A manif anti-pró-troika

Ontem foi dia de mais uma manif, que afinal não o foi. Ou foi, mas o contrário do que estavam à espera que fosse. Afinal, a manif pró-troika consistiu numa forma de romper aquilo que o movimento Que Se Lixe a Troika considera ser um bloqueio mediático às manifes de dia 26, que terão lugar em todo o país. A acção foi muito bem conseguida e deve fazer-nos pensar em pelo menos dois aspectos.

O primeiro: por que motivo terão os media deixado de acompanhar um movimento que, a 15 de Setembro de 2012 e, ainda que com menos intensidade a 2 de Março de 2013, teve tanto impacto e encheu capas de jornais? O momento foi espoletado pelo jornal i, com esta encomenda que procurou e terá conseguido, de alguma forma, desmobilizar algumas pessoas da participação e da luta. Ou seja: para os media dominantes, os protestos mereceram destaque enquanto seriam, nas cabeças de alguns, movidos contra um adversário abstracto, inerte, sem forma e sem conteúdo. A partir do momento em que se percebeu que eram protesto consequentes e não 1.000.000 de pessoas a gritar cada uma por si, a coisa perdeu força nos media. E eu, que não acredito em coincidências, acho que foi também por isso que, desde então, fora das redes sociais o QSLT perdeu espaço, que ganhou a pulso, com as Grândolas e outras formas de protesto.

Perdeu-o porque o alvo do protesto alargou-se e a troika passou a ser também o governo – oficial e oficioso, juntando-lhe os cúmplices silenciosos. E isso, nos media, paga-se caro. Normalmente, até se ignora. Por isso continuo a defender os blogues e as redes sociais como órgãos de informação, de consciencialização de quem todos os dias é formatado pelo papel dos jornais ou pelas tv.

Segundo: Não houve na acção do QSLT qualquer ideia de gozo com o trabalho dos jornalistas, como já vi numa reacção indignada de uma profissional da área. E parece que não é a única. A verdade é que o QSLT, que faz mexer muita gente e mobiliza gente de vários quadrantes, da Isabel Moreira à Rita Rato, procurou anunciar uma manifestação e não conseguiu o impacto mediático de outros tempos. Ora, o que deve, quanto a mim, fazer pensar os profissionais da área é por que motivo foi necessário recorrer a este tipo de guerrilha mediática. Pelo que parece, ontem compareceram todos, sem excepção. Até uma tv turca.

A suposta manifestação pró-troika foi marcada por sete pessoas – sete. E teve impacto imediato nas edições online. Se eu juntar sete pessoas em defesa da repartição de finanças que vai encerrar em S. Mamede, terei direito a todo o aparato? Não, porque isso é uma merda que a Lusa há-de fazer, enquanto não lhe cortarem as verbas e fecharem ainda mais secções.

O que deve preocupar os profissionais da comunicação, depois do exemplo de ontem, em lugar da indignação por terem sido enganados, como foi a maioria das pessoas que informam, é a forma como trabalham hoje as redacções, ou o que resta delas. A forma como o não-jornalismo está para ficar se não forem os próprios jornalistas a exercerem o seu dever de informar, a denunciarem as pressões que sofrem e as agendas mais ou menos escondidas deste ou daquele director.

Manifestem a vossa indignação com os bifes do Lomba, que foram nados-mortos, mais as conferências de imprensa que se transformam em declarações e vocês lá vão; enforma o povo que levou com 10 minutos de palavreado e, no final, o jornalista já não tem direito a perguntas. Já nem sequer informa, porque há agora os especialistas em tudo e mais alguma coisa que nos explicam o que convenientemente nos foi dado a ouvir. Manifestem a vossa indignação quando o vosso órgão organiza debates entre os que consideram a miséria inevitável e os que consideram a miséria inevitável, como ainda hoje aconteceu.

A indignação que devia fazer saltar a tampa a qualquer jornalista está, muitas vezes, na secretária ao lado, onde um gajo trabalha ilegalmente a recibos verdes, onde a falta de gente faz um press release sair em forma de notícia, onde quase todos são obrigados a escrever para um grupo económico e não para um título. Pode haver jornalistas a quem agrada ler as mesmas coisas nos jornais da Controlinveste, da MediaCapital, da Cofina. A mim, que leio pelo menos 4 diariamente, não agrada.

Obviamente, subscrevi o manifesto e estarei na manif de dia 26 e em todas as outras que visem correr com a troika e com o bando de ladrões que nos governa. A quem quiser juntar-se, pode fazer o mesmo aqui.

Comments


  1. Reblogueó esto en fermin mittilo.

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