guerra que vai sobretudo servir os que têm interesses no conflito religioso. A Irmandade Muçulmana convocou para esta tarde uma manifestação que seguramente não vai acabar bem, muito pelo contrário.


  4. não não vêm nem vão do mesmo caldo

    os que apoiaram o massacre de hontem pertencem às classes médias e ao funcionalismo que apoiaram o golpe de estado de 28 de Maio de 1926

    ou os mesmos que apoiaram Metaxas ou Pinochet ou…etc

    não há miríades de egípcios dispostos a morrer
    no exército e na polícia são obrigados a morrer ou a desertar e a ficar sem subsistência
    do outro lado há umas centenas de milhares que querem o fim da ditadura militar que domina economicamente o Egipto desde a independência…
    60 anos e picos é muito tempo para viver em ditaduras económicas

    a URSS nem aguentou 75….

    a china reformou-se economicamente no ano 40 da revolução
    e desde aí 28 anos de susexo


  5. logo dizer que os mais pobres que em motins do pão desde 2006 atentaram contra o monolitismo económico egípcio

    não são os mesmos na sua maioria que derrubaram o ditador militar e morreram pela ideia duma democracia que seria de curta duração pois Morsi tentou estrangular os garantes do poder económico egípcio

    estabilizando os preços e impedindo os aumentos especulativos das rendas

    Morsi foi apesar de todos os seus defeitos a única possibilidade de uma real mudança no mundo árabe do qual não faz parte

    pois tal como os Persas é uma civilização à parte….

    quem se vai lixar são os ocidentaes e os christãos pobres
    e todos devido à inflação que o conflito entre as massas miseráveis sem perspectivas de futuro e as cliques dominantes vai provocar


  6. acredite livremente mas não caia no normal erro de achar que nós somos mais democratas do que eles:

    • Sarah Adamopoulos says:

      Não caio. Mas não esqueço os melhores ideais, e por isso não aceito a barbárie (sob nenhuma forma) como uma inevitabilidade do destino humano, compreende?

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