Uma ponte contra o esquecimento

Ponte 25 de Abril
© Nuno Saldanha

Há uns quinze anos ou coisa que o valha, a propósito das pontes sobre o Tejo (a Vasco da Gama acabara de ser inaugurada), escrevi um texto defendendo que os nomes das grandes obras de Estado não deveriam mudar de nome com a mudança dos regimes. Fui muito atacada, e o editor fez questão de se livrar de toda e qualquer responsabilidade relativamente ao que escrevi, publicando uma caixa de texto dizendo isso mesmo. Defendia eu que não se deveria ter renomeado a ponte anteriormente designada por Ponte Salazar, não para celebrar a obra do ditador, Deus me livre, mas para que a memória de quem foi e do que fez ao povo português durante perto de 50 anos não fosse assim apagada, por renomeação decretada por impulso revolucionário, e pudesse dessa forma sobreviver ao esquecimento.

Continuo a pensar que estava certa, embora hoje não me passasse pela cabeça assinar semelhante texto, porque tenho sobre a memória histórica dos portugueses uma outra ideia, que deriva do que aprendi sobre a sociedade portuguesa. Sei por exemplo que muitos jovens (a maioria?) não sabe o que aconteceu em Abril de 1974, o que é evidentemente muito grave: um problema de Educação, que tem que ver com o ensino da História – mas não só. Há nos portugueses uma vocação constitutiva para o esquecimento, e embora não esqueça que esquecer é esconder o que se lembra, a historiografia contemporânea estuda isto, e sabe que é no esquecimento (na memória emotiva silenciada) que está muito daquilo que importa investigar.

O post aqui hoje publicado por Joaquim Carlos Santos, a propósito da manifestação que a CGTP está a organizar para o dia 19 deste mês, ilustra bem o que aqui escrevo: as suas palavras, provocadoras, usam o nome de Salazar com a ligeireza de quem esqueceu. De quem esqueceu quem foi Salazar e de quem esqueceu o que representou o 25 de Abril, a que contudo o provocador deve a liberdade de poder escrever e publicar incessantemente, neste lugar plural, o mesmo post. O mesmo post de vergonhosa propaganda ao Governo e à austeridade da Troika (sobretudo sendo ele um desempregado) e de constante ataque à Oposição, alternando entre a proverbial e doentia sanha ao PS e um anticomunismo primário que só pode ter origem nesse lugar do esquecimento, de que também ele é um herdeiro e uma vítima.

Comments

  1. Hugo says:

    Não me repugna minimamente a alteração do nome de monumentos. Muito mais importante é ensinar nas escolas as conjunturas históricas por trás das designações antigas e modernas desses monumentos e o porquê da mudança do nome.
    No caso do Salazar, da ditadura e do 25 de Abril, é como diz, muitos jovens não sabem o que foram, o que pode ser extremamente perigoso para o nosso regime democrático num futuro próximo. E daqui a 13 anos completam-se 100 anos sobre o golpe que viria a dar origem ao Estado Novo.
    Infelizmente, não são só apoiantes do governo quem revela leviandade em relação à figura de Salazar. Muitos dos contestatários ao executivo já o acusaram de fascista. E isto em manifestações públicas. Outros, em blogues ou redes sociais, usando a sua liberdade de expressão, comparam o PM ou alguns ministros ao próprio Salazar ou ao próprio Marcelo Caetano. Isto é dar a ideia aos jovens que já tão pouco sabem sobre a ditadura que afinal esta não foi assim tão má quanto a pintam.

    • sinaizdefumo says:

      Plenamente de acordo Hugo.

    • nightwishpt says:

      Lá por não poderem implementar tudo o que lhes apetece não faz deles menos fascistas. Se hoje o que tentam combater são as pensões e o emprego, amanhã seria proibido falar mal do governo e fazer manifestações para não perturbar os mercados.
      Que não haja a mínima dúvida, esta gentalha pretende garantir rendas eternas aos privados e nenhum direito aos trabalhadores. Isto já nem é fascismo, é feudalismo.

  2. sinaizdefumo says:

    Dizer que Joaquim Carlos Santos faz «… vergonhosa propaganda ao Governo e à austeridade da Troika» parece-me francamente exagerado. O “constante ataque à oposição” e a “proverbial e doentia sanha ao PS” parecem discos riscados mas são direitos que lhe assistem.

  3. atento says:

    ena ena tanta comunagem !

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