O ano lectivo continua a começar

Nuno Crato continua a exercer o seu mandato com a tranquilidade dos assassinos contratados. Só assim é possível continuar a não resolver o problema da falta de funcionários nas escolas, graças à aplicação descontraída de uma lei desactualizada: assim, não há condições que as bibliotecas, as secretarias, as cozinhas e a vigilância dos alunos funcionem. Se juntarmos a isso as turmas com alunos a mais e as escolas com professores a menos, é fácil perceber que a Escola Pública está mergulhada num caos, com prejuízos graves para a parte mais frágil, os alunos.

A propósito do aumento do número de alunos por sala, qualquer profissional sabe que se trata de uma medida antipedagógica. Sabe-se, agora, que pode ser prejudicial à saúde.

Como se tudo isto não bastasse, é ainda graças a uma estrutura desumana que há alunos com deficiências sem direito ao apoio que uma sociedade civilizada deveria conceder-lhes. É assim que alunos surdos do Tâmega e Sousa continuam sem aulas por falta de transporte e é assim que nove técnicos de apoio a crianças autistas estão afastados das suas funções.

Entretanto, há alunos de cursos profissionais ainda sem aulas, porque continua a haver professores e técnicos por colocar.

O ano lectivo, com Nuno Crato, continuará a começar. Nada que o incomode: para isso, teria de ter vergonha ou consciência.

A directora do Agrupamento de Escolas Clara de Resende, no Porto, decidiu que a escola-sede será encerrada, enquanto não houver funcionários em número suficiente. Louve-se uma atitude que deveria, muito provavelmente, alastrar a muitas escolas do país, em que a virtude de querer compensar os disparates de Nuno Crato constitui, no fundo, um defeito, porque acaba por corresponder à aceitação de decisões que acabarão por prejudicar os alunos.

O comentador Rui Lima, neste texto do João Paulo, expele a opinião típica de quem pensa que os problemas são para suportar e não para resolver. É apenas mais um caso de ignorância atrevida e representante do estereótipo do portuguesinho que pensa que os professores, como não têm nada para fazer, servem para tapar qualquer buraco. Se o portuguesinho se começasse a preocupar verdadeiramente com a Educação em Portugal, estaria do lado das escolas contra o seu maior problema: o Ministério da Educação. Quando isso acontecer, não voltará a ser possível o cargo de ministro ser ocupado por vendedores de banha da cobra.

Comments

  1. rui lima says:

    Tá enganado é exactamente para resolver problemas pontuais, sabia que a escola tem varios funcionarios de baixa ? esse é o problema !

    • António Fernando Nabais says:

      E sabe quanto tempo durará cada uma das baixas para poder afirmar que é pontual? Seja como for, esse não é o problema.

  2. Hugo says:

    Não sei qual é o problema de colocar os professores que não têm turmas a desempenhar PONTUALMENTE estas funções no caso de indisponibilidade temporária dos funcionários respectivos. Ou então aproveitar parte do horário não-lectivo, que decerto não estará preenchido, pois estamos no início do ano. Acho que isso é prática comum em qualquer serviço seja ele público ou privado, desde que obviamente as competências técnicas do lugar a substituir estejam ao alcance do substituto.

    Posso dar o meu exemplo pessoal quando há quatro ou cinco anos fui dar aulas numa escola pública, em virtude da doença de um colega. Entretanto o colega regressou e eu fiquei sem ter que fazer. Colocaram-me na biblioteca a fazer outros serviços que na altura eram necessários. Se me mandassem para porteiro, ia na mesma. Se me mandassem para a cozinha, provavelmente teriam as piores refeições de que havia memória naquela escola, mas não era por isso que deixava de trabalhar.

    Acho que mais importante que estar a discutir quem tem a culpa de quê é manter as escolas abertas. E trabalhar na portaria, na cantina ou na biblioteca é tão digno como trabalhar na sala de aulas.

    • António Fernando Nabais says:

      Não há dúvida de que o pior cego é aquele que não quer ver: ninguém põe em causa a dignidade seja de que trabalho for. Pode haver pessoas indignas; não há trabalhos indignos. Estamos esclarecidos? Podemos, finalmente, passar ao que interessa?
      Ainda assim, à cautela, vá lá mais uns truísmos, para ver se nos entendemos: um porteiro é um porteiro e um professor é um professor, tal como um médico é um médico e um enfermeiro é um enfermeiro, tal como um juiz é um juiz e um empregado de limpeza é um empregado de limpeza. A partir daqui, e não desprezando, obviamente, situações muito, muito pontuais, cada macaco no seu galho.
      Professores que não têm turmas? Boa piada, Hugo. Nas escolas, a situação é a inversa: há turmas que não têm professores.
      O horário não-lectivo “decerto” não estará preenchido? Decerto?
      O facto de o Hugo ter estado a desempenhar funções que não cabem a um professor (porque não cabem a um professor) é argumento para que os professores possam desempenhar qualquer função, mesmo que não se enquadre no âmbito das suas funções? Não percebe que isso significa a abertura de um precedente gravíssimo e um atentado ao trabalho de todos e não apenas dos professores, não estando aqui, mais uma vez, em causa a dignidade de qualquer função?
      Não é importante saber quem tem a culpa de quê? O importante é manter as escolas abertas, mesmo que isso signifique que os alunos estão a ser prejudicados? Num contexto em que vários governos têm vindo, há anos, a reduzir o pessoal (docente e não docente) nas escolas com base unicamente em critérios economicistas, há que aguentar e colaborar nos prejuízos causados aos jovens, andando de um lado para o outro a tapar buracos?
      Entretanto, pensa que, dentro das escolas, não é já prática corrente, de uma maneira geral, que todos colaborem uns com os outros, independentemente da função?
      Santa paciência!

    • Pedro says:

      Hugo, os miúdos mandam dizer para não se aproximar da cozinha, por favor… Ainda não percebeu nada, pois não? Issso que defende passa-se em locais do terceiro mundo. É isso que pretende?


  3. Reblogged this on primeiro ciclo.


  4. Desejava ter um ministro da educação e não um ministro dos trabalhadores das escolas ;pelas queixas acima pelos vistos um mau ministro. Como não sou trabalhador das escolas só posso dar a minha visao de eleitor/cidadao : critico que desde há muitos anos se tem confundido os problemas laborais com a educação e claro com o grande sacrificio dos alunos e familias serem joguete de falata de escrupulo de gente que centra o mundo no umbigo. Por azar nosso t~em um umbigo grande demais para o dinheiro que o país tem para gastar. claro que se tivessemos tido M. Educação já isso teria tido solução, mas infelizmente tivemos negociadores sindicais até agora. Só espero que venha um governo que preze mais boa governação e que se esteja marimbando para as eleiçoes. Assim o peso dos duzentos mil votos seria tido emconta tal como os restantes cidadaos.

    • António Fernando Nabais says:

      Nuno Crato não é ministro da Educação e nunca foi ministro dos trabalhadores das escolas. Um ministro da Educação deve preocupar-se, exactamente, com a Educação, o que inclui preocupar-se com quem trabalha nas escolas, do mesmo modo que qualquer dono de uma empresa sabe que o rendimento dos trabalhadores depende, também, das condições de trabalho, o que vai além dos salários. Por muitos defeitos que os sindicatos e os professores tenham, as escolas estão reféns de decisores políticos que não se preocupam com os jovens.
      Os trabalhadores das escolas, tal como muitos outros, têm vindo a perder direitos e rendimentos, o que mostra, ao contrário do que o António e muitos outros pensam, que o nosso poder reivindicativo é extremamente limitado.
      Finalmente, apesar de todos os defeitos que os sindicatos ou os professores possam ter, têm sido estes a alertar a opinião pública para os vários prejuízos causados aos jovens, como, por exemplo, o aumento do número de alunos por turma ou a criação de mega-agrupamentos que tornam muito mais difícil a gestão das próprias escolas.
      O António, prisioneiro dos mesmos preconceitos de grande parte da opinião pública, vê os professores como o grande problema da Educação em Portugal. Está enganado.

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  1. […] … o ano lectivo., tal como o António Nabais esceveu ontem. […]


  2. […] Poderia ter querido saber se as escolas tinham auxiliares suficientes, mas tomou a decisão de as obrigar a abrir de qualquer maneira. […]


  3. […] dita reforma comemora hoje um mês, tal como o ano lectivo que, tal como há um ano, não pára de começar, com consequências negativas para os mexilhões, como é costume: entre […]

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